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Se você leu o título desse post e pensou: “Que absurdo!” eu peço que, por favor, não julgue tão rápido e continue lendo pra entender melhor esse assunto espinhoso, mesmo entre veganos, mas que deveria interessar a todos, vegs e onívoros.

Veganos, e boa parte dos vegetarianos, decidiram parar de se alimentar com a carne de animais por razões éticas, então quando eles adotam um cachorro ou um gato aparece essa dúvida: é certo alimentar o meu companheiro de quatro patas com a carne de outros animais se eu acho que comer animais é imoral? Vez ou outra meus gatos aparecem por aqui e nos últimos meses alguns leitores me perguntaram sobre a alimentação deles.  Senti que era necessário abordar essa questão no blog.

Minha opinião sobre esse assunto evoluiu bastante com o tempo. Minha primeira reação quando ouvi falar de criar cachorros e gatos com comida vegana foi a mesma que descrevi acima (“Absurdo!”). Humanos são onívoros e podem viver bem com dietas que incluem pequenas quantidades de produtos de origem animal ou com dietas totalmente herbívoras. Mas gatos são carnívoros e não têm muitas opções na hora de se alimentar. Cachorros, como onívoros, são mais flexíveis e de acordo com as pesquisas que fiz podem se alimentar exclusivamente com vegetais, porém é preciso planejar muito bem o cardápio de um cachorro vegano.

Eu sentia um enorme desconforto moral com a ideia de alimentar um animal carnívoro, como o gato, exclusivamente com vegetais. Eu sabia que era possível fazer essa transição com cachorros, mas eu não conseguia me decidir se achava aquilo certo ou não (se desenharmos uma linha e colocarmos ‘herbívoro’ à esquerda, ‘onívoro’ no meio e ‘carnívoro’ à direita, cachorros ficariam entre ‘onívoro’ e ‘carnívoro’). Eu resolvia esse conflito mental me dizendo que veganos/vegetarianos que não se sentem bem dando carne aos seus animais de companhia deveriam adotar unicamente animais herbívoros, não gatos e cachorros.

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Depois de um certo tempo eu acabei mudando de ideia. Eu tinha visto uma linha americana de rações pra gatos e cachorros totalmente vegana, desenvolvida sob a orientação de veterinários e que cobria todas as necessidades em nutrientes dos bichinhos. Fiquei sem saber o que pensar. Foi então que li o livreto “Cães veganos: Nutrição com Compaixão”, que você pode baixar gratuitamente no site da ANDA. Logo no início o autor diz: “Cães precisam de nutrientes específicos, não de ingredientes específicos” e lembrei que vi um nutricionista falando exatamente a mesma coisa sobre humanos. No nosso caso, por exemplo, precisamos de cálcio, não de leite, e seu organismo não se importa com a origem desse cálcio, contanto que ele chegue na quantidade certa. Isso me fez pensar muito e rever minhas opiniões. Se o importante pro organismo são os nutrientes, que diferença faz se nessa ração eles são de origem vegetal e nessa outra de origem animal, quando as quantidades estão adequadas pras necessidades dos animais?

Porém isso criava outro problema, já não mais de ordem ética, mas prática: rações veganas não estão disponíveis em todos os lugares. O que fazer se você não conseguir encontrar ração vegana na sua cidade? O livreto que mencionei acima explica como fazer ração pra cães, vegetal e completa, em casa, mas ainda não encontrei artigos ensinando a fazer comida vegetal pra gatos. Provavelmente porque é mais difícil, talvez impossível, fazer uma comida vegetal equilibrada pra felinos em casa…

Depois de conversar com amigos veganos e matutar bastante sobre a questão, minha opinião amadureceu ainda mais.

Uma amiga vegana adotou um filhote de cachorro que encontrou na rua e resolveu o problema da alimentação dele da seguinte maneira. Ela perguntou ao dono de um restaurante/churrascaria aqui da cidade se podia levar pra casa um pouco das sobras de carne (crua) da cozinha. O dono aceitou alegremente, pois aquela carne iria pro lixo, e minha amiga pode alimentar o filhotinho sem problemas de ética. Talvez vocês estejam se perguntando “Mas não é justamente dar carne de animais pro seu cachorro ou gato que é considerado um problema ético por veganos?” Não. Além de oferecer algumas soluções aos veganos que se depararam com esse problema, eu decidi escrever esse post justamente pra esclarecer esse ponto. Mas antes de continuar preciso avisar que essa é a minha opinião. Não pretendo ser a porta voz do movimento vegano e tenho certeza que muitos veganos pensam diferente.

O verdadeiro problema pra mim, o que alfineta a minha consciência, não é ter um carnívoro em casa (humano ou não). O que realmente me tira o sono é usar o meu dinheiro pra patrocinar uma indústria cruel, a indústria da carne. Se meu gato aparecer aqui com um passarinho na boca, eu não vou me aborrecer nem trocar a ave por um pedaço de brócolis. Se ele fosse capaz de caçar toda a comida que precisasse, eu acharia uma maravilha! O aborrecimento aparece quando eu compro uma lata de atum pra ele. Ao fazer isso eu patrocino diretamente a indústria da carne e foi justamente pra não fazer mais parte dessa engrenagem que me tornei vegana. Espero que tenha ficado bem claro pra vocês: eu aceito e respeito a natureza carnívora do meu gato, mas não quero de maneira alguma usar o meu dinheiro pra patrocinar a indústria da carne, pois a considero uma das mais cruéis (contra animais humanos e não humanos) que existem, além de causar boa parte da poluição do nosso planeta.

Por isso a solução encontrada pela minha amiga me pareceu a melhor até então. Se você pedir as carnes que sobram na cozinha de restaurantes (as partes menos nobres ou retalhos que não servem pra preparar pratos) e açougues, você poderá alimentar o seu cachorro/gato sem, no entanto, patrocinar a indústria da carne. Nenhum animal foi morto especificamente pra alimentar o seu cão/gato, você só estará usando sobras que iriam acabar no lixo. Com duas vantagens suplementares: você estará contribuindo pra reduzir o desperdício de comida nos restaurantes (você ficaria chocado se visse a quantidade de comida que eles jogam no lixo diariamente) e ainda livraria o seu amiguinho das rações industrializadas, que estão longe de ser comida saudável pra eles.

com anne

Talvez você esteja pensando: “Mas rações também são feitas com sobras de carne que acabariam no lixo. Qual a diferença?” Ótima observação! Mesmo sendo feita com sobras de carne e partes de animais consideradas não comestíveis por humanos, você compra a ração, ou seja, oferece o seu dinheiro à indústria da carne, ajudando a perpetuar o sistema.  Ao usar as sobras de carne de restaurantes e açougues, oferecidas gratuitamente, você se mantem fora do sistema e não coloca óleo nessa engrenagem.

Claro que o aspecto ético dessa questão só interessa veganos e alguns vegetarianos, então se você é onívoro e está pensando “Quanto radicalismo da parte desses vegs!”, eu tenho uma mensagem pra você. Amigo(a), se pessoas fazem esforços ativos pra incluir a compaixão em todos os aspectos da sua vida isso não deveria te incomodar.

E estou convencida que a solução que proponho trás vantagens que deveriam interessar todo mundo. A mais óbvia pra mim é a questão da saúde do seu animal.  Quando escuto frases do tipo: “Não é natural dar comida vegetal pra cachorros e gatos”, sempre penso que se a pessoa que falou isso considera ração industrializada como a comida “natural” desses animais, ela está redondamente enganada. Mesmo as marcas de ração “de luxo” são compostas por carne de baixíssima qualidade, corantes e outros produtos químicos que não deveriam aparecer no prato do seu animal. Usar sobras de carne de restaurantes e açougues também vai te fazer economizar dinheiro. Talvez você precise ir em vários lugares antes de encontrar pessoas que se disponham a fazer as doações, mas esse esforço é pequeno diante de todas as vantagens que ele oferece.

Essa receita foi testada em animais (e aprovada por eles).

Talvez você, amigo(a) veg, tenha achado os meus argumentos sensatos, mas não seria capaz de colocar essa sugestão em prática pelo seguinte motivo: você não consegue manipular carne nem quer ter pedaços de animais mortos na sua geladeira. Eu entendo perfeitamente e respeito sua atitude. Mas, sinceramente, acho que nesse caso você deveria pensar em adotar um animal herbívoro (como coelho). Se você já tinha um gato ou cachorro quando se tornou vegano, então eu sugiro que você tenha um diálogo honesto com a sua consciência e procure uma solução que faça sentido pra você, sem nunca, nunca esquecer de agir de maneira responsável com o seu animal. Essa é uma obrigação que você tem com ele.

Esse post acabou ficando mais longo do que previ e talvez as ideias tenham se perdido entre tantos parágrafo, por isso aqui vai um resumo.

-Amigos vegs, existem várias maneiras de alimentar seu animal com responsabilidade e compaixão. Você pode escolher oferecer uma ração vegetal ao seu cachorro (imaginando, claro, que você consiga achar algo do tipo na sua cidade), preparar uma ração vegetal equilibrada em casa (visite o site da ANDA e faça o download gratuito do livreto sobre alimentação vegana pra cachorros) ou utilizar sobras de carne (crua, não utilize sobras de pratos cozinhados) de restaurantes ou açougues. Também pode combinar as sugestões acima. Converse com donos de restaurantes/açougues e explique que a comida é pro seu animal, não pra humanos, e eles se sentirão mais à vontade pra doar as sobras. Misture as carnes com alimentos preparados em casa (arroz e legumes cozidos, por exemplo) e seu cãozinho ficará feliz e bem alimentado. Se você tiver um gato, as opções são mais reduzidas. Gatos alimentados exclusivamente com rações vegetais podem desenvolver problemas urinários (pelo que entendi, a culpa é o ph alcalino dos vegetais. Alguns gatos, principalmente os machos, se dão melhor com o ph ácido da carne). Por isso a opção das sobras de carnes me parece a melhor aqui.

-Amigos onívoros, mesmo se essa conversa de ética e compaixão na alimentação do seu animal te parece extremismo, peço que considere minha sugestão. Sua pegada ecológica será reduzida, você economizará dinheiro e, o mais importante, oferecerá uma comida de melhor qualidade pro seu animal (ração não é a opção mais saudável)

Quanto aos ‘meus’ gatos, eles não são meus, são da vizinha. Moramos em uma casa grande, nós no térreo e ela no primeiro andar. Como eles não são autorizados a entrar na casa dela eles vivem aqui em casa (com passagens regulares pelo jardim). É a vizinha que alimenta os gatos, com sobras de carne que um amigo açougueiro dá pra ela. Não foi sugestão minha, ela só estava tentando economizar dinheiro com ração quando teve essa ideia. Adotamos um gatinho que Anne encontrou na rua ano passado, mas infelizmente ele morreu duas semanas depois de ter chegado aqui. Na época eu ainda não tinha pensado em pedir restos de carnes em restaurantes e comprei, com o coração apertado, várias latas de atum pra ele (não encontrei ração pra filhote de gato na cidade).

tomando sopa

Uma vez o restaurante deu tanta carne pra minha amiga que ela deixou alguns quilos aqui em casa. Separei em porções pequenas e congelei tudo. Toda noite eu deixava uma porção descongelar pro dia seguinte. Eu prefiro não manipular nem ter carne no congelador, claro, mas na hora de alimentar os gatos tento não pensar que aquilo ali era uma galinha (e uso luvas de borracha). Além da carne, os gatos também comem um pouco da comida que preparo. Não que eu queira converte-los ao veganismo, mas quando eles sentem o cheiro miam desesperadamente e só sossegam quando eu dou um pouquinho do que estiver comendo pra eles. Esses gatos têm gostos bem particulares: eles adoram papa de aveia, são loucos por tofu e a coisa que eles mais amam no mundo é levedo de cerveja. Gatos estranhos, eu sei, mas convivendo comigo eles não podiam ser diferentes…

Eu não sei vocês, mas eu estou sempre procurando conversar com pessoas inteligentes e sensíveis que têm pontos de vista diferentes dos meus, pois ao destruir e reconstruir ideias minhas opiniões evoluem.  Então convido todos que quiserem acrescentar algo à essa discussão a deixar um comentário. Mas independente do lado que você se encontrar, peço que respeite a opinião do pessoal do outro lado.

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“Papa de aveia…papa de aveia…papa de aveia…”

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