Tartine de banana com tahina e canela

Durante meus anos de universitária em Paris eu levava uma vida tão corrida que ao escutar o despertador tocar de manhã eu só desejava uma coisa: mandar a faculdade e o trabalho sem graça pras cucuias, me mudar pra um sítio em algum lugar remoto e passar o resto dos meus dias criando galinhas. Essa vontade estranha de criar galinhas não durou muito, mas o sentimento de estar vivendo a vida errada e querer mudar radicalmente de vida me acompanhou durante bastante tempo.

Hoje minha vida continua corrida e ainda por cima ela é muito mais caótica do que antes, mas a impressão de estar vivendo a vida errada desapareceu. E quando acordo de manhã (na maior parte do tempo sem despertador) desejo que o dia tenha mais horas pra poder fazer tudo que gostaria. Nas últimas duas semanas eu trabalhei na tradução de algumas receitas (pro futuro ebook em Francês), acompanhei uma amiga belga em Jerusalém, guiei uma família francesa no campo de Aida, dei aulas de francês, recebi a visita de um grande amigo francês, encontrei um grupo de peregrinos belgas que queria saber mais sobre a situação na Palestina e sobre o meu trabalho com os refugiados, organizei um jantar pros mesmos peregrinos no campo, ajudei um canadense a achar uma família palestina que quisesse hospedá-lo, levei o tal canadense pra entrevistar um dos meus amigos palestinos (ele está fazendo um documentário sobre a Palestina), dei uma entrevista pro canadense (da qual me arrependo ligeiramente), encontrei um grupo de americanos na casa de Islam (a coordenadora palestina do meu projeto) e expliquei a situação nos campos de refugiados daqui, guiei uma dinamarquesa (que encontrei por acaso em Jerusalém) no campo de Aida, entrevistei minha amiga Khoulud (que será a protagonista do próximo post sobre histórias palestinas), fui com meu amigo francês visitar amigos palestinos no campo de Aroub, guiei um grupo de estudantes de fotografia suecos no campo de Aida, comecei o processo de renovação do meu visto (torçam por mim!), comecei a planejar novas atividades pro projeto no campo, jantei com meu melhor amigo palestino (que eu não via desde fevereiro), tentei (sem sucesso) escrever a próxima newsletter sobre a Palestina e postei algumas receitas aqui no Papacapim. E amanhã vou passar o dia com um grupo de 25 italianos: vamos visitar o campo, participar de um almoço na casa de Islam e, claro, eu vou falar mais uma vez sobre a situação aqui. E responder às mesmas perguntas e tentar manter a calma quando alguém disser algum absurdo. Tudo isso em duas semanas.

Estou contando isso pra ver se vocês me desculpam por ter estado ausente desse blog nos últimos dias. Eu tenho um caderninho onde anoto ideias pra posts e garanto que as páginas estão cheias. Gostaria de ter mais tempo pra escrever aqui. Tem tanta coisa que eu queria contar pra vocês: receitas, dicas, explicações sobre ingredientes pouco usados… Mas o dia precisaria ter 34 horas pra eu dar conta do recado. E lembrem-se que, paralelo a tudo isso, estou escrevendo o livro Natural e Vegetal. Estou pensando em me instalar, com computador e tudo, na Praça da Natividade, onde fica a Igreja da Natividade (supostamente construída no lugar onde Jesus nasceu) e a maior mesquita de Belém, e esperar um milagre. Eu moro na terra santa, faz sentido esperar um milagre aqui. Só não fiz isso ainda porque o histórico de milagres nessas terras mostra que a coisa pode acabar em gravidez e isso é tudo que eu NÃO preciso no momento.

Não é necessário dizer que não ando cozinhando nada de muito interessante atualmente. Na verdade não consigo nem lavar a louça diariamente. Mas quando passo correndo em casa, só pra tomar banho e engolir alguma coisa, geralmente preparo algo nutritivo e que me dê energia suficiente pra continuar correndo (no sentido figurado, ando tão fora de forma que não consigo nem subir as escadas do meu quarto sem perder o fôlego). Foi então que criei um lanchinho delícia que preenche os requisitos mencionados acima. Ele é fácil de preparar, leva somente alguns minutos pra ficar pronto, é cheio de nutrientes e super energético. Conheçam minhas tartines de banana com tahina e canela.

Tartine é um termo francês que significa “uma fatia de pão com alguma coisa por cima”. A “coisa” em questão pode ser geleia, mel, manteiga, patê, pasta de chocolate etc. Eu prefiro tartines a sanduíches porque elas são ainda mais práticas. Nessa receita eu misturo banana com tahina, linhaça e um tiquinho de canela e espalho sobre uma fatia de pão integral, com bastante sementes. Parece bobo, mas ao analisar esse lanche do ponto de vista nutricional você descobre que ele tem: potássio e vitaminas, graças à banana, os carboidratos complexos do pão, a gordura boa e o cálcio da tahina, o ômega 3 da linhaça, fibras e o açúcar da fruta, que fornece energia imediata. Quem precisa de barrinha de cereal? Depois de comer minhas tartines posso dar a volta no campo de refugiados em três minutos, explicando a história do conflito no Oriente Médio em quatro línguas e pulando num pé só. Juro.

Tartine de banana com tahina e canela

A tahina daqui é bem mais fluida do que a vendida no Brasil e na Europa, então provavelmente você precisará de mais água pra atingir uma consistência cremosa. Tahina tem um gosto marcante que as pessoas parecem adorar ou detestar. Se você fizer parte do grupo dos que não gostam de tahina, use manteiga de amendoim no lugar. Manteiga de amêndoas, caso disponível na sua cidade, também fica uma delícia. Pra aumentar a quantidade de proteína da receita polvilhe suas tartines com amêndoas tostadas e picadas (amendoim ou castanhas do Pará também funcionam).

1 banana

1cc de tahine (ou mais, dependendo do seu gosto)

1cc de linhaça moída

Canela

Uma pitada de sal

Fatias de pão ligeiramente tostadas (de preferência integral, com sementes)

Amasse metade da banana com um garfo, junte a tahina, a linhaça, canela a gosto, uma pitadinha de sal e 1cc de água (se sua tahina for muito espessa, dissolva em um pouquinho de água antes de juntar aos outros ingredientes). Misture bem e espalhe sobre o pão tostado. Corte a outra metade da banana em rodelas e coloque sobre a mistura banana-tahina. Polvilhe com mais canela, se quiser, e deguste imediatamente. Rende o suficiente pra cobrir duas fatias médias de pão (lanche pra 1 pessoa).

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