Hoje é o segundo dia desde que o cessar-fogo começou em Gaza (vejam as fotos do último dia de ataques e da festa quando a trégua começou no blog de Anne) e as coisas estão voltando aos poucos ao normal aqui do outro lado dos territórios palestinos. Alguns dias atrás Belém estava fervendo e várias pessoas do campo de refugiados de Aida, onde trabalho, foram presas pelo exército ocupante. Mas, como disse, a situação se acalmou bastante.

No último post contei que estava envolvida em um projeto novo com o grupo de mulheres de Aida e prometi contar mais outro dia. Depois desses dias de pesadelo, acho ainda mais importante mostrar a vocês coisas positivas sobre a Palestina e falar da força e da coragem desse povo. Com disse Rafeef Ziadah, « nós, palestinos, acordamos todas as manhãs pra ensinar ao mundo vida ». Então aqui vai mais uma lição de vida, diretamente da Palestina.

No início do ano Islam me contou que sonhava em fazer uma escolinha pras crianças deficientes do campo (Ainda não conhece meu trabalho no campo de refugiados ? Leia esse post). Como as escolas pra crianças especiais aqui em Belém são particulares, a maioria das crianças do grupo não vai à escola, pois a família não tem condições de pagar a mensalidade e os gastos com transporte. Islam me disse « Se conseguirmos montar uma escolinha especial aqui no campo todas as crianças teriam a chance de ir à escola. Tem um cômodo aqui em casa que usamos como depósito, mas se a gente fizer uma limpeza, uma reforma, decora-lo… podemos comecar aqui. » Desde então procuramos pessoas que trabalham com educação e cuidados pra crianças especias e que queiram dar algum tipo de treinamento (gratuito) pra Islam e outras mulheres do grupo. E, claro, procuramos maneiras de levantar fundos pra reformar o lugar onde será a « escola piloto ». A ideia é mudar pra um lugar maior e mais confortável no futuro, mas achamos mais prudente comecar bem pequeno, receber no máximo cinco crianças, e, se a experiência der certo, ir crescendo aos pouquinhos.

Como levantar fundos pra patrocinar esse sonho ? Na primeira reunião que tive com Islam ela me disse « Não queremos caridade, queremos empregos ». Naquele dia soube que a minha parceria com ela ia dar certo. Desde o início, o objetivo do projeto é criar fontes de renda alternativas pras famílias e fornecer às mulheres ferramentas pra que elas participem ativamente da construção do seu futuro. Então, fiel ao espírito do projeto, não saímos por aí pedindo doações: estamos criando um livro com as receitas que preparamos nas aulas de culinária palestina. Cada mulher do grupo contribuiu com uma receita (ou mais), a história do projeto será explicada e os leitores encontrarão também um pouco de informação sobre a vida no campo e a questão dos refugiados palestinos, tudo ilustrado com várias fotos. Todo o dinheiro da venda será usado pra criar a escola-piloto e espero poder terminar tudo antes do final do mês. Estou escrevendo o livro em Inglês, mas espero poder fazer versões em outras línguas no futuro. O livro será vendido aqui, pros turistas que estiverem de passagem pela terra santa, mas também vamos mandar o arquivo pra alguns amigos no exterior, que vão imprimi-lo e vende-lo em seus países.

Muitas pessoas podem pensar  « Por que ir tão longe pra fazer um projeto desse tipo, quando tem crianças deficientes e pobreza em tantos lugares do mundo, inclusive aqui mesmo no seu país ? » Eu já escutei essa pergunta algumas vezes e respondo sempre a mesma coisa. Pra mim, ajudar um palestino ou um brasileiro (ou um argentino, ou um indiano…) é exatamente a mesma coisa. Assim como não faço diferença entre raças nem religiões, não faço diferença entre nações (nacionalismo e patriotismo me deixam indiferente). Como diz o título daquele livro de Gandhi, somos todos irmãos. Mas gostaria de, dessa vez, ir um pouco mais longe na resposta. O problema aqui na Palestina não é humanitário, e sim político (Gaza atravessa uma crise humanitária, mas a causa continua sendo de ordem política). Os campos de refugiados só existem, quase 65 anos depois dos palestinos terem sido expulsos de suas terras, porque até hoje os seus direitos não foram aplicados (a resolução 194 da ONU garante o direito ao retorno, ou compensação finaceira, a todos os refugiados). As famílias do meu projeto não podem pagar escola pros seus filhos especiais porque a economia palestina foi estrangulada por uma ocupação militar que já dura 45 anos. Os maridos, pais e irmãos, de algumas mulheres do campo estão atualmente em cadeias israelenses. O marido de Islam era eletricista, mas depois de ter sido torturado na cadeia israelense, onde passou vários anos, carrega sequelas  que o impendem de exercer sua profissão. Hoje ele pinta casas e carrega caixotes na feira pra poder sustentar a família, mas o dinheiro que ele leva pra casa diminuiu bastante.  Então o drama que vemos no campo de refugiados, e na Palestina em geral, é a consequência direta de um regime de colonização, ocupação e apartheid e da covardia da comunidade internacional, que vê o governo israelense violar os direitos humanos dos palestinos e cometer crimes de guerra há décadas, sem tomar nenhuma ação concreta pra que isso cesse. Os palestinos não precisam da minha caridade, nem da de ninguém, eles precisam de justiça. E essa revolta que sinto desde que entendi que tudo poderia ser diferente se somente a comunidade internacional tivesse a decência de punir Israel pelos crimes cometidos contra os palestinos, esse sentimento de obrigação de estar do lado dos que lutam por direitos humanos, foi isso que fez com que eu me mudasse pra cá e iniciasse esse trabalho.

Mas voltemos ao livro. Passei duas semanas indo de casa em casa, cozinhando com as mulheres do grupo, tomando muito café e chá, enchendo a barriga de delícias (só as veganas, claro) e fotografando e anotando as receitas. A primeira semana foi tranquila, mas durante a segunda semana a violência assobiava do lado de fora enquanto nos refugiávamos na cozinha. Não teve gás lacrimogênio que nos fizesse interromper o trabalho ! (Tem um pôster na minha sala, feito por palestinos, que diz « Gas won’t tear us apart » e quem fala Inglês vai entender o jogo de palavras) As fotos desse post mostram um pouco do que vivi nas últimas semanas. Todas foram feitas por mim, com exceção da quinta foto, feita pelo meu amigo Fred.

Então agora vou voltar ao trabalho, que ainda tem muito a ser feito antes de levar o livro pra gráfica. Mas antes de ir embora, preciso mostrar essas fotos (faz tempo que os gatos não aparecem aqui, não é?). Semana passada, enquanto as bombas caiam sobre Gaza e todas as conversas que tive com Anne foram interrompidas pelo barulho que elas faziam, Belém era invadida pelo exército e os moradores de Aida se trancavam dentro de casa pra escapar das balas e gás lacrimogêneo atirados pelos soldados, o trabalho me manteve ocupada e fez com que minha cabeça continuasse sentadinha sobre os ombros. Mas foram os gatos que aqueceram o meu coração e, sentindo a minha tristeza, não saíram de perto de mim nem um minuto.

“Estou aqui com você, mama.”

“Nao fique triste assim, mama, e pare de ler esse tal de twitter!”

“Não, não estou com sono, só vou fechar os olhos um pouquinho enquanto espero você terminar de trabalhar.”

“A gente vai dormir um pouquinho aqui do lado, mas se precisar é só chamar.”

Essa fama de egoísta que os bichanos têm foi espalhada por más línguas e é totalmente injustificada.

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