Legumes do mar

Muito obrigada pelos comentários sobre o meu último post. Se depender de mim o Papacapim vai comemorar muitos outros aniversários. Alguns de vocês sugeriram que eu falasse mais sobre minha vida aqui na Palestina (pretendo fazer isso em breve) e uma leitora (opa, Yoko!) teve uma ótima ideia: escrever um post sobre restaurantes veganos aí no Brasil e pedir que os leitores dividam seus endereços preferidos. Pretendo escrever sobre isso na minha próxima viagem ao Brasil (em breve), mas se eu esquecer, por favor, me cutuquem novamente.

Entre o projeto no campo de refugiados, o livro de receitas, a criação de um ebook em Francês com receitas do blog (atendendo aos pedidos dos amigos e da família francesa) e todas as minhas outras atividades, ando sem tempo pra cozinhar algo que mereça aparecer por aqui. Mas semana passada fiz um prato que pairava na minha mente há mais de um ano e, como ficou ótimo, cá estou pra dividir a receita com vocês.

Eu não sei como as outras pessoas criam pratos, mas comigo a coisa acontece geralmente de duas maneiras. Tem dias que abro a geladeira e decido preparar algo com os ingredientes que achar por lá. Às vezes dá muito certo, às vezes nem tanto. Mas na maior parte do tempo eu imagino a receita inteirinha na cabeça, um processo que pode levar segundos ou meses, antes de ir pra cozinha. Eu passo a maior parte do meu dia, e um pedaço da noite, cozinhando mentalmente. Quando acho que a ideia é boa anoto no meu caderninho de ideias gastronômicas pra fazer quando tiver todos os ingredientes necessários. Foi assim com a receita de hoje, que chamei de legumes do mar porque sou péssima pra criar nomes interessantes pros pratos que invento.

A inspiração veio de um prato típico da culinária portuguesa que eu nunca provei durante meus anos de onivorismo. Se você deu uma olhada na lista de ingredientes provavelmente percebeu que minha receita é muito semelhante à bacalhoada, mas sem peixe, claro. Minha intenção não foi criar uma bacalhoada vegana e sim fazer um prato que combinasse os ingredientes dessa famosa receita portuguesa, mas que fosse vegetal e nutritivo. Eu já tenho uma receita de ensopado marinho que sempre faz sucesso por onde passa, mas queria expandir meu reportório de pratos com algas e, ao invés de sair colocando wakame no arroz com feijão, preferi partir de uma receita tradicional e substituir o animal marinho por uma planta marinha. Faz sentido, não? As algas garantem o sabor, mas eu precisava de algo mais substancial e rico em proteínas pro prato ficar completo. Foi então que o grão de bico foi convidado a entrar na panela e quase batizo a receita de “grão-de-bicoada”.

Como disse, nunca comi bacalhoada, mas tenho certeza que meus legumes do mar passam bem longe do prato típico português. Porém isso está longe de ser um problema. A bacalhoada foi só a inspiração, mas o resultado que eu estava procurando era exatamente esse: um prato vegetal rico em proteínas, saboroso e com uma dose extra de nutrientes, graças às algas marinhas. Não sou uma grande apreciadora de receitas vegetais que tentam imitar receitas de origem animal, então não vou dizer a ninguém que o grão de bico está substituindo o peixe da receita. (Quer dizer, só pra vocês, mas vai ficar entre nós, não é?) Aconselho vocês a fazerem o mesmo. Apreciem esses legumes pelo que eles são (gostosos e originais) e não pelo que eles estão tentando ser (porque eles não estão tentando ser nada além disso. Eu sei porque foi eu que inventei a receita.). Espero que vocês gostem tanto dos meus legumes do mar quanto os moradores daqui de casa (humanos e felinos-a prova está no final do post).

 

Legumes do mar

1 cebola grande em fatias finas

1 pimentão (verde ou vermelho) em fatias finas

4-6 dentes de alho amassados/ralados

4 tomates em rodelas

3 batatas médias, descascadas e cortadas em rodelas finas

1 1/2x de grão de bico cozido

1 cubo de caldo de legumes

2cs de algas desidratadas em flocos (usei wakame e dulse)

2cs de azeitonas pretas

Um punhado de salsinha picada

Azeite, sal e pimenta do reino

Em uma panela média, aqueça uma colher de azeite e doure a cebola. Junte o pimentão e o alho e refogue durante mais alguns minutos. Acrescente o tomate, a batata, o grão de bico cozido, o caldo de legumes e as algas. Cubra com aproximadamente um litro de água (lembre-se que os tomates vão soltar bastante água então cuidado pra não acrescentar água demais). Deixe cozinhar em fogo médio, coberto, até as batatas ficarem bem macias. Se o líquido secar antes das batatas cozinharem junte mais um pouco de água. Se ainda tiver muita água quando as batatas ficarem prontas, aumente o fogo e deixe cozinhar descoberto até a maior parte do líquido se evaporar. Quando os legumes estiverem bem macios e o líquido tiver reduzido bastante, junte as azeitonas, a salsinha picada e pimenta do reino a gosto (seja generoso). Corrija o tempero e regue com um fio de azeite antes de servir. Rende 4 porções. Sirva acompanhado de arroz e uma salada verde.

Essa receita foi testada em animais (e aprovada).

Anúncios