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Cinco anos morando aqui e só agora preparei um guia vegano da minha cidade preferida. Mas antes tarde do que nunca e ter esperado tanto tempo fez com que eu pudesse namorar a cidade longamente e ir descobrindo, aos pouquinhos, os tesouros que ela esconde.

Antes de dividir a lista dos meus lugares preferidos em Jerusalém, preciso avisar que esse é um guia parcial. Eu passei muito mais tempo na parte Oriental (palestina) da cidade do que na parte Ocidental (israelense). Por razões políticas, mas também de gosto. A parte Ocidental é moderna e lembra as grandes cidades americanas (pra mim isso não tem charme nem alma), enquanto Jerusalém Oriental, a parte mais antiga da cidade, é mais exótica, caótica e tem um perfume de mil e uma noites.  E, como disse mais acima, tem a questão política. Porque a ocupação israelense na parte Oriental da cidade (Jerusalém Oriental é ocupada pelos israelenses desde 1967 e isso é um fato reconhecido pela comunidade internacional) dificulta enormemente a vida dos palestinos de lá, prefiro usar o meu dinheiro pra apoiar a economia palestina. Outro detalhe que merece ser mencionado aqui: os preços na parte Ocidental da cidade são muito mais elevados do que na parte Oriental. Porém, por também frequentar, mesmo que raramente, a parte Ocidental da cidade, seria hipócrita não incluir alguns dos lugares que gosto de visitar por lá nesse guia. Que cada um decida onde quer gastar o seu dinheiro e qual economia prefere apoiar. Comer é um ato político, mas comer em Jerusalém vai ainda mais além e ganha uma dimensão ativista.

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O lugar que mais gosto em Jerusalém é a cidade antiga. Apesar de ser a parte mais turística da cidade (a igreja do Santo Sepulcro-supostamente construída no lugar onde Jesus foi crucificado- a mesquita Al-Aqsa e o muro das lamentações estão todos dentro das muralhas da cidade antiga), ainda tem muitas pessoas morando naquelas casas antigas e você ainda vê mais palestino do que peregrinos pelas ruas estreitas. Saindo do circuito turístico, com as centenas de lojas de souvenir, você encontra cafés e restaurantes onde a população local vem degustar hummus, tomar o tradicional café Árabe, fumar narguilé e jogar dominó. Esses são alguns dos meus lugares preferidos.

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Não muito longe da Porta de Damasco, a entrada principal da cidade antiga, fica o ‘Jerusalem Hotel’. Esse charmoso hotel possui um restaurante muito agradável, com um teto de vidro e plantas por todos os lados. Embora o lugar não seja vegano (é um restaurante tradicional palestino), tem alguns pratos à base de vegetais (nada muito excitante), além de saladas criativas, hummus e muta’bal. O suco de limão com menta, a bebida nacional da Palestina, também é muito bom aqui. Idem pro narguilé. Comer aqui sai mais caro do que comer um sanduíche de falafel na rua, mas o ambiente vale a pena.

Jerusalem Hotel, Nablus Road (em frente à estação dos ônibus que vão pra Ramala).

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Dentro das muralhas da cidade antiga você vai encontrar um emaranhado de ruelas, muitas sem nome. Então ao invés de dar o endereço dos lugares, como faço normalmente, vou guiar vocês através de um percurso visual pelos meus lugares preferidos.

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Ao entrar na cidade antiga pela porta de Damasco você vai encontrar uma espécie de largo com vários restaurantes e lojas ao redor. Como muitos turistas passam por aqui, não aconselho esses lugares (o barulho é grande, os preços são mais salgados e a qualidade pode deixar a desejar). No final do largo tem uma lanchonete de falafel (pela quantidade de palestinos que vi comendo lá, parece que o negócio é bom) e uma rua que parte à esquerda e outra que parte à direita. Se você seguir pela rua da esquerda durante um minuto vai encontrar o ‘Jerusalem Star Restaurant’. Ele fica do lado direito, logo antes de uma passagem em forma de arco (veja a foto acima). Na verdade o lugar é um café bem antigo que serve sucos frescos (laranja ou romã, espremidas na hora) e café árabe. Adoro sentar aqui com um café e admirar os passantes do lado de fora. É um lugar calmo e charmoso onde você pode descascar entre duas visitas.

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Voltando pro largo que leva à porta de Damasco e seguindo pela rua da direita você vai descobrir muitas pérolas. Alguns metros mais longe tem uma ‘doceria’ com os tradicionais doces Árabes (baklava), feitos com nozes, amêndoas, pistache e muito (muito!) açúcar. O lugar é pequeno e só tem duas mesas, mas você pode comprar um prato de doces pra degustar mais tarde, em outro lugar. Além dos doces serem deliciosos e muito bem feitos (todas as vezes que estive por lá todos os doces eram veganos), o vendedor é extremamente gentil. Os doces tradicionais palestinos são todos feitos com ingredientes vegetais, com exceção de um ou outro que tem queijo (‘qanafel’ e ‘mutabak’, por exemplo).

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E falando em mutabak… Continue caminhando nessa rua, que é coberta e tem lojas e restaurantes dos dois lados, e alguns minutos mais tarde você vai ver uma escadaria (à direita) que leva à Igreja Copta Ortodoxa. Do lado das escadas tem um lugar mágico: Zalatimo. Fundado 150 anos atrás, esse lugar faz o melhor mutabak da cidade (a receita passou de geração em geração). Eles só preparam essa iguaria e nada mais. Mutabak é uma massa do tipo filo, recheada com um queijo típico ou nozes moídas, pincelada com azeite e assada até ficar dourada e crocante. Depois de assada o mutabak recebe um banho de calda de açúcar e deve ser degustado quente, de preferência com um café forte e amargo (o lugar não vende café, mas ali do lado tem um vendedor que faz um café ótimo e serve em copinhos de papel).

mutabak

A versão com nozes é totalmente vegana e deliciosa. Como toda sobremesa tradicional árabe, mutabak é extremamente doce e não é algo que comeria regularmente (não aguento engolir mais do que um pedacinho), mas vale a pena degusta-lo pelo menos uma vez. A parte ‘mágica’ do lugar é ver a preparação do mutabak, que é sempre feito na hora. Descrever o processo exigiria muitas linhas, então coloco aqui um vídeo feito pelo chef Yotam Ottolenghi, natural de Jerusalém (já falei dele nesse post), quando ele esteve por lá. (No vídeo ele diz que o mutabak é pincelado com manteiga clarificada, o que achei muito estranho já que nunca vi nenhum palestino cozinhar com manteiga. Quando perguntei ao cozinheiro ele confirmou minha suspeita: ele usa exclusivamente azeite, nunca manteiga.)

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Seguindo em frente na mesma rua você vai cruzar a Via Dolorosa (supostamente o caminho que Jesus fez com a cruz nas costas). Nessa área você vai encontrar o que muitos consideram como o melhor hummus da cidade: Abu Shukri. É difícil explicar como chegar lá, mas todos os palestinos conhecem esse lugar, então basta perguntar na rua. O lugar é minúsculo e muito simples, mas a comida é divina. O hummus de Abu Shukri é feito da maneira tradicional, com grão de bico pilado em um grande pilão de pedra (não triturado no liquidificador) e tem uma textura única. Só provando pra entender a gostosura. Além do hummus experimente um prato chamado m’sabahe, uma espécie de hummus desconstruído: grão de bico inteiro com um molho de tahina e ervas, regado generosamente com azeite (veja foto acima). O falafel de Abu Shukri também é delicioso.

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Meu amigo Nader me contou que o hummus servido no restaurante Lina, na mesma rua, também é feito de maneira tradicional e é tão gostoso quanto o de Abu Shukri. Não experimentei, mas fica a dica.

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Voltando pra rua principal (a mesma da doceria e de Zalatimo) e continuando a caminhada por mais alguns minutos você vai cruzar com a rua David à sua direita. Essa rua é a mais turística de todas, mas esconde uma pérola: a loja de especiarias e chás do meu amigo Bassem (a primeira foto desse post foi feita na loja). Lá você vai encontrar dezenas de temperos, ervas e chás perfumados, além de frutas secas e oleaginosas. Procure as misturas pra arroz e saladas, uma combinação de ervas, legumes desidratados e sementes que vai deixar seus pratos muito mais interessantes. Também recomendo os chás de Bassem, que são de ótima qualidade. O meu preferido é o chá de pêssegos: chá verde (com folhas inteiras) com pedacinhos de pêssego desidratado. Bassem arranha várias línguas e se você disser que é brasileiro ou português ele vai trocar algumas frases na língua de Camões com você. Esse é um ótimo lugar pra comprar presentes comestíveis (os meus preferidos) pra família e amigos.

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Saindo da cidade antiga pela porta de Damasco e caminhando à direita durante alguns minutos você chega à rua Salahadim, uma das mais movimentadas de Jerusalém Oriental. Tem dois lugares nessa rua que adoro.  Na Educational Bookshop você vai encontrar todos os tipos de livro sobre a Palestina (culinária, política, ocupação, cultura, HD), em Inglês e outras línguas europeias. Mas a razão de ter incluído esse lugar em um guia vegano é a seguinte: a livraria tem um café onde você pode degustar um delicioso cappuccino com leite de soja e eles servem sempre uma sopa vegana (geralmente de lentilha), além de algumas saladas. Tem mesas dentro da livraria e na calçada (quando o tempo está bom).

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Do outro lado da rua, quase em frente à Educational Bookshop, tem uma padaria chamada French Loaf. Lá você encontra dois salgados veganos: um folhado recheado com batata e uns triângulos crocantes recheados com cogumelo e batata e polvilhado com sementes de papoula (uma delícia que você não pode deixar de provar). Alguns dos biscoitos também são veganos, basta pergunta ao vendedor que ele te mostrará. Eu gosto de comprar o salgado de cogumelo e batata e leva-lo pra Educational Bookshop, onde acompanho o meu lanche de um cappuccino (com leite de soja).

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Na parte Ocidental da cidade a área mais interessante (e a única que conheço bem) fica em torno da rua Jafa. Logo no início da rua tem duas lanchonetes de bagels. Já confessei o meu amor por bagels aqui no blog (e até dividi com vocês a minha receita), então quando passo por lá sempre compro um saco de bagels que congelo e vou comendo durante a semana. A minha lanchonete preferida se chama Holy Bagel e você monta o próprio sanduíche: escolha o tipo de bagel (integral, com sementes, com cebola…) e os recheios (dentre os veganos geralmente tem guacamole, legumes assados, legumes crus –cebola, tomate, folhas verdes-, alfafa e molho de tahina).

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Não longe de lá, na rua Shlotzion, tem uma lanchonete especializada em sabich, um sanduíche típico da comunidade judaica iraniana que foi morar em Israel. Sabich é composto de berinjela frita mais batata cozida, vários legumes crus e um delicioso condimento chamado ‘amba’, feito com manga, vinagre, cúrcuma, mostarda, feno-grego e pimenta (parece estranho, mas é muito, muito bom). Tradicionalmente sabich tem ovo cozido, mas basta pedir sem que o sanduíche fica vegano.

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Existe uma grande comunidade de judeus etíopes em Israel e não é raro ver restaurantes típicos pela cidade. A culinária etíope é extremamente veg-friendly e se você cansou da dupla hummus-falafel experimente um desses pratos exóticos. Continue caminhando na rua Jaffa e vire à esquerda logo depois da praça Zion. Nessa ruela tem um restaurante etíope chamado Queen of Ethiopia. Vários itens do menu são veganos (no menu- em Inglês-vai estar escrito ‘vegetarian’, mas na verdade é vegano) e o meu prato preferido é o que eles chamam de ‘mix vegetariano’, composto de injera (o pão-crepe fermentado que é a base das refeições na Etiópia) e várias preparações de lentilha e legumes.

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Esse guia foi o mais pessoal de todos, pois estou dividindo com vocês os meus lugares preferidos. Mas é bom lembrar que tem muitos outros lugares interessantes na cidade e que em geral, com todo esse hummus e falafel pelos cantos, é muito fácil ser vegano em Jerusalém. E se vocês passarem pela cidade um dia, talvez me surpreendam tomando café no Star Restaurant, comendo o maravilhoso hummus de Abu Shukri ou conversando com meu amigo Bassem, entre chás e especiarias. Se me virem, não deixem de dizer ‘oi’ e se eu estiver com tempo mostrarei pra você os outros lugares especiais que não entraram nesse guia.

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*Agradecimentos especiais pros queridos amigos palestinos que me ajudaram a fazer esse guia: Bassem (o das especiarias), que me explicou onde ficava Zalatimo, e Nader, que desenhou um mapa pra que pudesse encontrar Abu Shukri (ele também trabalha na cidade antiga e conhece todas as ruelas como a palma da mão).  E um obrigada mais que especial pra Sahar, minha amiga israelense (vegana!) que fez um tour vegano na parte Ocidental da cidade comigo, me fez descobrir o sabich e até segurou meu sanduíche pra que eu pudesse fotografa-lo.

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