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azeite tawfic

Eu criei esse blog em uma noite de fevereiro de 2010. Fazia tempo que eu vinha pensando em começar um blog de culinária vegetal e já tinha escolhido o nome ‘Papacapim’ há quase um ano. Mas apesar da ideia ter marinado na minha cabeça por muito tempo, eu vivia procurando desculpas pra justificar a não existência do blog. “Ninguém vai se interessar pelo que tenho a dizer” e “minhas receitas são muito estranhas e não vão agradar o pessoal” eram as minhas preferidas. Quem diria que hoje, três anos depois, seria exatamente por esses motivos que vocês apareceriam por aqui.

Preciso agradecer à Anne, pois sem o incentivo dela esse projeto não teria se concretizado. Ela tentava me convencer de que eu tinha coisas muito interessantes pra dizer, sim, e que minhas receitas não eram ‘estranhas’ e sim originais. Anne foi a primeira pessoa que acreditou no meu talento e potencial como blogueira.

Eu queria criar um blog pra convencer as pessoas de que é possível ser vegano e ter uma alimentação deliciosa, mas o blog cresceu e foi muito mais além. Ele se tornou um veículo pra expressar uma infinidade de coisas, de assuntos pessoais (como meu casamento, meu amor pela minha irmã caçula e minhas passagens pelo sítio dos meus pais) à situação na Palestina (entrevistas com amigos palestinos e israelenses e meu trabalho no campo de refugiados, por exemplo), passando por viagens, dicas de nutrição, vida vegana e, claro, muitas receitas. E o impacto nos leitores foi muito maior do que eu imaginava.

Eu gostaria que vocês me vissem quando leio o que vocês escrevem: sorriso de orelha à orelha, pinotes e palmas de alegria, como uma criança que assiste a um espetáculo maravilhoso, e aqui e acolá umas lágrimas. Muita gente me escreve agradecendo pela “revolução” que estou provocando em suas vidas, mas preciso contar que vocês também revolucionaram a minha. Eu abandonei um mestrado em Linguística Teórica e Descritiva na faculdade mais prestigiosa da França, com a promessa de um doutorado no MIT, porque títulos e pompas nunca importaram pra mim e porque eu sonhava em transformar o mundo em um lugar melhor e ajudar as pessoas ao meu redor. Graças aos seus comentários e e-mails eu hoje tenho a certeza de que meu sonho se realizou.

Apesar de ter criado o blog em fevereiro, eu o mantive secreto durante alguns meses (estava preparando o conteúdo das páginas) e só em maio ele se tornou público. Então, pra coisa ficar ainda mais confusa, decidi comemorar o aniversário do Papacapim sempre em abril, pois é um mês que adoro.

Gostaria de agradecer aos meus maravilhosos leitores com um banquete 100% Papacapim, preparado pelas minhas mãozinhas, mas como isso não é possível pensei em enviar um presente muito especial: uma garrafinha do maravilhoso azeite do meu amigo Tawfic, feito com as azeitonas que eu ajudei a colher esse ano. Depois que falei que o azeite de Tawfic era o melhor do mundo muita gente desejou prova-lo, então achei que vocês iam gostar do presente.

com tawfic e mohamad

Fui buscar o azeite hoje à tarde na mercearia de Tawfic e aproveitei pra fazer essa foto com ele (à esquerda) e seu assistente Mohamad.

com tawfic e mohamad2

Infelizmente não posso mandar uma garrafa pra cada um de vocês, então terei que fazer um sorteio e escolher apenas um(a) leitor(a) sortudo(a). A coisa vai funcionar assim. Quem quiser provar o delicioso azeite de Tawfic deixa um comentário nesse post e eu escolherei o ganhador de maneira aleatória (pedirei pra alguém escolher um número e procurarei o comentário que aparecer nessa posição). Depois entrarei em contato por e-mail com o(a) feliz ganhador(a) pedindo o seu endereço (que pode ser no Brasil ou em qualquer outro país) e alguns dias mais tarde a pessoa receberá um pacotinho pelos correios com o azeite. Vou encerrar o concurso na quarta pela manhã aqui na Palestina (o que significa de madrugada no Brasil) Update: vou encerrar o concurso hoje, terça-feira, às 22h aqui (16h no Brasil), pois irei à Jerusalém amanhã e aproveito pra enviar o pacote. Então entrarei em contato com o(a) vencedor(a) no final do dia. Os comentários que aparecerem depois não participarão do sorteio.

Mais uma vez, obrigada por acompanharem o blog e espero continuar vendo vocês por aqui sempre.

*Querem saber qual foi o primeiro post que apareceu aqui no Papacapim, mais de três anos atrás? É só conferir aqui (ainda adoro essa receita).

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Acho que esse é o post mais aguardado do Guia Papacapim de Alimentação Saudável:

Retire o açúcar do seu dia a dia

O assunto já rendeu muitos comentários aqui no blog, antes mesmo de anunciar que eu não publicaria mais receitas com açúcar. Aqui está tudo que você sempre quis saber sobre açúcar, suas consequências na saúde e porque as pessoas são viciadas nessa substância. E a pergunta que não quer calar (e que eu escuto o tempo todo), é extremismo retirar o açúcar da alimentação?

O que é açúcar?

Como sempre, comecemos do início. Açúcar de mesa, também chamado de sacarose, é composto de glicose e frutose em proporções iguais. Ele é feito a partir da cana de açúcar e, em alguns lugares do mundo, de beterraba. Entre a cana de açúcar e o açúcar que está no seu açucareiro existe um longo e complicado processo com inúmeras etapas: clarificação (que usa substâncias como cal – sim, aquela de pintar paredes- fosfatos, bentonita e polieletrólitos), condensação, cristalização e refinamento. Na fase de refinamento são usados resina e carvão animal, que é obtido a partir da queima de ossos e partes córneas de animais (por isso nem todo açúcar é vegano). Porém não são os produtos químicos usados na sua fabricação que tornam o açúcar nocivo e sim a sua própria composição. Açúcar é uma das substâncias mais puras (leia “concentradas”) que existe: a concentração de sacarose varia entre 98 e 99,8%.

Açúcar mascavo, demerara (orgânico ou não) ou branco são a mesma coisa. Os dois primeiros são menos refinados que o terceiro, mas continuam sendo a versão ultra concentrada da glicose/frutose encontrada naturalmente na cana de açúcar e o efeito no organismo é absolutamente o mesmo. Melado (melaço ou mel de engenho, como chamamos no Nordeste) é ainda menos refinado e oferece alguns nutrientes, notamente minerais, mas ainda assim deve ser consumido com moderação, pois a concentração de sacarose também é elevada. O mesmo pode ser dito do mel de abelha, que é ainda mais natural e tem vários nutrientes, mas a concentração de açúcar (glicose e frutose) é de 75%, então também deve ser consumido com moderação.

Mas hoje em dia ‘moderação’ e ‘açúcar’ são duas palavras que nunca aparecem juntas. O consumo de açúcar no Brasil cresceu muito nas últimas décadas.  Em 1930 o consumo médio anual era de 15 quilos por habitante.  Hoje cada brasileiro consome 50kg de açúcar por ano (fonte: Embrapa), o que significa 1kg por semana!  Nos EUA a situação é ainda pior: o consumo é de 70kg por habitante/por ano. Se você está pensando que de jeito nenhum você é capaz de consumir 1kg de açúcar por semana, saiba que isso não representa só o açúcar que você coloca no café ou no suco e sim todos os alimentos que contém açúcar, como bolos, biscoitos, bolachas, doces, sorvete, balas, cereais matinais, iogurtes, mas também pão, molhos, embutidos… Açúcar, escondido sob dezenas de nomes diferentes, está presente em praticamente todos os produtos industrializados, sejam eles doces ou salgados.

Como o açúcar é processado pelo organismo

Como expliquei mais acima, açúcar é composto de uma molécula de glicose e uma de frutose.  É indispensável entender a diferença entre esses dois carboidratos. A glicose é um carboidrato essencial, pois é a principal fonte de energia do organismo (e o combustível das células). Cereais, frutas e verduras contêm glicose. Frutose, o ‘açúcar das frutas’, mas que também é encontrado em outros vegetais e no mel de abelhas, é uma substância completamente diferente. Glicose e frutose não são metabolizadas da mesma maneira e não têm o mesmo efeito no nosso organismo.  Enquanto a glicose é metabolizada por todas as células do corpo (lembrem que ela é o principal combustível dos seres vivos), a frutose é metabolizada principalemnte no fígado (uma pequena parte é metabolizada nos rins e nas células adiposas).

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Mas se a frutose está presente naturalmente nas frutas, ela não deve ser nociva, certo? É verdade que a frutose, assim como a glicose, está presente em vários vegetais (e no mel), mas o detalhe que faz toda a diferença é a sua concentração. Lembram quando falei que açúcar é uma das substâncias mais concentras que existe? A frutose presente nos vegetais, apesar de ser a mesma presente no açúcar, aparece em concentrações muito inferiores e vem sempre acompanhada de nutrientes e fibras. A natureza colocou aquele tiquinho de frutose nas frutas pra deixar o sabor mais agradável e fazer você comer as fibras e vitaminas. Ou, como eu vi um médico dizer outro dia, “Onde Deus colocou veneno, ele colocou o antídoto”. As fibras das frutas estão ali pra fazer com que o açúcar presente nelas entre aos pouquinhos no organismo, sem causar estragos. Transforme a fruta em suco e você jogou fora o antídoto (as fibras), ficando só com a parte ruim.  Comparar a frutose dos alimentos naturais e integrais, como frutas, com a frutose na sua forma ultra concentrada (açúcar, xaropes e a própria frutose pura, vendida como adoçante) é como comparar a folha da coca, que é usada de maneira medicinal há séculos, com a cocaína, que é extraída da mesma planta, mas que sofreu um processo químico que alterou completamente sua composição e seu efeito no organismo.

Consumir quantidades concentradas de frutose, como é o caso de todo alimento que contém açúcar, significa que seu fígado ficará sobrecarregado de trabalho. Se o açúcar for consumido de forma líquida, como em refrigerantes e sucos de frutas (mesmo os naturais e não adoçados), a velocidade com que a frutose chegará no fígado será ainda maior e, consequentemente, o impacto que ela terá no fígado também.

Efeitos na saúde e porque açúcar é uma substância tóxica

Açúcar não é apenas uma caloria vazia. Não se trata de um pequeno prazer gustativo sem nenhum nutriente. Açúcar é um antinutriente, pois além de não trazer nada de benéfico pro organismo ele rouba nutrientes, principalemente minerais, que já estão no nosso corpo. Mas o problema não para por aí.

Pesquisas recentes mostram que o consumo prolongado de quantidades elevadas de açúcar (o que está acontecendo hoje no mundo inteiro) induz a uma condição conhecida como síndrome metabólica (resistência à insulina), que é hoje considerado o problema fundamental nos casos de obesidade. O açúcar, devido à maneira única que ele é metabolizado e ao impacto que tem no nosso organismo, pode ser a causa de inúmeras doenças crônicas, como hipertensão, doenças cardíacas, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer.

De acordo com o Dr Robert Lustig, um americano especialista em distúrbios hormonais e pediátricos, o principal especialista em obesidade infantil da Universidade da Califórnia e uma das pessoas que mais estudaram o impacto do açúcar no metabolismo, açúcar deveria ser visto como cigarro e álcool: ele não é um alimento, é uma substância tóxica e que nos mata aos poucos. Não é coinscidência o fato de que quanto mais aumenta o consumo de açúcar em uma população, maior a ocorrencia das doenças citadas acima.

E as consequências nefastas do açúcar na nossa saúde vão ainda mais além. A nutricionista Nancy Appleton escreve sobre essa questão desde os anos 70. No seu último livro, “Suicide by sugar”, onde ela explica porque o açúcar é um “suicídio doce”, ela resumiu os resultados de suas pesquisas em uma lista chamada: “As 141 maneiras que o açúcar destrói a sua saúde”. Pra não assustar muito vocês eu reduzi esse número pra 23:

1. Açúcar pode suprimir o sistema imunológico. (Depois de comer algo com açúcar seu sistema imunológico fica enfraquecido por 5 horas.)
2. Açúcar pode causar hiperatividade, ansiedade, dificuldade de concentração e irritabilidade em crianças.
3. Açúcar contribui para a redução na defesa contra infecções bacterianas (doenças infecciosas).
4. Açúcar interfere na absorção de cálcio e de magnésio.
5. Açúcar pode enfraquecer a visão e causar miopia.

6. Açúcar pode causar cáries.
7. Açúcar pode causar obesidade.
8. Açúcar pode diminuir a produção do hormônio do crescimento.
9. Açúcar pode causar diabetes.
10. Açúcar pode provocar dores de cabeça e enxaqueca.

11. Açúcar pode afetar negativamente as notas das crianças e provocar transtornos de aprendizagem. Dietas ricas em açúcar reduzem a capacidade de aprendizagem em geral.
12. Açúcar faz com que você aumente a quantidade de alimento ingerido (a absorção rápida do açúcar promove a ingestão excessiva de alimentos/calorias).
13. À medida que o açúcar aumenta na dieta de crianças, a ingestão de muitos nutrientes essenciais diminui, causando diversas carências.
14. Açúcar torna o processo de digestão mais difícil.

15. Açúcar provoca prisão de ventre.
16. Açúcar pode aumentar o risco de diversos tipos de câncer.
17. Açúcar pode provocar envelhecimento prematuro. Ele faz a nossa pele envelhecer mudando a estrutura do colágeno.
18. Açúcar pode causar gastrite.
19. Açúcar pode causar esclerose múltipla.
20. Açúcar pode contribuir para a osteoporose.

21. Açúcar pode aumentar a pressão sanguínea.
22. Açúcar pode aumentar o tamanho do fígado.
23. Açúcar pode provocar desequilíbrio hormonal.

Porque é tão difícil se livrar do açúcar (ou porque açúcar causa dependência)

Agora você já sabe porque não devemos consumir açúcar. Mas por que será que as pessoas consomem açúcar, em quantidades cada vez maiores, e por que retirar o danado da dieta é tão difícil (algumas pessoas vão dizer “impossível”)? O efeito do açúcar no organismo é similiar ao efeito causado por drogas como heroína e ópio: ele entra no cérebro e provoca uma sensação de bem estar momentânea que, depois que vai embora, nos obriga a comer mais açúcar pra repetir, de novo e de novo, esse efeito. E, como toda droga, quanto mais consumimos, maior a quantidade necessária pra repetir o efeito desejado. Açúcar é altamente viciante, exatamente como as drogas mencionadas acima (algumas pesquisas mostram que ele vicia ainda mais rápido).  Mas não é impossível se livrar dessa dependência e os benefícios de ter uma alimentação sem açúcar compensam e muito os esforços necessários pra exclui-lo de vez da sua vida.

Segundo o dr Lustig “nosso organismo não necessita de frutose pra realizar absolutamente nenhuma reação metabólica”, ou seja, não existe nenhum motivo pra ingerir açúcar (ou outra fonte concentrada/pura de frutose). Quando escuto as pessoas dizerem “Mas a gente precisa de um pouco de açúcar pro organismo funcionar”, me dá vontade de chorar. Nós precisamos de glicose, gente, de glicose (ela é o combustível das células, lembram?), NÃO DE AÇÚCAR! Comendo cereais, frutas e verduras nós obtemos toda a glicose necessária pro organismo funcionar direitinho. Geralmente nessa hora a pessoa que falou a frase acima diz: “Certo, açúcar não é a melhor fonte de energia em termos de qualidade, mas não deixa de ser uma fonte de energia rápida e barata.” Sonho com o dia em que as pessoas entenderão, enfim,  que açúcar não é uma “fonte de energia rápida” e sim uma substância tóxica.  Se você quiser uma fonte de energia rápida, coma uma banana (ou outra fruta fresca ou seca). Frutas são fontes de energia rápida e além de não prejudicarem a sua saúde fornecem fibras, vitaminas e minerais.

frutas secas

Conclusão

Açúcar é uma substância química criada em laboratório/fábrica que tem um efeito tóxico no organismo, é provavelmente a causa da epidemia de obesidade que vemos no mundo hoje, provoca inúmeras doenças, incluindo diabetes do tipo 2, doenças cardíacas e alguns tipos de câncer, além de enfraquecer o sistema imunológico, roubar nutrientes do corpo, diminuir a capacidade de aprendizado e concentração e influenciar de maneira negativa nosso humor e o comportamento das crianças. Açúcar também é extremamente viciante.

Seu corpo não tem absolutamente nenhuma necessidade de açúcar e pode funcionar perfeitamente, e extrair toda a energia que precisa, só com a glicose presente naturalmente nos vegetais. A única razão que leva as pessoas a continuar comendo açúcar é a dependência criada por anos de consumo. Alguns vão dizer “Comemos açúcar, e sobremesas que contém açúcar, porque é gostoso.”  Sei que vou parecer um disco arranhado, sempre repetindo a mesma coisa, mas lá vai: gosto é totalmente subjetivo e programável. Papilas viciadas em doces vão achar uma fruta algo sem graça, da mesma maneira que pessoas que não consomem açúcar, como eu, vão se deliciar com uma fruta fresca e achar uma sobremesa carregada de açúcar ruim e enjoativa (ao ponto de ser impossível de engoli-la).

Você não nasceu viciado(a) em açúcar e garanto que se começar a diminuir o seu consumo gradativamente suas papilas passarão a apreciar outros sabores. Gosto se educa. É um processo lento e trabalhoso, que exige um esforço ativo da sua parte (não espere se deitar viciado em doces um dia e acordar totalmente livre dessa dependência no dia seguinte), mas a recompensa é imensa. Além de parar de deteriorar a sua saúde e se livrar de vários problemas que você nem sabia que eram causados pelo açúcar (prisão de ventre, má digestão, dores de cabeça, depressão, acne…) você vai se sentir livre! Sua mente não será mais controlada pela sobremesa na geladeira (ou o chocolate na gaveta) que não para de chamar seu nome. E você vai redescobrir alguns sabores esquecidos, pois suas papilas estavam enterradas sob uma montanha de açúcar, e um pedaço de melancia vai se transformar em um nectar dos deuses.

Afinal, eu sou radical, extremista, exagerada e xiita por não comer açúcar?

Pra terminar, gostaria de responder à pergunta que fiz no início do post. É extremismo retirar o açúcar da alimentação? Se você leu até aqui já conhece a resposta. Assim como disse o dr Lustig, açúcar pra mim é exatamente como cigarro: uma substância química, da qual o seu corpo não tem necessidade nenhuma e que prejudica a saúde. Mas, exatamente como o cigarro, as pessoas consomem porque sentem prazer ao fazê-lo e, por terem consumido repetidas vezes, acabaram ficando dependentes. Sei que essa comparação vai parecer exagero pra maioria de vocês, mas é preciso pensar no tamanho do estrago causado pelo açúcar. Doenças provocadas pelo consumo excessivo e contínuo de açúcar (obesidade e doenças cardíacas, por exemplo) matam muito mais do que o consumo de cigarro. E, contrariamente ao cigarro, açúcar é consumido por praticamente todos, inclusive crianças. Tendo em vista o monstruoso impacto negativo que o açúcar está causando na sociedade, a comparação fica é pequena.

Então pra mim a resposta está aqui. Você diria a uma pessoa que não fuma “Ah, mas que exagero! Que radicalismo! Um cigarrinho de vez em quando não vai te matar.”? Isso é absolutamente verdade, mas nunca ninguém usaria esse argumento pra convencer alguém de que não fumar um pouquinho de vez em quando é extremismo. Mas é exatamente esse discurso que escuto quando explico que não como açúcar. Um docinho aqui e acolá não vai estragar a sua saúde, contanto que a sua alimentação diária seja verdadeiramente saudável (rica em vegetais e alimentos integrais), mas quem decide excluir totalmente o açúcar da vida não deveria ser acusado de radicalismo.

Não tem absolutamente nada de radical em retirar uma substância tóxica do nosso dia-a-dia, isso não passa de bom senso. E não pensem que minha vida é uma tortura contínua e que eu não como nada de doce e gostoso. Acho que as receitas que publico aqui no blog mostram que é possível viver sem açúcar e ao mesmo tempo se deliciar com sobremesas maravilhosas.

Vocês já escutaram pessoas justificarem o consumo de açúcar com a frase “De amarga basta a vida”? Sugiro que, ao explicar que não comem açúcar, vocês digam: “Eu já sou doce o suficiente.”

*Há muitos anos venho pesquisando o impacto do açúcar na saúde e gostaria de recomendar alguns artigos, vídeos e livros que me ajudaram muito nessa jornada. Infelizmente quase todos são em inglês, pois a informação científica é sempre mais abundante nessa língua.

Chocolate, cheese and sugar- Physically Addictive. Palestra com o dr Neal Barnard explicando porque chocolate, queijo e açúcar causam dependência.

Sweet Suicide: or how sugar ruins your health– Vídeo com partes do filme “Sweet suicide”, baseado no livro de Nancy Appleton ‘Suicide by sugar’. Os primeiros minutos desse vídeo são profundamente chocantes: uma cientista dá açúcar pra um garotinho de 3 anos e depois de alguns minutos o menino se transforma completamente. Depois de ver esse vídeo a gente entende porque tem tanta criança insuportável por aí…

Is sugar toxic? Artigo publicado no New York Times em 2011 explicando porque açúcar é uma substância tóxica.

Big sugar sweet little lies  Se açúcar é tóxico e mata, como é que continuam vendendo açúcar, em quantidades cada vez maiores, pra população? A edição de novembro de 2012 da revista Mother Jones foi dedicada às mentiras e artimanhas da indústria açucareira e a sua imensa influência sobre cientistas, USDA e governo. A seção que mostra as publicidades antigas de açúcar é de dar pesadelos.

Sugar the bitter truth A palestra dada pelo Dr Robert Lustig, que inspirou o artigo do NY Times. Tudo que você precisa saber sobre açúcar está aqui.

Sugar blues-O gosto amargo do açúcar, de William Dufty. O primeiro livro que li sobre o assunto e uma das referências sobre o impacto do açúcar na saúde. O autor também fala das consequências sociais do cultivo da cana e produção do açúcar. Esse livro pode ser baixado em Português (não tenho o link, mas é só procurar na net).

Site da nutricionista Nancy Appleton, onde vocês podem ler a lista completa com as 141 razões pra evitar o açúcar.

Sahar Vardi

Em uma conferência com objetores de consciência israelenses na cidade palestina de Beit Sahour (Sahar está no centro).

Depois de ter publicado a história de três amigos palestinos aqui no blog (vocês podem ler os relatos aqui, aqui e aqui), gostaria de escrever sobre uma amiga israelense. Durante minhas palestras e conversas sobre a Palestina escutei algumas vezes coisas do tipo “Ah, mas você escolheu ficar do lado dos Palestinos”, como se as informações que eu repasso fossem tendenciosas (sempre respondo que escolhi o meu lado, sim: os diretos humanos). Mas é por isso que hoje eu gostaria de dar a palavra a uma israelense. Sahar é uma das pessoas mais engajadas e interessantes que conheço e nessa entrevista ela fala sobre ativismo, a militarização da sociedade israelense (e suas consequências na população) e como ela imagina o futuro da região. Fiz essa entrevista ano passado e ela foi publicada originalmente na Revista Fórum de novembro.

Sahar Vardi tem 22 anos e estuda História e Educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, cidade onde nasceu. Ela cresceu em uma família, segundo sua própria descrição, judia sionista e hoje é uma das ativistas israelenses mais engajadas contra a ocupação militar na Palestina.

Aos 13 anos Sahar foi pela primeira vez aos territórios palestinos, acompanhada pelo pai. Durante a segunda intifada (2000-2002) o pai se tornou ativista, participando das ações realizadas pelo grupo israelense Ta’yush. Foi seu primeiro contato com palestinos. “Apesar de ser muito fácil visitar uma cidade palestina, é possível viver toda a sua vida em Israel e nunca encontrar um único palestino. Jerusalém é uma cidade mista, com mais de 36% de palestinos, mas aqui a segregação é total. Existem bairros exclusivamente judeus, escolas, ônibus… Não há interação entre palestinos e israelenses.” No vilarejo palestino de No’man ela participou de atividades com os habitantes, plantou oliveiras e ajudou a trocar a encanação de algumas casas. “A população de No’man é bastante instruída e todos falam Hebraico ou Inglês ou os dois, então foi fácil conversar com jovens da minha idade. A única diferença visível entre eu e aquelas pessoas era a cor da nossa carteira de identidade.” (Palestinos da Cisjordânia recebem identidades verdes) Nesse vilarejo Sahar viu o que a ocupação significa para o povo palestino. “A estrada que ligava o vilarejo à Jerusalém tinha sido fechada pelo exército israelense e o muro de separação construído por Israel isolou No’man dos outros vilarejos palestinos. Essa separação física estava ali para me convencer que não, nós não éramos iguais. A escola tinha me ensinado que a ocupação só existe por razões de segurança, para proteger os israelenses judeus, mas esse argumento desmoronou quanto entrei em contato com a população de No’aman.” Depois desse primeiro contato com pessoas “do outro lado do muro”, Sahar começou a participar de ações contra a ocupação israelense na Palestina, como as passeatas semanais contra a construção do muro e a confiscação de terras pelo governo israelense nos vilarejos de Al-Ma’sara e Bil’in.

Em Israel o serviço militar é obrigatório: três anos para os homens e dois anos para as mulheres. Mas ao completar 18 anos, Sahar se recusou a entrar para o exército. Junto com um pequeno grupo de jovens objetores de consciência, escreveu uma carta aberta ao Ministro da Defesa Israelense. O primeiro parágrafo dessa carta diz: “Nos recusamos a servir o exército em primeiro lugar e acima de tudo em sinal de protesto contra a política israelense de separação, controle, opressão e assassinato nos Territórios Palestinos Ocupados, pois acreditamos que oprimir, assassinar e semear o ódio não pode trazer paz ao mundo e que isso vai contra os valores fundamentais de uma sociedade que se diz democrática.” Junto com essa carta coletiva, Sahar escreveu uma mensagem pessoal onde dizia (extratos): “Em casa e na escola me ensinaram os direitos fundamentais, como justiça, liberdade e igualdade, mas muito cedo percebi que o país onde vivo nega esses direitos a milhões de pessoas para que eu possa desfrutar da ‘liberdade’ que ele me ensinou que todos merecem. Eu não posso ficar em um posto de controle e separar uma raça de outra, um tipo de carteira de identidade de outro, não posso bombardear cidades cheias de homens, mulheres e crianças, mesmo se isso for feito como parte de uma guerra, e não posso punir milhões de inocentes pelos crimes cometidos por alguns. É nossa obrigação como seres humanos não ferir os outros, é nossa obrigação recusar a participação de qualquer ação que possa prejudicar os outros, mesmo se estivermos seguindos ordens do nosso país. Eu me recuso a agir de maneira violenta, sob ordens ou não.”

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Sendo presa por soldados israelenses durante uma manifestação nos Territórios Palestinos Ocupados.

 A resposta do governo israelense aos jovens que recusam o exército é a prisão. Sahar ficou dois meses na cadeia e três meses em um centro de detenção. Depois de ser liberada, Sahar continuou suas atividades de ativista, mas começou a trabalhar de maneira mais ativa em Jerusalém. Ela trabalhou alguns anos no ICAHD (Comitê Israelense Contra Demolições de Casas), onde coordenava projetos de reconstrução de casas palestinas demolidas pelo governo israelense e organizava tours políticos em sua cidade natal. Hoje ela faz parte de uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense e propõe alternativas às pessoas que não querem servir o exército, oferecendo bolsas de estudos e programas de voluntariado no exterior. O sistema universitário em Israel é determinado pelo trabalho feito no exército, de modo que pessoas que não fazem o serviço militar não podem obter bolsas de estudos e, se um projeto de lei for aprovado, não poderão fazer certos cursos, como medicina e direito. Sahar explica que “embora essas leis se apliquem aos objetores de consciência, elas foram criadas para punir os árabes-israelenses, que não fazem o serviço militar”.  Paralelo aos estudos e ao trabalho, ela ainda participa regularmente de ações de solidariedade com o povo palestino e manifestações contra a ocupação.

Tive a sorte de escutar Sahar em duas conferencias, a primeira logo depois que ela foi liberada da prisão, a segunda alguns meses atrás, e acompanho com admiração o seu trabalho. Encontrei Sahar em uma tarde de junho, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela tinha acabado de chegar de uma conferência na Grécia e já estava se preparando para a próxima viagem, à Alemanha, onde participaria de uma conferência sobre a militarização da juventude no mundo. Entre duas aulas, ela gentilmente se dispôs a responder algumas perguntas e conversar sobre sua vida e seu trabalho.

Você se define como “uma ativista de Jerusalém”. Quanto da sua vida foi modelado pelo ativismo?

Minha adolescência e minha vida adulta foram definidas em função do meu ativismo. Ele influencia o tipo de trabalho que faço, o que eu leio, o que eu como, o curso que escolhi na faculdade, as pessoas com quem decido conviver… Tudo na minha vida é influenciado pelo ativismo.

Qual foi a reação de sua família quando você se recusou a fazer o serviço militar?

Minha família não se surpreendeu, eles já imaginavam que eu faria isso. Aqui é relativamente fácil evitar o serviço militar obrigatório e eu poderia ter usados várias desculpas para não servir o exército. Por exemplo, 12% da população evita o serviço militar alegando motivos de saúde mental e há poucas chances que esse pessoal todo seja louco. Mas para mim era importante enviar uma mensagem ao meu governo, manifestar publicamente minha desaprovação. Em Israel não existe a opção de recusar de servir o exército. Ao completar 18 anos todo israelense se torna automaticamente soldado, independente da vontade de cada um. Então você, que é considerado um soldado, vai para a prisão não por ter se recusado à servir o exército, mas por ter desobedecido à ordem do seu comandante de ir para a sua base militar. Depois desses cinco meses de prisão e detenção, acabei sendo liberada por motivos de saúde mental, já que não é possível sair desse sistema alegando motivos políticos. Então eu sou oficialmente louca. Mas durante todo esse processo pude contar com o apoio da minha família, que também apoiou a decisão do meu irmão de fazer o serviço militar. Hoje ele segue carreira no exército, mas sempre se recusou a combater nos territórios palestinos. Fomos expostos à mesma realidade, mas seguimos caminhos diferentes e minha família respeita as minhas razões e as dele.

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Você trabalha atualmente em uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense. Como acontece e quando começa o processo de militarização no seu país?

A militarização da sociedade começa muito cedo, na escola.  Nossos livros nos ensinam a contar ligando imagens de tanques, aviões de caça etc, aos números correspondentes.  Nas datas comemorativas os alunos enviam presentes para os soldados. Durante toda a nossa educação aprendemos que segurança justifica todo e qualquer ato e que o exército, e a ocupação nos Territórios Palestinos, é a única maneira de manter um lar para o povo judeu. Tudo é uma grande preparação para o exército, principalmente quando os alunos se aproximam da idade de fazer o serviço militar. Lições de História sobre a perseguição sofrida por judeus, os combates para obter o nosso país… Esse doutrinamento aplicado à população pode ser visto de maneira explícita todos os anos nas semanas entre abril e maio. Começa com Pesach, a páscoa judaica (comemoração da liberação do povo hebreu do Egito, travessia do mar vermelho e chegada à terra prometida), depois vem o dia da memória do holocausto, seguido do dia da memória dos soldados e, no dia seguinte, o dia da independência de Israel. A mensagem é muito clara: os judeus sofreram e foram perseguidos durante toda a História, o Holocausto é um bom exemplo disso, muitas pessoas lutaram e perderam a vida pra que hoje os judeus tivessem um país e é nossa obrigação seguir lutando se quisermos continuar vivendo aqui. O medo é um elemento importante no processo de militarização da sociedade e faz parte do sistema educacional israelense, cujo objetivo principal é formar bons soldados.

Quais são as consequências internas dessa militarização da sociedade?

Quando uma sociedade inteira passa por um sistema militar onde a única maneira de resolver problemas é através da violência, você cria uma sociedade muito violenta. Quando todos os jovens de 18 anos passam por um sistema que é por definição patriarcal e sexista, com estereótipos muito claros sobre o papel da mulher e do homem no exército, isso acaba se reproduzindo na nossa vida civil. Ao entrar no exército cada soldado homem recebe um cartão postal com a foto de um soldado sentado em cima de um tanque, o canhão estrategicamente posicionado entre suas pernas, com a seguinte frase: “Muitas coisas são duras no exército”. O cartão vem acompanhado de uma camisinha, caso a mensagem não tenha sido clara o suficiente. Nos ensinam que o serviço militar é uma parte indispensável da vida de todo israelense e se é assim que homens devem tratar as mulheres no exército, por extensão é assim que elas devem ser tratadas na sociedade.

Você faz parte do pequeno grupo de ativistas israelenses cujo trabalho e posições políticas vão contra a opinião da maior parte da população. Qual é a sua relação com o israelense médio?

Depende da situação. Se sou confrontada com pessoas cujas opiniões são extremamente diferentes das minhas, o que acontece o tempo todo, procuro manter a calma e ser paciente. Houve uma época em que um extremista sionista descobriu o meu número e me ligava constantemente dizendo montanhas de insultos. Eu sempre escutava e tentava responder educadamente, com argumentos racionais. Depois de algumas semanas ele acabou se acalmando e tivemos algumas conversas interessantes. Não sei se ele mudou de opinião, mas pelo menos ele escutou, talvez pela primeira vez na vida, uma opinião diferente. Alguns dos meus amigos de infância cresceram em colônias ilegais na Cisjordânia e ainda tenho contato com eles. Já aconteceu de encontrar colegas da escola durante uma manifestação na Cisjordânia, eu ao lado dos palestinos e eles em uniforme de soldado. Nessas ocasiões o diálogo é limitado, geralmente um olha para o outro e diz: “Então é isso que você está fazendo agora…”

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Logo após ter sido ferida por um soldado israelense durante uma manifestação na cidade palestina de Hebron.

Qual o papel dos ativistas israelenses na luta contra a ocupação militar nos Territórios Palestinos? O que você acha do conceito de “co-resistência”, segundo o qual israelenses lutam contra a ocupação ao lado dos palestinos?

Como israelense, é minha obrigação denunciar os crimes cometidos pelo meu governo e tentar fazer com que isso cesse. São meus impostos que financiam o exército, foi o meu voto que elegeu esse governo e é meu dever lutar por uma sociedade mais justa.  Nas ações contra a ocupação na Cisjordânia, a presença de ativistas israelenses contem um pouco a reação dos soldados, que seria muito mais violenta se houvesse somente palestinos ali. O fato de falar Hebraico também ajuda a acalmar um pouco os soldados. Durante essas ações, ativistas israelenses também podem tentar impedir que palestinos sejam presos. Se formos presos durante uma ação as consequências para nós serão mínimas (Israelenses presos durante ações contra a ocupação são liberados algumas horas depois, enquanto um palestino preso nas mesmas circunstancias pode ficar anos na cadeia). Claro que um ativista palestino e um ativista israelense não correm os mesmos riscos nem sofrem o mesmo tipo de repressão, mas co-resistência para mim não significa que estamos lutamos da mesma maneira, no mesmo nível. Mesmo entre israelenses a resistência é diferente: como mulher eu apanharei menos do que um ativista homem durante uma ação, mas ele será levado mais a sério do que eu. Mas são exatamente essas diferenças que nos permitem de agir de maneiras variadas, em vários setores. Porém co-resistir hoje é complicado devido à falta de visão comum entre os ativistas israelenses. Há muitas divergências de opiniões entre nós. Existe uma diferença clara entre gerações também. Os ativistas mais velhos, por exemplo, ainda servem o exército (Depois do serviço militar obrigatório, todo israelense deve servir o exército um mês por ano até a idade de 45 anos). Se Israel e Palestina fossem um único país haveria uma unidade na luta por justiça e a co-resistência seria mais fácil.

Que tipos de ações você se recusa a participar, por divergências de opinião com os organizadores ou por não concordar com os métodos empregados, por exemplo?

Ações que usem violência. Tenho minhas prioridades, mas se eu concordar com o objetivo da ação, participo mesmo sabendo que alguns dos participantes têm opiniões políticas diferentes das minhas. Apesar das divergências, se sinto que estamos trabalhando por um objetivo comum, não vejo problema em participar.

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Você vê o J14 com otimismo ou ceticismo? (No dia 14 de Junho de 2011 uma israelense de Tel Aviv colocou uma tenda no centro da cidade para protestar contra o preço elevado da moradia no país. Outros israelenses se juntaram a ela e esse foi o início de uma série de manifestações pedindo justiça social e uma melhor distribuição de riquezas. O movimento ficou conhecido como J14, ou Movimento por Justiça Social, e continua ativo.)

Sou otimista nesse sentido: enquanto o pessimista diz que a situação não pode piorar, o otimista diz: “Sim, sim, ela pode piorar!”. (Risos) Acho que as pessoas envolvidas nesse movimento têm boas intenções, mas eles pecam por quererem ser sempre “os bonzinhos”. O Movimento por Justiça Social quer agradar a todos, quer ser “mainstream”, mas é impossível fazer uma real mudança na sociedade sem irritar uma parte dela. Mas o movimento teve alguns efeitos positivos nas pessoas. Durante as manifestações muitos participantes foram presos e pela primeira vez na vida eles sentiram na pele a injustiça e a repressão da qual o nosso governo é capaz. Nesse sentido eles puderam se identificar com os palestinos e isso é muito importante. Então eu tenho esperanças, sim.

Como você imagina o futuro post ocupação? Um estado ou dois?

Definitivamente um estado. Sonho com um país formado por três federações: uma judia, uma árabe e uma para quem preferir não ser identificado nem como judeu nem como árabe. As pessoas precisam sentir que o fato de fundir Israel e Palestina em um único país não mudará a vida delas e que a diversidade cultural será preservada. Então esse país terá autonomia cultural, mas as leis serão as mesmas para todos. Como o que aconteceu na África do Sul depois do fim do apartheid. Um só país, para mim, não significa que os habitantes serão forçados a se homogeneizar nem a mudar o local de suas residências. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma intenção de deixar Jerusalém e ir morar em Ramala (capital cultural e administrativa da Cisjordânia) com a minha namorada.  Não gostaria de viver dentro da sociedade palestina. Um estado com três federações daria essa opção à população, cada cidadão seria livre para escolher viver na federação com a qual tem mais afinidades, com a garantia de ser protegido pelas mesmas leis e usufruir dos mesmos direitos.

*Todas as fotos que aparecem aqui foram feitas por Anne Paq.

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Minha amiga Johanna e o namorado, Dan, formam o casal mais divertido que conheço. Na última vez que estive na casa deles, em Tel Aviv, tive uma crise de riso no banheiro. Do lado do sanitário achei um livro hilário: “Hot Guys and Baby Animals” (tradução: rapazes gostosos e filhotes de animais). O livro se inspira dos calendários/livros gays, com rapazes musculosos e sedutores, mas tem uma intenção mais nobre do que só agradar os olhos: parte da venda do livro é doada pra SPCA (Society for Prevention of Cruelty to Animals).

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Vou traduzir algumas partes do site do livro:

É difícil escolher entre rapazes atraentes e adoráveis fofuras peludas? Nós dizemos: por que escolher? Muitos dos animais em nossos produtos (livros e calendários) foram resgatados e alguns ainda estão disponíveis para adoção. Os homens não estão disponíveis para adoção, mas podem precisar de um resgate.

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Achei uma ideia fantástica e extremamente original. Você trabalha com proteção de animais e está precisando de dinheiro pras atividades? Uma sessão de fotos com seus amigos gostosos e alguns dos animais resgatados pode ser a solução. Como falei no meu último post, existem inúmeras maneiras de ajudar o próximo (humano e não-humano).

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Vários leitores me perguntaram como passei de estudante em Paris pra voluntária em um campo de refugiados na Palestina e pediram dicas, pois também gostariam de fazer uma missão humanitária no exterior. Eu não sou uma expert no assunto, mas posso compartilhar minha história com vocês e dar algumas dicas pra quem gostaria de fazer um trabalho voluntário, no exterior ou no próprio país.

Desde que me mudei pra Palestina, cinco anos atrás, me tornei voluntária em tempo integral, mas comecei a fazer trabalhos voluntários bem antes disso. Eu saí do Brasil aos vinte anos e mentiria se dissesse que tinha alguma preocupação política/social na época. Comecei a trabalhar muito cedo e entre o trabalho e a escola, eu não tinha tempo pra mais nada. É difícil pensar nos problemas que afligem o mundo quando estamos constantemente lutando pra sobreviver. Difícil, mas não impossível. Percebo hoje que na verdade o que me faltou foi estímulo, algum exemplo (pessoa, grupo) que aguçaria o meu senso crítico e me sensibilizaria às questões sociais.

Na França minha vida não mudou tanto. Continuei estudando e trabalhando, mas pude desfrutar de um pouco mais de tempo livre e, mais importante, tive acesso a um mundo de informação (obrigada, bibliotecas públicas francesas!). Minha consciência adormecida começou a despertar. Eu lia jornais e revistas que mostravam opiniões diferentes, que chamavam minha atenção pra assuntos que eu nem imaginava existir e um certo desconforto foi se instalando em mim. Eu não sou o tipo de pessoa que aceita andar por aí com desconforto moral dentro do peito, por isso comecei a mudar várias coisas na minha vida. Foi nessa época que o longo caminho que me conduziria ao veganismo começou.

No final do meu segundo ano na França decidi mudar de universidade e fui estudar na melhor faculdade de linguística do país (muitos professores diziam que ela era a melhor da Europa inteira!). Quando vi que meu maior sonho (fazer faculdade no exterior) estava se realizando de uma maneira muito mais sensacional do que eu tinha imaginado, fiquei tão feliz que decidi fazer algo pra ajudar as pessoas daquele país que estava me tratando tão bem.

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Reconheço que eu estava na contramão: geralmente são os europeus (ocidentais, ricos) que ajudam o pessoal do terceiro mundo, não o contrário! Mas foi aí que aprendi minha primeira lição em matéria de voluntariado: tem gente precisando de ajuda em todos os lugares e não é preciso abandonar tudo e se tornar um médico sem fronteira na África pra transformar esse mundo em um lugar melhor.

Morria de pena quando via um velhinho carregando, com muita dificuldade, seu saco de compras, uma cena comum nas ruas de Paris, e sempre tive vontade de ajuda-los. Em frente à minha casa tinha uma ONG que cuidava de idosos em situações difíceis (vivendo na precariedade e/ou sozinhos) e passei por ela durante anos… até o dia em que tomei coragem de entrar. Esse foi o primeiro trabalho voluntário que fiz na vida. Todo sábado eu visitava idosos que moravam sozinhos e não tinham família, tomava chá e comia biscoitos com eles, enquanto contava e ouvia histórias. Quando eles adoeciam, eu ia visita-los no hospital.  O governo francês oferece moradia, cuidados médicos e uma ajudante pra limpar a casa deles, mas eles eram carentes de afeto e atenção. Meus “velhos amigos”, como a gente dizia na ONG, esperavam a semana inteira pela visita do sábado e guardavam sempre a melhor caixa de biscoitos pra mim. Fiz essas visitas durante quatro anos e vi muitos dos meus velhos amigos morrerem, mas me alegrava saber que eles não estavam sozinhos no final de suas vidas: eu estava ali do lado. Doar um pouco do meu tempo, atenção e carinho pra eles foi uma das melhores coisas que já fiz na vida e ainda carrego todos os meus velhinhos no coração.

Mas esse não foi o único trabalho voluntário que fiz na França. Um dia vi um cartaz na minha nova universidade que dizia “Precisamos de voluntários no Núcleo de Estudantes Deficientes”. Senti imediatamente vontade de me apresentar, mas meu dia-a-dia era tão ocupado (faculdade o dia inteiro, um trabalho fixo e inúmeros trabalhos ocasionais, as visitas aos velhinhos nos sábados…) que pensei que nunca teria tempo pra isso. Um ano depois a minha agenda continuava cheia, mas pensei: “Se eu continuar esperando ter tempo sobrando pra ajudar os outros, corro o risco de nunca ajudar ninguém.” E fui bater na porta do Núcleo de Estudantes Deficientes.

Sentei em frente a uma moça sorridente e disse: “Faz muito tempo que vocês colocaram um cartaz na entrada da universidade procurando voluntários. Provavelmente várias pessoas apareceram, mas se vocês ainda precisam de uma mãozinha, eu terei prazer em ajudar.” Qual não foi a minha surpresa quando a moça respondeu: “Até hoje você foi a primeira pessoa que se ofereceu pra ajudar.” Fiquei tão feliz por ter ignorado a minha agenda cheia e ter tido a coragem de me tornar voluntária na faculdade! Descobri que tinha um número grande de estudantes especiais que precisavam muito de ajuda e me tornei a acompanhante deles.

Eu encontrava os estudantes cegos na frente da universidade e os acompanhava às salas de aula (faculdades são emaranhados de corredores e escadas, com gente se deslocando de um lado pro outro o tempo todo, então é difícil pros estudantes cegos se orientarem nesses espaços, principalmente quando eles têm aulas em 4 salas diferente em um mesmo dia). Também acompanhava os estudantes cadeirantes que não conseguiam empurrar as próprias cadeiras de rodas (alguns tinham problemas nos braços) e isso me fez perceber o quanto os espaços públicos são mal adaptados às necessidades dessas pessoas. A minha faculdade, que tinha vários andares e quatro blocos, só tinha um elevador no bloco 4, o mais isolado de todos, então perdíamos muito tempo indo de uma sala pra outra, pois sempre precisávamos passar pelo bloco 4.

No início de cada semestre eu explicava aos meus professores que chegaria sempre alguns minutos atrasada na aula, pois tinha que acompanhar estudantes especiais às suas salas respectivas, e precisaria sempre sair mais cedo, pra ir buscar os estudantes e conduzi-los às outras salas. Passei três anos correndo nos corredores da faculdade, mas saber que eu estava sendo útil era a maior das recompensas.

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Nos últimos dois anos de faculdade me tornei a tutora de um estudante cego argelino. Ele tinha ido fazer um mestrado em Direito na França e como poucos livros são publicados em Braille, eu lia os livros pra ele e gravava os textos mais importantes (ele sempre carregava um gravador na bolsa) pra ele escutar em casa. Amar (era assim que ele se chamava) se tornou meu amigo e sempre que podia eu ia visita-lo no quartinho da residência de estudantes onde ele morava (do lado da faculdade) pra ajuda-lo a estudar pro mestrado, revisar as lições de Inglês e às vezes eu até limpava o quartinho dele, pois sozinho ele não dava conta do trabalho. Acabei até recebendo algumas lições de Braille do meu amigo (já esqueci tudo).

Essas experiências foram extremamente enriquecedoras pra mim. Estar em contato com pessoas com necessidades diferentes me abriu os olhos pra muitas coisas que antes passavam despercebidas. Sem falar que ter exemplos tão grandes de força de vontade ao meu redor ajudava a relativizar os problemas e a encarar a vida de maneira muito mais positiva. Lembro que nessa época eu sempre dizia pros amigos, caso os surpreendesse reclamando de coisas miúdas: “Sua vida é ótima, quem tem vida difícil é Amar!”

Em 2007 abandonei o mestrado em Linguística e visitei a Palestina pela primeira vez. Duas semanas foram suficientes pra me convencer que o meu lugar era aqui e no início de 2008 me mudei pra Belém e comecei a trabalhar no campo de refugiados de Aida. Já falei sobre o meu trabalho atual nesse post e nesse outro, mas fui voluntária em diversos projetos aqui na Palestina. Trabalhei com crianças (nos campos de refugiados e nas cidades), adultos e crianças especiais, mulheres refugiadas, diabéticos…

Muitas pessoas me perguntam como consegui trabalho no campo, se eu tinha contatos antes de chegar aqui etc. A verdade é que visitei uma ONG no campo durante a viagem de 2007 e quando voltei pra cá, decidida a morar uns tempos em Belém, bati na porta dessa ONG e perguntei se eles aceitavam me receber como voluntária. Simples assim. Tive sorte de ter sido aceita logo na primeira organização e pude criar o meu próprio projeto (pagando tudo do meu bolso). Hoje trabalho de maneira independente e sou mais feliz assim. ONGs podem ser extremamente burocráticas e quando se tem tanta vontade de agir, isso pode ser muito frustrante.

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O que aprendi em quase dez anos de voluntariado

Como falei no início do post, não sou uma expert no assunto e não posso oferecer um passo-a-passo, com dicas práticas e organizações a serem contactadas, pra quem quiser se lançar nessa aventura. Mas gostaria de dividir com vocês umas coisinhas que aprendi durante esses anos de trabalho e que podem ser úteis pra quem estiver pensando em seguir o mesmo caminho.

-Antes de qualquer coisa: não tenha uma atitude paternalista. Vi tantas vezes voluntários tratando as pessoas que eles estavam ajudando como se fossem seres incapazes de cuidar de si mesmos ou de saber o que é melhor pra eles… Pelas caridades, não tenha uma atitude do tipo “coitadinhos dos refugiados/velhinhos/deficientes etc.”! Trate as pessoas com o respeito que elas merecem e deixe a piedade em casa, pois ninguém gosta de ser tratado como um coitadinho.

-Outra atitude a ser evitada: idealizar o grupo de pessoas que você está ajudando só porque elas são vítimas (de preconceito, discriminação, injustiça). É uma espécie de discriminação ao avesso. Pra dar um exemplo concreto, vou falar de algo que conheço bem. Tem voluntários tão tocados pela situação na Palestina e tão revoltados com os crimes cometidos contra esse povo que eles chegam aqui cobrindo os palestinos de elogios, dizendo que são as pessoas mais corajosas, dignas, fantásticas (…) do mundo e os tratam como se fossem todos santos. Tem palestino honesto e desonesto, bom e ruim, exatamente como em todos os lugares do mundo. Se eu luto pela causa palestina é porque eles são seres humanos e merecem ter os seus direitos respeitados, exatamente como qualquer outro ser humano, não porque eles são as pessoas mais maravilhosas do planeta. Eu já senti na pele esse tipo de ‘descriminação ao avesso’. Algumas pessoas, ao descobrirem que sou gay, me falam em um tom emocionado (geralmente segurando o meu braço): “Sabe, eu tenho um amigo gay e ele é uma das pessoas mais maravilhosas que conheço!” Eu tenho vontade de responder: “Sabe, eu também preciso confessar uma coisa: meus três irmãos são héteros e eles são pessoas incríveis!” Minha impressão é que algumas pessoas, porque sabem que sofremos muita discriminação, acabam caindo no extremo oposto e se sentem obrigadas a dizer que AMAM os gays e os acham pessoas MARAVILHOSAS. Porém, vou repetir, nós merecemos ter os nossos direitos respeitados porque somos seres humanos e não porque supostamente somos pessoas maravilhosas. E isso é válido pra todos.

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-Antes de sair de casa pra salvar o mundo, pense se você está dando o melhor de si pras pessoas ao seu redor. Isso foi outra coisa que percebi depois que passei a viver entre voluntários. Tem gente que é capaz de dedicar a vida pra salvar as crianças africanas da pobreza (ou outro clichê do tipo), mas quando volta pra casa é incapaz de ajudar o vizinho a carregar um pacote pesado. Vi pessoas por aqui que se doam 100% pra causa palestina, mas tratam mal os pais. Ser um bom vizinho, um bom irmão, um bom filho, um bom amigo é tão nobre (e necessário) quanto abraçar uma causa e trabalhar como voluntário.

-Não é preciso abandonar tudo e cruzar continentes pra ajudar o próximo. Seu tempo, disposição, entusiasmo e atenção são tesouros pra muita gente que está bem perto de você. É só abrir os olhos e o coração e você enxergará mil maneiras de ser útil sem sair da sua cidade (talvez sem sair do seu bairro!).

-Existem muitas causas a serem defendidas e muitas batalhas que precisam de guerreiros, então escolha a que estiver mais próxima do seu coração. Todas as causas (justas) são importantes, mas você será mais eficaz se escolher algo que te toque profundamente.

-Independente da sua idade, do seu estilo de vida e do lugar onde você mora, sempre é possível ser útil. Você só precisa de uma coisa: motivação.

-Na hora de escolher um projeto, use seus talentos como guia. Se você gosta de estudar e tem boas notas, se ofereça pra ajudar os colegas que têm dificuldades na escola. Se você é paciente e sabe escutar, vá visitar idosos em abrigos. Se você é criativo e cheio de energia, trabalhar com crianças é uma boa opção. Se você é professor de algum esporte ou arte marcial, organize aulas gratuitas em lugares onde as pessoas não podem pagar por esses serviços. Se você é um gênio da informática, se ofereça pra ajudar pessoas que não sabem utilizar um computador. Você é fotógrafo? Pode organizar oficinas de fotografias pra oferecer um canal de expressão a grupos que não têm muitas oportunidades de se expressar. Você é médico? Ofereça algumas consultas gratuitas (pra quem realmente precisa e não pode pagar) por semana. Sua profissão e o seu talento podem beneficiar muitas pessoas.

-Participar de um projeto que já está estabelecido é mais fácil, mas se você não encontrar o que estiver procurando, crie você mesmo o seu projeto. Não precisa de um monte de dinheiro pra que isso aconteça. Comece com algo bem pequeno e sua força de vontade será suficiente. Você é gay e está cansado de sofrer bullying (ou ver os amigos gays sofrerem bullying) nos intervalos das aulas sem que ninguém te defenda? Crie um grupo de defesa dos direitos dos homossexuais na sua escola/universidade. Você é vegano pelos animais e gostaria que mais pessoas se alimentassem com compaixão, mas não tem nenhum grupo de direitos animais na sua cidade? Organize uma mostra de filmes-documentários sobre o assunto e se disponha a responder as perguntas dos participantes.

-Mesmo se o seu sonho é fazer um trabalho humanitário no exterior, comece sendo voluntário na sua própria cidade. Assim você adquire experiência e vai ser mais fácil escolher um projeto mais tarde.

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grupo de mulheres

-Pros que estão planejando ser voluntários no exterior: não espere que as ONGs paguem seu transporte/hospedagem/alimentação. A maioria das pessoas acha que se você está disposto a doar seu tempo pra uma causa, é normal que a organização pague suas despesas. Mas a realidade é bem diferente. Geralmente ONGs funcionam com pouco dinheiro e as doações que elas recebem são usadas pra criar projetos pra população local. Durante os anos que trabalhei na ONG palestina do campo de Aida recebemos dezenas de voluntários estrangeiros. Se o pessoal da ONG tivesse pagado pelo transporte e outras despesas de cada um deles, todas as doações que eles recebiam teriam sido usadas pra sustentar os voluntários estrangeiros e nada do que eles criaram nesse período (grupo de ginástica pras mulheres, sala de informática pras crianças, biblioteca e sala de jogos) teria se realizado. Tirando raras exceções, se prepare pra pagar tudo do próprio bolso. Pagar pra ser voluntário pode parecer absurdo, mas na verdade seria injusto usar o dinheiro doado pra ajudar a melhorar a situação dos palestinos refugiados (por exemplo) pra realizar o SEU sonho de viajar e ser voluntário no exterior.

Com o tempo eu percebi que ser voluntário não significa doar (tempo/dinheiro/atenção) e sim fazer uma troca. Quem decide seguir esse caminho com um coração aberto, sem discriminação (ao avesso ou não), sem paternalismo e sem idealizar as pessoas acaba percebendo que nesse processo recebemos muito mais do que doamos.

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*As fotos que ilustram esse post mostram alguns dos projetos dos quais participei aqui na Palestina. Fotos 1, 2, 3, 4 e 5: oficinas de arte e brinquedos e aulas de ecologia pras crianças do campo de Aida. Foto 6: projeto sorriso, onde levei um grupo de vinte crianças (do campo) ao dentista e, com ajuda dos amigos, pude oferecer o tratamento que elas precisavam. Passei tanto tempo nesse consultório que o dentista se tornou o meu melhor amigo palestino. Fotos 7 e 8: na associação Ayat, que cuida de crianças e adultos especiais no Monte das Oliveiras, em Jerusalém. Uma vez por semana eu passava a noite na associação pra cuidar das crianças que dormiam lá. Fotos 9 e 10: com o grupo de mulheres (refugiadas, mães de crianças especiais) do meu projeto atual. Foto 11: festival de cinema pras crianças do campo de Aida. Nesse dia a gente viu “Tempos modernos”.