Irlanda

Obrigada pelos comentários carinhosos (alguns emocionantes) sobre meu último post. Estou vivendo um dos momentos mais importantes da minha vida e a presença dos amigos, mesmo que seja virtual, conta muito.

Minha longa ausência tem uma justificativa: eu estava em lua de mel na Irlanda. Sempre senti uma forte atração por esse país e há muitos anos tinha planos de visitá-lo. Anne morou um ano lá, adorou e sempre quis voltar. Quando começamos a pensar na nossa lua de mel, a Irlanda pareceu a destinação mais lógica. Decidimos visitar uma parte ainda selvagem da ilha (Connemara, na costa oeste) e a viagem não poderia ter sido mais maravilhosa. Aqui vão algumas fotos pra provar. (Aviso: embora o tema desse blog tenha desviado um pouco nas últimas semanas, ele ainda é dedicado à cozinha vegetal. Muitas receitas virão. Aguardem.)

O “cottage” que alugamos no vilarejo de Tuly Cross. Devia ter menos de cem habitantes nesse lugar e tudo que ouvíamos ao redor era o barulho do mar e o mugido das vacas. Também alugamos esse carro pra poder explorar a região. Na Irlanda eles usam a “mão inglesa”, ou seja, dirigem do lado esquerdo da estrada. Anne se acostumou rápido, eu só precisava gritar de vez em quando “esquerda!” e ela se endireitava (ou melhor, se esquerdava). Mas eu fiquei tão desorientada que a primeira vez que peguei o carro não conseguia nem lembrar qual dos pedais era o freio e qual era a embreagem. E passar a marcha com a mão esquerda? A mudança foi demais pro meu cérebro e me embananei toda. Achei mais prudente deixar Anne dirigir. Ela se adaptou melhor à essa história de dirigir do lado “errado”, embora eu tenha flagrado ela tentando passar a marcha na porta algumas vezes (costume de passar a marcha com a mão direita).

A cozinha era um sonho. Pelo menos pras pessoas que, como eu, sonham com cozinhas. Toda equipada (o fogão era elétrico, o que eu detesto, mas esse era o único defeito), espaçosa e banhada em luz natural, graças as janelas que davam pro jardim. Preparei pratos ótimos nela e em breve dividirei alguns com vocês.

John, o proprietário da casa, deixou um vasinho com flores em cima da mesa de jantar pra nos acolher. Ele me ensinou tudo sobre ovelhas (a Irlanda é cheia delas) e eu o ensinei a fazer legumes assados com alecrim fresco. Ele confessou depois, meio sem jeito, que pretendia comer meus legumes com ovelha. Eu disse que isso não me incomodava, contanto que ele não me pedisse pra degolar a ovelhinha e cozinhá-la.

A vista da sala de jantar. Todo os dias de manhã comíamos aveia irlandesa (falarei mais sobre ela outro dia) olhando o mar ao longe. Várias vezes avistamos golfinhos.

Esse é um cantinho da sala. Fizemos tanto fogo nessa lareira que no último dia a sala estava completamente defumada. Se alguém fechasse os olhos e cheirasse a poltrona, juraria que aquilo era um provolone gigante. Mas nada melhor do que sentar em frente à uma lareira e curtir o calor das chamas ao lado de quem se ama. Uma das experiências mais românticas e aconchegantes que se pode ter.

Essa era a vista da sala (e o nosso vizinho mais próximo).

Clifden, a capital do Connemara. Uma cidade de 1900 habitantes, muitos pubs, restaurantes e fachadas coloridas. Tinha até uma loja de produtos naturais com tofu, tempeh, iogurte de soja e afins. Comprei lá um pacotinho de uma alga marinha chamada “dulse” e estou louca pra experimentar. Perguntei ao vendedor como preparar a alga e acabamos conversando durante quase uma hora sobre a situação na Palestina. Eu consigo ser a embaixadora da Palestina em qualquer circunstância, até quando compro alga marinha no interior da Irlanda.

Vimos praias lindas, com areia branca e águas cristalinas. Se a temperatura tivesse aumentando uns 15 graus eu teria me sentido em um país tropical.

Mas em algumas praias no lugar da areia tinha pedacinhos de corais (pelo menos é o que eu acho que era). Fiquei fascinada com essas coisinhas de formas tão variadas e até pensei em trazer um pouco pra casa de lembrança. Depois pensei que essa não era uma idéia muito ecológica e me contentei em tirar uma foto.

Adoro ver Anne em ação. Quando ela está de férias ela faz o estilo “fotógrafa rebelde que tira foto com os cabelos na cara”.

Encontramos tantas casinhas (“cottages”) mimosas pelo caminho… Algumas com cara de casa da vovó de Chapeuzinho Vermelho, outras com cara de casa de bruxa, outras que pareciam com a casa de Asterix.

Também encontramos muitos animais interessantes, inclusive algumas ovelhas com tendências punk.  Essa apostou no azul, mas tinha ovelha tingida de laranja, outras de vermelho, outras de verde…

Ovelhas eram às vezes as únicas criaturas que cruzavam nosso caminho. Reparem a rebeldia dessa ovelhinha:  ela anda no lado direito da estrada, desafiando a mão inglesa! Decididamente as ovelhas irlandesas são invocadas.

Um dia fizemos um passeio pelas colinas e no começo da caminhada esse cachorrinho decidiu nos seguir. Ele nos acompanhou durante horas, subiu e desceu a colina conosco, mostrando sempre o melhor caminho. Em um arroubo de originalidade eu o batizei de Totó e ele até respondia quando eu chamava. Na volta Totó ficou exatamente no lugar onde o achamos, como se estivesse esperando outras pessoas passarem. Suspeitamos que Totó era um cão guia turístico.

Eu adoro vacas, acho que são um dos animais mais zen do planeta. Tenho uma vaca chamada Macabéa, mas ela mora no sítio dos meus pais e quase nunca a vejo. Na Irlanda as vacas são tão gordas e grandes que Macabéa se sentiria anoréxica (mas eu prefiro você, Macabéazinha). Outra coisa que chamou minha atenção foi o capim. Tão verde que era quase fosforescente. Fiquei tão impressionada com esse capim que tive que conter um impulso de me abaixar e comê-lo. Um capim assim graúdo, suculento, cheiroso e verdíssimo deve ser cheio de antioxidante. Deu quase vontade de ser uma vaca irlandesa e passar o dia pastando.

Espiei tanto o capim que esse bezerro começou a me olhar meio desconfiado. Será que ele ficou com medo que eu roubasse o almoço dele?

Nove dias de caminhadas pela natureza, se perdendo em estradinhas desertas, admirando paisagens belíssimas, de noites passadas em frente à lareira, de encontros inusitados… e, como não podia deixar de ser, uma viagem rica em prazeres gustativos. No próximo post mostrarei minhas descobertas gastronômicas na “Ilha Esmeralda” (ou, “o que o irlandês consume além de cerveja Guinness e ovelha”). Descubram o que é que a Irlanda tem.

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