Sopa de Cebola

Todos nós fizemos coisas no passado que preferíamos esquecer. Eu, por exemplo, tenho um passado culinário negro. Lá pelos onze anos comecei a criar receitas e anotá-las em um caderninho. Se esse caderninho ainda existisse eu iria queimá-lo, tamanha a vergonha que ele me causaria. Minhas receitas tinham ovo, salsicha ou mortadela (ou os três juntos), muita margarina, um pouco de cebola e tomate e eram “temperadas” com maionese, ketchup ou mostarda (ou os três juntos). E todas essas receitas iam parar invariavelmente dentro de um pão. Eu comia aquilo achando que tinha inventado uma obra prima da gastronomia.

Mas o pior ainda está por vir. Lembro de umas férias que passei em Itajá (interior do RN), onde uma parte de minha família mora, e junto com minha prima Rayllívia, que também gostava de cozinhar, decidimos elevar nossas experiências culinárias a um grau mais sofisticado: decidimos fazer patê! Nós ignorávamos completamente a composição dessa iguaria e inventamos nossa própria receita. Colocamos algumas salsichas no liquidificador, juntamos uma cebola crua, alguns tempeiros, um pouco de água e trituramos tudo. Minha tia, a mãe de Rayllívia, ao ver nossa criação fez uma careta discreta e batizou nosso patê de “engrolé”. Nós não ligamos muito, achamos nosso engrolé uma delícia e comemos tudinho… com pão. (Parece que o destino de todas as minhas receitas da época era acabar dentro de um pão)

Rayllívia ainda gosta de cozinhar e felizmente, assim como eu, desistiu de fazer patê de salsicha há muito tempo. Ela é apaixonada por cebola e tem o costume de acrescentar sopa de cebola desidratada em boa parte dos pratos que faz. Lembram da minha irmã caçula que acha que comida pra ser gostosa tem que ter creme de leite? Rayllívia acha que comida pra ser gostosa tem que ter cebola. E ela está certíssima! Por isso criei uma receita especialmente pra ela.

Sopa de cebola é um prato tradicional francês mas, por mais que eu adore cebola, ele nunca me apeteceu. Eu via um monte de cebola boiando em caldo de carne e pensava que aquilo não podia ser bom. Até o dia, mais ou menos um ano atrás, em que decidi deixar meus preconceitos de lado e experimentar a famosa sopa. Segui a receita clássica, fazendo algumas mudanças pra torná-la vegana. O resultado? Eu tinha razão, um monte de cebola boiando em caldo não é muito interessante. Mas a receita tinha potencial! Fiz mais algumas modificações pra deixar a sopa mais consistente e depois de três tentativas cheguei ao resultado que estava procurando. Claro que o sucesso da sopa vai depender da sua relação com cebola. Se você não gosta de cebola, obviamente deve ficar longe desta receita. Mas pra os outros esta sopa é o nirvana. Imaginem um creme de cebola bem temperado, com notas de vinho branco, recheado com fatias de cebola douradas que derretem na boca e torradinhas crocantes que complementam perfeitamente a cremosidade da sopa. NIRVANA!

Esta sopa é um presente pra minha prima adoradora de cebola, que dividiu tantas vezes a cozinha comigo. Espero fazê-la esquecer o engrolé da nossa infância (e o meu passado negro culinário).

Sopa de Cebola

Não deixe a simplicidade dos ingredientes te desencorajar: essa sopa é sublime! O segredo pra fazer uma sopa de dar água na boca é usar um ótimo caldo de legumes, melhor ainda se for orgânico. O vinho usado aqui tem que ser bem seco. Vinho suave é adocicado e estragaria a receita.

6 cebolas brancas médias

6 dentes de alho picado

1 batata grande

1x de vinho branco seco

2 cubos de caldo de legumes (de preferência sem muito sal)

2l de água

6cs de azeite

sal, pimenta do reino e noz moscada (opcional)

croûtons (receita abaixo)

Descasque as cebolas e corte-as ao meio no sentido vertical. Corte as metades em meia-luas finas (não finas demais). Em uma panela grande, doure a cebola no azeite em fogo baixo. Cuidado pra não queimar. Enquanto as cebolas cozinham, descasque e corte a batata em pedaços grandes. Quando a cebola estiver bem dourada junte o alho picado e os pedaços de batata. Refogue durante dois minutos (ou até o alho ficar ligeiramente dourado) e junte o vinho branco. Deixe o vinho evaporar quase completamente e acrescente os cubos de caldo de legumes e a água. Aumente o fogo e espere a sopa começar a ferver. Quando isso acontecer, tampe a panela, baixe o fogo e deixe a sopa cozinhar até as batatas ficarem bem macias e o líquido ter reduzido bastante. Com uma colher grande, “pesque” os pedaços de batata (cortar as batatas em pedaços grandes facilita o trabalho) e deixe esfriar um pouco em um prato. Passe as batatas com uma concha de sopa (caldo mais um pouco de cebola) no liquidificador até ficar cremoso. Devolva a mistura à panela, mexa bem e prove o sal. Junte um pouco de pimenta do reino e duas pitadas de noz moscada ralada na hora. Esquente a sopa e sirva cada prato coberto com croûtons. Serve 4 pessoas.

Croûtons

“Croûtons” são cubinhos de pão torrado. Nem pense em fazer a sopa de cebola sem eles! Como eu disse, o contraste entre a cremosidade da sopa e o crocante dos croûtons é divino. Além de complementar o sabor, o pãozinho transforma a sopa em uma refeiçao mais substanciosa.

4 fatias de pão de forma de boa qualidade (melhor se for integral, como o que usei na foto)

2cs de azeite

Retire a casca do pão de forma e corte cada fatia em oito cubos (em dezesseis se você estiver com coragem). Na maior frigideira que você possuir, aqueça 1cs de azeite e junte metade do pão e tente espalhar bem pra que todos os cubinhos fiquem em contato com o azeite. Deixe fritar sem mexer durante alguns minutos, em fogo médio. Quando os cubinho estiverem bem dourados e crocantes, dê uma sacudida na frigideira pra que eles virem e assem do outro lado. Se você tiver muita, muita coragem, vire cubinho por cubinho. Repita a operação com a outra metade do azeite e do pão.

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