Nunca expliquei aqui no blog o porquê do meu veganismo, pois sempre tive receio que isso provocasse reações negativas em alguns leitores onívoros. No início do mês fez cinco anos que me tornei vegana e pra comemorar essa data tão especial pra mim resolvi passar por cima do meu receio e escrever esse post. Mas antes de continuar a leitura aqui vai um aviso. Esse texto explica o que o veganismo significa pra mim. Não tenho ambição nenhuma de ser a porta voz do movimento e estou certa que minhas opiniões divergem consideravelmente da opinião de outros veganos. Também não é minha intenção impor meus valores aos leitores onívoros e vegetarianos, nem criticar suas escolhas. O único objetivo desse texto é dividir com vocês uma parte importante da minha história, que fez com que eu seja quem eu sou hoje e sem a qual o Papacapim não teria vindo ao mundo.

Nunca fui uma grande comedora de carne vermelha. Não por razões éticas ou de saúde, simplesmente nunca gostei do sabor. Aos vinte anos fui morar em Paris e pude escolher, pela primeira vez, a comida que entrava na minha cozinha. Comecei então a fazer algumas mudanças na minha alimentação. Troquei os embutidos de carne de porco por produtos similares feitos com frango e peru e o único tipo de carne vermelha que ainda comia era bacon. Durante a faculdade fui assinante de uma revista incrível chamada “L’écologiste”. Um dia li um artigo nessa revista explicando como as aves, que apareciam com tanta frequência no meu prato, eram criadas. Eu sabia da superioridade nutricional das galinhas orgânicas, mas o meu orçamento de universitária/baby-sitter me obrigava a comprar toda a minha comida nos supermercados, geralmente das marcas mais baratas. Todo o frango, peito de peru e ovos que eu consumia vinham das terríveis fazendas de criação intensiva descritas no artigo que eu tinha lido. Dessa vez foi a saúde que me fez eliminar mais alguns animais do cardápio. Aqueles frangos que eu estava comendo faziam um mal imenso ao meu organismo e, ao invés de gastar todo o meu salário comprando galinhas orgânicas, achei mais viável parar de consumir aves.

Quando decidi retirar as aves do cardápio acabei fazendo uma faxina mais extensa e eliminei os embutidos e o amado bacon também. Até então o que impulsionava minhas ações era o cuidado com a saúde. Porém, sem querer, eu tinha colocado os pés em um território novo que estava alfinetando a minha consciência. Me vi refletindo cada vez mais sobre a necessidade de comer animais. Um ano mais tarde tomei a decisão de eliminar toda carne animal do meu prato, dessa vez movida por razões éticas. Eu sabia que carne nenhuma era indispensável à nossa sobrevivência e de repente não podia mais ignorar essa evidência: comer animais era uma opção, não uma necessidade.

Precisei de vários meses pra me tornar vegetariana, pois peixes e frutos do mar eram minha comida preferida e muitas vezes eu cedia à facilidade de comer pratos com esses produtos, que eu encontrava em todos os lugares, ao invés de procurar uma opção vegetariana. Durante umas férias no Brasil comi meu último peixe, pra me despedir de vez, e quando voltei pra Paris comecei o meu novo regime. Foi assim que, aos 25 anos, me tornei vegetariana. Mal sabia eu que o meu vegetarianismo só iria durar poucas semanas.

Mais uma vez a revista “L’écologiste” foi responsável por abrir meus olhos. Vi lá um anúncio da Sociedade Vegetariana Francesa e decidi explorar o site deles. Um artigo me levou a outro artigo e acabei descobrindo os documentários feitos pela PETA (‘Meet your meat’ e ‘Terráqueos’) e pelo Instituto Nina Rosa (‘A carne é fraca’). Vou poupar vocês dos detalhes aqui, pois acho que todos que viram esses vídeos passaram pelas mesmas etapas: choque, choro, revolta e, eventualmente, vontade de agir. Meus ovos e laticínios não eram tão inocentes quanto eu pensava e adotar o veganismo, que até então eu nem sabia que existia, apareceu pra mim com a conclusão lógica. Antes de dar o passo final, porém, precisava descobrir se aquilo era viável do ponto de vista nutricional. Passei dias mergulhada em pesquisas sobre nutrição vegetal e quando achei todas as respostas que procurava, me tornei vegana.

O impacto que essa decisão teve na minha vida foi imenso. Em dois meses vi a sinusite, que me acompanhou durante anos, e as dores de garganta, que me visitavam pelo menos uma vez por mês desde a infância, desaparecerem completamente. Descobri que os laticínios, que eu amava tanto, não me amavam nem um pouco. Também vi meu colesterol voltar ao nível normal sem precisar fazer dieta, pois, mesmo quando já não comia mais carne vermelha nem frango, ele era elevadíssimo (mais uma vez, culpa dos laticínios, que sempre foram o meu fraco). Mas não foi só a saúde que melhorou. O alívio de ter feito as pazes com a minha consciência não tem preço. Curiosamente, ter retirado tantos produtos do meu cardápio acabou expandindo meus horizontes gastronômicos. Descobri uma infinidade de novos ingredientes e hoje minha alimentação é muito mais variada do que antes. O veganismo também fez brotar minha verdadeira paixão, a culinária, e me deu coragem pra abandonar um mestrado em linguística que me entediava profundamente e seguir a minha vocação.

Mas a história não parou por aí. Meu veganismo evoluiu muito nesses cinco anos. A decisão de recusar produtos de origem animal, que tomei motivada unicamente pelo sentimento de compaixão pelos animais, teve tempo de amadurecer e crescer. Nunca parei de me questionar nem de analisar o impacto que as minhas ações têm no mundo. Eu achava que o veganismo era uma destinação, um objetivo a ser atingido. Mas hoje entendo que o veganismo é um caminho, um processo. No mundo em que vivemos é impossível evitar absolutamente toda exploração animal. Quando descobrimos a lista imensa de derivados de animais encontrados nos mais diversos produtos (pneus, sacos plásticos, amaciantes e fogos de artifício, só pra citar alguns) e a dificuldade, às vezes impossibilidade, de evita-los, somos tentados a concluir que veganismo é uma ilusão. Mas a resposta está na definição dessa palavra segundo Donald Watson, o seu criador: ‘Veganismo’ denota uma filosofia e uma forma de viver que busca excluir – tanto quanto for possível e praticável – todas as formas de exploração e de tratamento cruel de animais para comida, roupas ou qualquer outra finalidade. O fato de não poder evitar absolutamente toda crueldade contra animais (humanos e não humanos) não é justificativa pra não fazer o que estiver ao meu alcance. Veganismo pra mim não é um ideal de perfeição e sim uma prática ativa e diária que me ajuda a ser uma pessoa mais consciente, responsável e gentil.

O que mais mudou em mim nesses últimos cinco anos? Minha compaixão pelos onívoros aumentou. É difícil resistir à tentação de se imaginar moralmente superior aos não veganos quando decidimos seguir esse caminho por razões éticas, mas o fato de recusar produtos de origem animal não me transformou em uma pessoa superior, nem me deu o direito de criticar quem não é vegano. Hoje eu condeno o ato (comer animais), não as pessoas. Não é fácil agir assim quando o sofrimento e a morte desnecessária de um animal me tocam, e me revoltam, profundamente, mas ter mudado o foco da minha crítica me ajudou a ser uma pessoa mais positiva, uma companhia mais agradável e, acredito que exatamente por isso, deixou o meu ativismo mais eficaz.

Também passei a aceitar que em certos contextos é impossível se abster da carne de animais. Estou me referindo aqui à pequena parte da população mundial que vive em desertos ou regiões cobertas de gelo, por exemplo, onde as condições naturais tornam impossível o cultivo de uma variedade suficiente de plantas comestíveis. Porém, longe de me fazer duvidar da pertinência do veganismo, já que ele não pode ser praticado por absolutamente todos os humanos, isso só reforçou as minhas convicções. É exatamente porque vivo em um lugar onde vegetais abundam e tenho o privilégio de escolher o tipo de comida que consumo que considero minha obrigação moral escolher os alimentos que causam menos sofrimento e menos impacto negativo no planeta. Acredito que todo privilégio implica grandes responsabilidades, então enquanto essa escolha me for oferecida, continuarei sendo vegana.

Outra mudança drástica no meu pensamento vegano foi admitir que nem todo alimento de origem animal é necessariamente prejudicial à saúde. Nos primeiros anos do meu veganismo acreditei piamente que a dieta vegana era a única capaz de oferecer saúde aos humanos. Hoje acredito que também é possível se manter saudável consumindo uma dieta na sua maior parte vegetal com uma pequena quantidade (no máximo duas porções por semana) de produtos de origem animal realmente nutritivos (e orgânicos). Por que continuo sendo vegana, então? A saúde não foi a razão principal que me fez adotar o veganismo e se posso conservá-la tanto sendo vegana quanto comendo uma quantidade (extremamente) moderada de carne, continuarei optando pelo veganismo. E de um ponto de vista puramente prático, levando em consideração o lugar onde moro, meu estilo de vida e meu orçamento, comprar carne orgânica de um animal criado em liberdade é mais complicado, e caro, do que cozinhar uma panela de feijão. Mesmo se saúde fosse minha única preocupação na hora de escolher a maneira como me alimento, o veganismo seria a escolha mais fácil e barata.

Assim que me tornei vegana uma lógica ingênua invadiu minha mente: as outras pessoas só continuam comendo carne porque ainda não descobriram o que está por trás desse ato. Fiquei profundamente chocada quando me dei conta que, mesmo depois de ter sido exposta às mesmíssimas informações que eu, a maioria das pessoas achava uma maneira de continuar justificando o regime onívoro e que muitas pessoas realmente não se importam nem um pouco com o que acontece com os animais que aparecem no seu prato. Mas e as pessoas que dizem que amam animais e que pedem pra você não contar o que acontece no abatedouro porque “assim não vou conseguir comer o meu bife”? Perdi noites de sono tentando entender a lógica por trás desse tipo de comportamento. Ter descoberto o carnismo ajudou muito, embora eu ainda me sinta perplexa diante de tal fenômeno. Só posso esperar que, se o sofrimento animal não comove todos (ou comove alguns, mas não o suficiente pra provocar uma mudança na sua alimentação), mais pessoas comecem a se preocupar com o sofrimento humano, principalmente o próprio, e reduza seu consumo de carne movido por razões de saúde e ambientais. Desde que a FAO publicou o relatório “Livestock’s long shadow”, não é mais segredo que a pecuária é a atividade humana que mais destrói a Terra e, a menos que o cidadão seja capaz de ir morar em outro planeta, ele deve reduzir urgentemente, e drasticamente, seu consumo de produtos de origem animal.

Alguns anos atrás li, em um livro que não vou citar porque vocês vão rir, algo que mudou minha vida pra sempre. Quando o mal ameaçava prevalecer e era preciso decidir de que lado lutar, um dos personagens principais disse: “Chegou a hora de escolher entre o que é certo e o que é fácil.” Ninguém, com exceção dos psicopatas, escolhe propositalmente fazer o mal, ou o errado, mas quando somos confrontados com uma situação moralmente desconfortável, onde fazer o certo significa fazer mudanças profundas na nossa vida, institivamente escolhemos o caminho mais fácil. Sei que a maioria das pessoas considera o veganismo como um caminho extremamente difícil e cheio de sacrifícios. No meu caso não foi difícil me tornar vegana, difícil foi (e ainda é) deixar meus valores guiarem minhas escolhas, na mesa e fora dela. Não estou tentando convencer vocês que minha vida é ecologicamente-eticamente-politicamente impecável, porque ela está longe disso. Mas considero minha obrigação fazer o possível pra que as minhas ações tenham um impacto positivo no mundo. E ser vegana me dá a oportunidade de praticar a responsabilidade e a compaixão três vezes por dia.

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