Quem acompanha a página Facebook do Papacapim viu que ontem foi um dia muito especial pro meu projeto aqui na Palestina. Dias atrás uma jornalista que trabalha pra Al Jazeera me ligou dizendo que queria escrever um artigo sobre o projeto de mulheres que dirijo no campo de refugiados de Aida, em Belém. Já falei sobre o projeto nesse post e quem quiser mais informações pode visitar o nosso site (em Inglês). Mas a alegria de ver Islam, que criou o projeto comigo, na primeira página do site Al Jazeera foi tão grande que eu precisava dividir isso com vocês. Por isso hoje eu gostaria de mostrar mais um pouco desse trabalho, que ocupa a maior parte do meu tempo e me enche de felicidade.

Já expliquei como comecei a trabalhar no campo de refugiados de Aida (se você ainda não viu o post que mencionei acima, aconselho que você dê uma olhada antes de continuar lendo o post de hoje) e também falei das atividades que organizamos, como aulas de culinária Palestina e hospedagem na casa de uma das famílias do campo. Então hoje queria falar mais um pouco das pessoas que fazem esse projeto acontecer e mostrar mais fotos do meu dia-a-dia aqui na Terra Santa.

A gente se reúne uma vez por semana, na casa de Islam. O campo de Aida, assim como os dois outros campos de refugiados da cidade, fica dentro de Belém. Da minha casa, no centro, até a casa dela, no campo, são apenas 15 minutos de caminhada. Sempre vou e volto a pé, pra apreciar a paisagem e ir dando boa tarde aos amigos que vejo pelo caminho. Me encontro semanalmente com Islam e, atualmente, com uma voluntária espanhola que está nos ajudando. Essa moça, que morou na Inglaterra antes de se mudar pra cá, também está dando aulas de Inglês pras mulheres do projeto. De vez em quando reunimos todas as mulheres e o que já era animado se transforma em uma alegre barulheira, com reclamações, sugestões e muitas risadas. As fotos acima foram feitas na semana passada, durante a última reunião de grupo.

Islam e Rania preparam Mudjadara, enquanto Cidra (a caçula de Islam) espera sua parte.

Durante as aulas eu faço a tradução e às vezes ensino a preparar alguns pratos. Também vou buscar os “alunos” na entrada do campo e faço um tour com eles no campo, depois do almoço.

As aulas de culinária acontecem duas vezes por mês, sempre nos sábados e sempre na casa de Islam. Além de ser a coordenadora palestina do projeto (eu sou a coordenadora estrangeira), Islam possui a cozinha mais espaçosa de todas as mulheres do grupo, por isso sempre organizamos as atividades na casa dela. Hoje sua casa é bem mais confortável do que três anos atrás. Alguns estudantes belgas, que participaram de uma aula ano passado, fizeram um evento em Bruxelas pra arrecadar fundos pra reformar a casa de Islam. Dá pra ver a diferença nas fotos: as primeiras foram feitas depois da reforma e a próxima mostra como era a casa antes.

Além das aulas de culinária tradicional pra estrangeiros, da hospedagem na casa das famílias e das aulas de Inglês, de vez em quando preparamos refeições pra grupos estrangeiros que estejam visitando a região. A casa de Islam, embora seja a maior de todas, é pequena pra esse tipo de evento.

Nesse dia acolhemos um grupo de vinte e três estudantes italianos e foi um apertado só! Tivemos que retirar todos os móveis da sala e o grupo comeu no chão. Ainda bem que o pessoal era super simpático e encarou a experiência com muito bom humor. Uma vez preparamos comida pra um grupo de mais de trinta holandeses e como eles não caberiam na salinha de Islam, improvisamos uma tenda na laje da casa dela usando sacos de estopa que fui buscar lá na loja do meu amigo Tawfic (ele usa esses sacos pra estocar grãos de café). Sempre combinamos a refeição com uma pequena apresentação sobre a situação na Palestina em geral e sobre a vida no campo de refugiados.

Islam e Mohamad (cheio de chocolate nos dentes), durante uma das viagens que organizmaos.

Essas são as mulheres que trabalham de maneira mais ativa no projeto. Islam, claro, aqui com seu filho Mohamad. Mohamad tem treze anos e uma falta de oxigenação no cérebro logo após o nascimento provocou uma paralisia cerebral nele. Islam casou muito nova, aos dezesseis anos, e hoje tem seis filhos. Às vezes é difícil pra mim acreditar que ela é apenas dois anos mais velha que eu… Islam perdeu um irmão, um cunhado e uma cunhada por causa da ocupação e seu marido ficou preso, na cadeia israelense, durante vários anos. Hoje ele está solto, mas por causa da tortura sofrida na prisão carrega sequelas físicas que o impedem de exercer sua profissão de eletricista. Ele tenta sobreviver pintando casas, mas com uma taxa de desemprego beirando os 70% no campo, isso está cada vez mais difícil. Quando ele não consegue trabalho de pintor durante várias semanas, ele vai pra feira e se oferece pra carregar caixas de vegetais em troca de alguns legumes e frutas que não forem vendidos no dia.

Essa é Rania, a cunhada de Islam. Rania ficou viúva nove anos atrás, quando estava grávida de seis meses da sua filha caçula. O marido foi executado por um soldado israelense dentro de casa, na frente da família inteira. Hoje ela luta pra criar os cinco filhos sozinha e tenta apagar as cicatrizes do passado.

Essa é Um Majdi. Ela nasceu em Jericó e veio morar aqui depois do casamento. O marido dela, que é de Aida, tem uma doença crônica que o impede de trabalhar há anos. Um Majdi trabalha pra sustentar toda a família e ainda cuida sozinha do marido doente e dos filhos.

Essa é Rana, aqui com a filha caçula, Sara. O marido de Rana a abandonou logo depois que Sara nasceu e hoje ela sustenta sozinha as três filhas.

Agora quero apresentar algumas das crianças do nosso projeto: Mohamad (tem dois Mohamad no projeto), Halil, Kussai e Reian (uma das filhas de Islam). Graças à ajuda de uma amiga belga, que trabalhou com a gente durante o primeiro ano do projeto, quatro crianças podem ir à escola hoje. No campo tem duas escolas da ONU, mas elas não aceitam crianças especiais (porque não tem pessoal capacitado pra acolhê-las). Existem três escolas particulares pra crianças especiais aqui na região, mas a maioria das famílias não tem condições de pagar a mensalidade. Alguns conhecidos da nossa amiga belga patrocinam hoje a educação de quatro crianças do projeto.

Além de criar uma fonte de renda pras famílias, usamos uma parte do dinheiro das aulas de culinária pra organizar atividades pras crianças, como passeios e viagens pela região. A última viagem foi em junho, quando alugamos um ônibus e levamos todas as famílias pra Nablus, no norte da Palestina. Passamos o dia inteiro em um parque aquático, onde as crianças se divertiram muito e os pais fizeram piquenique e fumaram narguilé sob as árvores. Antes de voltar pra casa as mulheres do grupo e eu demos uma volta no centro histórico da cidade (enquanto os maridos ficaram cuidando das crianças no ônibus), que é lindo, e levamos as crianças pra um parque de diversões. Nesse dia saímos de casa às seis da manhã e voltamos depois da meia noite, mas foi um passeio inesquecível!

Antes de ir embora, queria mostrar mais essa foto. Esse é o ônibus que liga Aida ao centro da cidade. Como falei, o campo é pertinho e sempre vou à pé, mas às vezes gosto de pegar o ônibus só pelo prazer de admirar essa decoração e conversar com o motorista, que se chama Aissa (“Jesus” em Árabe). Pois é, o ônibus kitsch do campo de Aida é pilotado por Jesus!

Todas as fotos foram feitas por mim, com exceção da terceira e da penúltima (feitas por Addaia, a voluntária espanhola que está nos ajudando agora), a quarta e a quinta (feitas por um dos “alunos” da aula de culinária) e a sétima (feita por Myriam, a voluntária belga que nos ajudou no início do projeto). Mais fotos do campo de Aida e do projeto nesse post:

Meu trabalho no campos de refugiados

E se quiserem ver fotos de Belém, deem uma olhada nesses dois posts, que estão recheados com lindas imagens daqui:

Primavera em Belém

Natal em Belém, Palestina

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