Sahar Vardi

Em uma conferência com objetores de consciência israelenses na cidade palestina de Beit Sahour (Sahar está no centro).

Depois de ter publicado a história de três amigos palestinos aqui no blog (vocês podem ler os relatos aqui, aqui e aqui), gostaria de escrever sobre uma amiga israelense. Durante minhas palestras e conversas sobre a Palestina escutei algumas vezes coisas do tipo “Ah, mas você escolheu ficar do lado dos Palestinos”, como se as informações que eu repasso fossem tendenciosas (sempre respondo que escolhi o meu lado, sim: os diretos humanos). Mas é por isso que hoje eu gostaria de dar a palavra a uma israelense. Sahar é uma das pessoas mais engajadas e interessantes que conheço e nessa entrevista ela fala sobre ativismo, a militarização da sociedade israelense (e suas consequências na população) e como ela imagina o futuro da região. Fiz essa entrevista ano passado e ela foi publicada originalmente na Revista Fórum de novembro.

Sahar Vardi tem 22 anos e estuda História e Educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, cidade onde nasceu. Ela cresceu em uma família, segundo sua própria descrição, judia sionista e hoje é uma das ativistas israelenses mais engajadas contra a ocupação militar na Palestina.

Aos 13 anos Sahar foi pela primeira vez aos territórios palestinos, acompanhada pelo pai. Durante a segunda intifada (2000-2002) o pai se tornou ativista, participando das ações realizadas pelo grupo israelense Ta’yush. Foi seu primeiro contato com palestinos. “Apesar de ser muito fácil visitar uma cidade palestina, é possível viver toda a sua vida em Israel e nunca encontrar um único palestino. Jerusalém é uma cidade mista, com mais de 36% de palestinos, mas aqui a segregação é total. Existem bairros exclusivamente judeus, escolas, ônibus… Não há interação entre palestinos e israelenses.” No vilarejo palestino de No’man ela participou de atividades com os habitantes, plantou oliveiras e ajudou a trocar a encanação de algumas casas. “A população de No’man é bastante instruída e todos falam Hebraico ou Inglês ou os dois, então foi fácil conversar com jovens da minha idade. A única diferença visível entre eu e aquelas pessoas era a cor da nossa carteira de identidade.” (Palestinos da Cisjordânia recebem identidades verdes) Nesse vilarejo Sahar viu o que a ocupação significa para o povo palestino. “A estrada que ligava o vilarejo à Jerusalém tinha sido fechada pelo exército israelense e o muro de separação construído por Israel isolou No’man dos outros vilarejos palestinos. Essa separação física estava ali para me convencer que não, nós não éramos iguais. A escola tinha me ensinado que a ocupação só existe por razões de segurança, para proteger os israelenses judeus, mas esse argumento desmoronou quanto entrei em contato com a população de No’aman.” Depois desse primeiro contato com pessoas “do outro lado do muro”, Sahar começou a participar de ações contra a ocupação israelense na Palestina, como as passeatas semanais contra a construção do muro e a confiscação de terras pelo governo israelense nos vilarejos de Al-Ma’sara e Bil’in.

Em Israel o serviço militar é obrigatório: três anos para os homens e dois anos para as mulheres. Mas ao completar 18 anos, Sahar se recusou a entrar para o exército. Junto com um pequeno grupo de jovens objetores de consciência, escreveu uma carta aberta ao Ministro da Defesa Israelense. O primeiro parágrafo dessa carta diz: “Nos recusamos a servir o exército em primeiro lugar e acima de tudo em sinal de protesto contra a política israelense de separação, controle, opressão e assassinato nos Territórios Palestinos Ocupados, pois acreditamos que oprimir, assassinar e semear o ódio não pode trazer paz ao mundo e que isso vai contra os valores fundamentais de uma sociedade que se diz democrática.” Junto com essa carta coletiva, Sahar escreveu uma mensagem pessoal onde dizia (extratos): “Em casa e na escola me ensinaram os direitos fundamentais, como justiça, liberdade e igualdade, mas muito cedo percebi que o país onde vivo nega esses direitos a milhões de pessoas para que eu possa desfrutar da ‘liberdade’ que ele me ensinou que todos merecem. Eu não posso ficar em um posto de controle e separar uma raça de outra, um tipo de carteira de identidade de outro, não posso bombardear cidades cheias de homens, mulheres e crianças, mesmo se isso for feito como parte de uma guerra, e não posso punir milhões de inocentes pelos crimes cometidos por alguns. É nossa obrigação como seres humanos não ferir os outros, é nossa obrigação recusar a participação de qualquer ação que possa prejudicar os outros, mesmo se estivermos seguindos ordens do nosso país. Eu me recuso a agir de maneira violenta, sob ordens ou não.”

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Sendo presa por soldados israelenses durante uma manifestação nos Territórios Palestinos Ocupados.

 A resposta do governo israelense aos jovens que recusam o exército é a prisão. Sahar ficou dois meses na cadeia e três meses em um centro de detenção. Depois de ser liberada, Sahar continuou suas atividades de ativista, mas começou a trabalhar de maneira mais ativa em Jerusalém. Ela trabalhou alguns anos no ICAHD (Comitê Israelense Contra Demolições de Casas), onde coordenava projetos de reconstrução de casas palestinas demolidas pelo governo israelense e organizava tours políticos em sua cidade natal. Hoje ela faz parte de uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense e propõe alternativas às pessoas que não querem servir o exército, oferecendo bolsas de estudos e programas de voluntariado no exterior. O sistema universitário em Israel é determinado pelo trabalho feito no exército, de modo que pessoas que não fazem o serviço militar não podem obter bolsas de estudos e, se um projeto de lei for aprovado, não poderão fazer certos cursos, como medicina e direito. Sahar explica que “embora essas leis se apliquem aos objetores de consciência, elas foram criadas para punir os árabes-israelenses, que não fazem o serviço militar”.  Paralelo aos estudos e ao trabalho, ela ainda participa regularmente de ações de solidariedade com o povo palestino e manifestações contra a ocupação.

Tive a sorte de escutar Sahar em duas conferencias, a primeira logo depois que ela foi liberada da prisão, a segunda alguns meses atrás, e acompanho com admiração o seu trabalho. Encontrei Sahar em uma tarde de junho, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela tinha acabado de chegar de uma conferência na Grécia e já estava se preparando para a próxima viagem, à Alemanha, onde participaria de uma conferência sobre a militarização da juventude no mundo. Entre duas aulas, ela gentilmente se dispôs a responder algumas perguntas e conversar sobre sua vida e seu trabalho.

Você se define como “uma ativista de Jerusalém”. Quanto da sua vida foi modelado pelo ativismo?

Minha adolescência e minha vida adulta foram definidas em função do meu ativismo. Ele influencia o tipo de trabalho que faço, o que eu leio, o que eu como, o curso que escolhi na faculdade, as pessoas com quem decido conviver… Tudo na minha vida é influenciado pelo ativismo.

Qual foi a reação de sua família quando você se recusou a fazer o serviço militar?

Minha família não se surpreendeu, eles já imaginavam que eu faria isso. Aqui é relativamente fácil evitar o serviço militar obrigatório e eu poderia ter usados várias desculpas para não servir o exército. Por exemplo, 12% da população evita o serviço militar alegando motivos de saúde mental e há poucas chances que esse pessoal todo seja louco. Mas para mim era importante enviar uma mensagem ao meu governo, manifestar publicamente minha desaprovação. Em Israel não existe a opção de recusar de servir o exército. Ao completar 18 anos todo israelense se torna automaticamente soldado, independente da vontade de cada um. Então você, que é considerado um soldado, vai para a prisão não por ter se recusado à servir o exército, mas por ter desobedecido à ordem do seu comandante de ir para a sua base militar. Depois desses cinco meses de prisão e detenção, acabei sendo liberada por motivos de saúde mental, já que não é possível sair desse sistema alegando motivos políticos. Então eu sou oficialmente louca. Mas durante todo esse processo pude contar com o apoio da minha família, que também apoiou a decisão do meu irmão de fazer o serviço militar. Hoje ele segue carreira no exército, mas sempre se recusou a combater nos territórios palestinos. Fomos expostos à mesma realidade, mas seguimos caminhos diferentes e minha família respeita as minhas razões e as dele.

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Você trabalha atualmente em uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense. Como acontece e quando começa o processo de militarização no seu país?

A militarização da sociedade começa muito cedo, na escola.  Nossos livros nos ensinam a contar ligando imagens de tanques, aviões de caça etc, aos números correspondentes.  Nas datas comemorativas os alunos enviam presentes para os soldados. Durante toda a nossa educação aprendemos que segurança justifica todo e qualquer ato e que o exército, e a ocupação nos Territórios Palestinos, é a única maneira de manter um lar para o povo judeu. Tudo é uma grande preparação para o exército, principalmente quando os alunos se aproximam da idade de fazer o serviço militar. Lições de História sobre a perseguição sofrida por judeus, os combates para obter o nosso país… Esse doutrinamento aplicado à população pode ser visto de maneira explícita todos os anos nas semanas entre abril e maio. Começa com Pesach, a páscoa judaica (comemoração da liberação do povo hebreu do Egito, travessia do mar vermelho e chegada à terra prometida), depois vem o dia da memória do holocausto, seguido do dia da memória dos soldados e, no dia seguinte, o dia da independência de Israel. A mensagem é muito clara: os judeus sofreram e foram perseguidos durante toda a História, o Holocausto é um bom exemplo disso, muitas pessoas lutaram e perderam a vida pra que hoje os judeus tivessem um país e é nossa obrigação seguir lutando se quisermos continuar vivendo aqui. O medo é um elemento importante no processo de militarização da sociedade e faz parte do sistema educacional israelense, cujo objetivo principal é formar bons soldados.

Quais são as consequências internas dessa militarização da sociedade?

Quando uma sociedade inteira passa por um sistema militar onde a única maneira de resolver problemas é através da violência, você cria uma sociedade muito violenta. Quando todos os jovens de 18 anos passam por um sistema que é por definição patriarcal e sexista, com estereótipos muito claros sobre o papel da mulher e do homem no exército, isso acaba se reproduzindo na nossa vida civil. Ao entrar no exército cada soldado homem recebe um cartão postal com a foto de um soldado sentado em cima de um tanque, o canhão estrategicamente posicionado entre suas pernas, com a seguinte frase: “Muitas coisas são duras no exército”. O cartão vem acompanhado de uma camisinha, caso a mensagem não tenha sido clara o suficiente. Nos ensinam que o serviço militar é uma parte indispensável da vida de todo israelense e se é assim que homens devem tratar as mulheres no exército, por extensão é assim que elas devem ser tratadas na sociedade.

Você faz parte do pequeno grupo de ativistas israelenses cujo trabalho e posições políticas vão contra a opinião da maior parte da população. Qual é a sua relação com o israelense médio?

Depende da situação. Se sou confrontada com pessoas cujas opiniões são extremamente diferentes das minhas, o que acontece o tempo todo, procuro manter a calma e ser paciente. Houve uma época em que um extremista sionista descobriu o meu número e me ligava constantemente dizendo montanhas de insultos. Eu sempre escutava e tentava responder educadamente, com argumentos racionais. Depois de algumas semanas ele acabou se acalmando e tivemos algumas conversas interessantes. Não sei se ele mudou de opinião, mas pelo menos ele escutou, talvez pela primeira vez na vida, uma opinião diferente. Alguns dos meus amigos de infância cresceram em colônias ilegais na Cisjordânia e ainda tenho contato com eles. Já aconteceu de encontrar colegas da escola durante uma manifestação na Cisjordânia, eu ao lado dos palestinos e eles em uniforme de soldado. Nessas ocasiões o diálogo é limitado, geralmente um olha para o outro e diz: “Então é isso que você está fazendo agora…”

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Logo após ter sido ferida por um soldado israelense durante uma manifestação na cidade palestina de Hebron.

Qual o papel dos ativistas israelenses na luta contra a ocupação militar nos Territórios Palestinos? O que você acha do conceito de “co-resistência”, segundo o qual israelenses lutam contra a ocupação ao lado dos palestinos?

Como israelense, é minha obrigação denunciar os crimes cometidos pelo meu governo e tentar fazer com que isso cesse. São meus impostos que financiam o exército, foi o meu voto que elegeu esse governo e é meu dever lutar por uma sociedade mais justa.  Nas ações contra a ocupação na Cisjordânia, a presença de ativistas israelenses contem um pouco a reação dos soldados, que seria muito mais violenta se houvesse somente palestinos ali. O fato de falar Hebraico também ajuda a acalmar um pouco os soldados. Durante essas ações, ativistas israelenses também podem tentar impedir que palestinos sejam presos. Se formos presos durante uma ação as consequências para nós serão mínimas (Israelenses presos durante ações contra a ocupação são liberados algumas horas depois, enquanto um palestino preso nas mesmas circunstancias pode ficar anos na cadeia). Claro que um ativista palestino e um ativista israelense não correm os mesmos riscos nem sofrem o mesmo tipo de repressão, mas co-resistência para mim não significa que estamos lutamos da mesma maneira, no mesmo nível. Mesmo entre israelenses a resistência é diferente: como mulher eu apanharei menos do que um ativista homem durante uma ação, mas ele será levado mais a sério do que eu. Mas são exatamente essas diferenças que nos permitem de agir de maneiras variadas, em vários setores. Porém co-resistir hoje é complicado devido à falta de visão comum entre os ativistas israelenses. Há muitas divergências de opiniões entre nós. Existe uma diferença clara entre gerações também. Os ativistas mais velhos, por exemplo, ainda servem o exército (Depois do serviço militar obrigatório, todo israelense deve servir o exército um mês por ano até a idade de 45 anos). Se Israel e Palestina fossem um único país haveria uma unidade na luta por justiça e a co-resistência seria mais fácil.

Que tipos de ações você se recusa a participar, por divergências de opinião com os organizadores ou por não concordar com os métodos empregados, por exemplo?

Ações que usem violência. Tenho minhas prioridades, mas se eu concordar com o objetivo da ação, participo mesmo sabendo que alguns dos participantes têm opiniões políticas diferentes das minhas. Apesar das divergências, se sinto que estamos trabalhando por um objetivo comum, não vejo problema em participar.

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Você vê o J14 com otimismo ou ceticismo? (No dia 14 de Junho de 2011 uma israelense de Tel Aviv colocou uma tenda no centro da cidade para protestar contra o preço elevado da moradia no país. Outros israelenses se juntaram a ela e esse foi o início de uma série de manifestações pedindo justiça social e uma melhor distribuição de riquezas. O movimento ficou conhecido como J14, ou Movimento por Justiça Social, e continua ativo.)

Sou otimista nesse sentido: enquanto o pessimista diz que a situação não pode piorar, o otimista diz: “Sim, sim, ela pode piorar!”. (Risos) Acho que as pessoas envolvidas nesse movimento têm boas intenções, mas eles pecam por quererem ser sempre “os bonzinhos”. O Movimento por Justiça Social quer agradar a todos, quer ser “mainstream”, mas é impossível fazer uma real mudança na sociedade sem irritar uma parte dela. Mas o movimento teve alguns efeitos positivos nas pessoas. Durante as manifestações muitos participantes foram presos e pela primeira vez na vida eles sentiram na pele a injustiça e a repressão da qual o nosso governo é capaz. Nesse sentido eles puderam se identificar com os palestinos e isso é muito importante. Então eu tenho esperanças, sim.

Como você imagina o futuro post ocupação? Um estado ou dois?

Definitivamente um estado. Sonho com um país formado por três federações: uma judia, uma árabe e uma para quem preferir não ser identificado nem como judeu nem como árabe. As pessoas precisam sentir que o fato de fundir Israel e Palestina em um único país não mudará a vida delas e que a diversidade cultural será preservada. Então esse país terá autonomia cultural, mas as leis serão as mesmas para todos. Como o que aconteceu na África do Sul depois do fim do apartheid. Um só país, para mim, não significa que os habitantes serão forçados a se homogeneizar nem a mudar o local de suas residências. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma intenção de deixar Jerusalém e ir morar em Ramala (capital cultural e administrativa da Cisjordânia) com a minha namorada.  Não gostaria de viver dentro da sociedade palestina. Um estado com três federações daria essa opção à população, cada cidadão seria livre para escolher viver na federação com a qual tem mais afinidades, com a garantia de ser protegido pelas mesmas leis e usufruir dos mesmos direitos.

*Todas as fotos que aparecem aqui foram feitas por Anne Paq.

creme voluptuoso de chocolate e laranja

Ano passado criei uma receita que mudou a minha vida pra sempre. Como ela tem um ingrediente inusitado, gostaria de poder servi-la pra vocês primeiro e só depois dizer o que tem dentro (é assim que faço quando sirvo essa receita pra convidados aqui em casa). Mas vocês podem admirar as fotos. Parece cremoso, voluptuoso e delicioso, não é?  Podem ter certeza que esse creme é tudo isso e muito mais!

O segredo dessa maravilha? Abacate! Eu tinha visto essa fruta em algumas receitas de sobremesas cruas antes, mas confesso que pensei que o resultado não seria nada de espetacular e por isso levei alguns anos pra testar em casa. Como eu estava enganada! A ideia de usar abacate como base de um creme doce é simplesmente brilhante! Ele substitui o creme de leite, a manteiga e o ovo aqui, dando cremosidade, corpo e textura pra esse tipo de receita. Além, claro, de vir com muitas vantagens nutricionais.

Mas e o gosto? Se você também está pensando que uma sobremesa à base de abacate deve ser estranha, preste muita atenção no que vou dizer agora. Abacate tem um sabor relativamente neutro e se combinado com ingredientes de sabor marcante, como cacau, laranja e baunilha, ele fica discreto ao ponto de se tornar imperceptível. O resultado final é absolutamente delicioso e tem zero (ZERO!) gosto de abacate. Eu já servi essa receita dezenas de vezes, pra amigos veganos e onívoros (acostumados a comer sobremesas tradicionais cheias de laticínios e açúcar), e todos, absolutamente todos, adoraram e quase caíram da cadeira quando eu disse que tinha abacate. Se você não contar que tem abacate, ninguém nunca vai adivinhar. E a textura? Extremamente cremosa e densa. Na verdade eu descreveria a textura dessa sobremesa como o cruzamento de um brigadeiro com um mousse de chocolate. Só que muito, muito mais gostoso.

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Eu parti da receita básica que encontrei em algum site que desapareceu da minha memória (abacate+cacau+xarope de agave) e fui adaptando, adicionando ingredientes, retirando outros, até ficar do jeitinho que eu queria. Uma das minhas combinações preferidas é chocolate com laranja e embora eu já tenha testado versões desse creme com café ou só com cacau e baunilha, a versão com laranja continua sendo a minha preferida. Eu acho que as raspas de laranja são as responsáveis pela mágica do desaparecimento total do gosto de abacate, por isso não aconselho fazer sem. Caso você não goste de chocolate com laranja espere um pouco que estou aprimorando a versão com café (talvez outras ideias apareçam pelo caminho).

Eu poderia continuar a campanha “eleja esse creme como a sobremesa do ano” dizendo que ele é rico em fibra e proteína (se você fizer 8 porções pequenas, como indico na receita, cada uma terá pelo menos 4,2g de fibras e 1,8g de proteína, o que pra mim compensa e muito a quantidade de açúcar das tâmaras), além de ter somente gorduras boas (aquelas que protegem o coração e deixam a pele linda) e zero colesterol. Mas, sinceramente, sobremesa será sempre sobremesa pra mim (por mais ‘saudável’ que seja) e eu como esse creme por um único motivo: porque é loucamente gostoso!

Eu elegi essa receita a sobremesa do ano de 2012 e com certeza ela faz parte do meu top 5 das melhores sobremesas de todos os tempos (veganas ou não, saudáveis ou não). Se mesmo depois de ter lido esse post você ainda pensar que uma sobremesa totalmente vegetal (sem creme, leite, manteiga nem ovos), sem açúcar e à base de abacate deve ser o extremo oposto, em matéria de sabor, das sobremesas tradicionais (feitas com laticínios e açúcar) que fazem os clientes salivarem nos restaurantes e casa de doces, então aqui vai mais um argumento.

A maioria das sobremesas saudáveis têm gosto de… saudáveis, não é? Juro que essa receita não faz parte dessa categoria. Quando você colocar esse creme-delícia na boca e sentir a gostosura escorregando garganta abaixo você só vai conseguir pensar em uma coisa: “Como conseguiu viver tanto tempo sem ele?”. Depois pode me enviar flores que eu aceito.

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Creme voluptuoso de chocolate e laranja (vegano, sem açúcar)

Três fatores determinam o sucesso dessa receita: a qualidade do abacate, do cacau e das tâmaras. O cacau deve ser excelente (puro, intenso e saboroso), o abacate deve estar maduro no ponto (nem meio verde nem maduro demais) e as tâmaras devem ser extra macias (do tipo medjool, que se desfazem quando espremidas entre os dedos). Se suas tâmaras estiverem meio ressecadas deixe-as de molho em água quente (só o suficiente pra cobri-las) por pelo menos meia hora antes de fazer a receita. Em seguida use essa água na receita (substituindo o leite de amêndoas). Outro detalhe importante: assim que fica pronto o creme conserva uns resquícios do sabor do abacate, por isso é essencial deixa-lo descansar na geladeira por 12 horas antes de servir. Depois do repouso no frio, o abacate desaparece completamente e só fica o chocolate com notas de laranja. E lembre de só dizer que essa receita é à base de abacate depois que os seus convidados terminarem a degustação (as pessoas percebem os gostos de acordo com as expectativas que têm e se elas acharem que a sobremesa é ruim –antes mesmo de provar- as chances dela ser ruim são grandes). Depois é só rir da cara de espanto que eles vão fazer.

1x de abacate maduro (amasse ligeiramente e compacte um pouco na hora de medir)

8 tâmaras, ou a gosto (veja conselhos acima)

Suco de 1 laranja grande (aproximadamente 1/2x)

1 1/2cc de raspas de laranja

3cs de cacau de ótima qualidade (puro, sem açúcar)

1cc de extrato natural de baunilha (ou as sementes de 1/2 favo)

1cs (rasa) de tahina (opcional, mas recomendado)

Uma pitada de sal

1/2x de leite de amêndoas (ou água ou suco de laranja)

-Triture todos os ingredientes no liquidificador até ficar cremoso e homogêneo. Você vai precisar parar o motor algumas vezes e mexer com uma colher pra facilitar o trabalho. Seja paciente e triture até não sobrar nenhum pedacinho de tâmara inteiro. Se sentir que o creme está muito espesso, junte mais um pouquinho de líquido (leite de amêndoas, suco de laranja ou água), mas cuidado pra não deixar a mistura muito líquida (mas saiba que ela vai engrossar um pouco depois de gelada).

-Prove e adicione mais tâmaras se achar necessário (com 8 tâmaras você obtém um creme meio-amargo, o equivalente a um bom chocolate com 60% de cacau). Nesse estágio talvez você ainda sinta um gostinho de abacate lá por trás, mas confie em mim: depois de uma noite na geladeira ele vai desaparecer completamente.

-Transfira o creme pros recipientes em que planejar servir (copinhos, xícaras ou taças), lembrando de fazer porções pequenas (essa sobremesa é intensa e rica e você não vai precisar de muito pra ficar satisfeito(a)). Cubra as porções com um pedaço de papel alumínio ou filme plástico e deixe descansar uma noite (12 horas) na geladeira antes de servir. Rende 8 porções se você usar copinhos do tamanho dos meus (com capacidade pra 100ml).

*Na hora de calcular a quantidade de proteína e fibra dessa receita só levei em consideração a informação nutricional do cacau, abacate, tâmara e tahina, logo esses valores são ligeiramente superiores quando contabilizamos os outros ingredientes. A receita inteira tem 33,8g de fibras (14,8g do cacau, 15g do abacate, 13g das tâmaras e 1g da tahina) e 14,5g de proteína (2,5g do cacau, 5g do abacate, 4g das tâmaras e 3g da tahina).

crumpets

Se você, assim como eu, usa fermento natural (levain) pra fazer o seu pão, provavelmente já se perguntou se não tinha uma maneira de resolver o problema do desperdício cada vez que ele é alimentado. Pequena explicação pra quem nunca cuidou de um fermento natural: é preciso alimenta-lo todos os dias (com água e farinha), mas pra não acabar com uma quantidade gigantesca de fermento (depois de cada ‘refeição’ ele dobra de tamanho) precisamos antes descartar metade do fermento. Funciona assim: toda as noites jogo metade do meu fermento fora, depois junto água e farinha à metade que ficou no potinho, misturo bem e deixo descansar. No dia seguinte ele dobrou de tamanho e preciso jogar metade fora novamente antes de alimenta-lo mais uma vez. E por aí vai…

Conheçam Jihad, meu fermento natural

Fermento natural.

 Os ingleses fazem umas panquequinhas muito simpáticas chamadas “crumpets”. Eles gostam de comer os tais dos crumpets com manteiga e geleia no chá das cinco. Uns dois anos atrás achei uma receita de crumpet (nesse site que adoro) que usava justamente sobras de fermento natural. Resolvi experimentar e adorei o resultado. Além de diminuir o desperdício na minha cozinha, esses crumpets são deliciosos e lembram muito os blinis que eu comia quando morava em Paris. Blinis são panquequinhas fermentadas típicas da Europa do Leste, mas que hoje são consumidas em vários lugares do mundo. Eu sempre comprava uns blinis de supermercado quando era estudante em Paris e fiquei muito feliz em achar algo tão parecido.

Se você usa fermento natural tenho certeza que vai adorar ter uma receita que recicla as sobras do seu “levain”. E se você não tem um potinho de fermento natural amadurecendo na cozinha, esses crumpets são tão saborosos que talvez você deva começar a pensar em adotar um…

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Crumpets

Ao invés de jogar fora metade do seu fermento natural quando for alimenta-lo, guarde em um recipiente fechado na geladeira. Quando você tiver juntado o equivalente à uma xícara de fermento natural, experimente essa receita. O fermento pode ter ficado algumas semanas na geladeira antes de se transformar em crumpets. Essa receita é ótima pra servir em festas, junto com o aperitivo ou na hora do lanche.

Update: Fiz essa receita usando melado no lugar do açúcar e ficou perfeito. A partir de agora vou fazer sempre assim.

1x de fermento natural (leia instruções acima)

1cc (rasa) de açúcar ou 1cc de melado

1/2cc (rasa) de sal

1/2cc de bicarbonato de sódio

Azeite

Em um recipiente grande misture o fermento natural com o melado (ou açúcar) e o sal. Aqueça uma frigideira e espalhe um pouco de azeite em toda a superfície. Quando a frigideira estiver bem quente, junte o bicarbonato de sódio ao fermente e misture rapidamente. O bicarbonato vai reagir com o fermento, inchar e adquirir uma consistência parecida com espuma (por isso você deve misturar a massa em um recipiente grande). Espalhe colheradas de massa sobre a frigideira (1cs pra cada crumpet) e cozinhe em fogo baixo até ficar dourado e se despregar facilmente. Vire os crumpets e deixe dourar do outro lado. Repita a operação até acabar a massa. Você pode servir imediatamente ou guardar os crumpets frios na geladeira e requentar (alguns minutos no forno ou na torradeira) antes de servir. Gosto de servir meus crumpets vários tipos de pastas e patês, como hummus, queijo de castanha fermentado ou patê de tofu e cebola caramelizada.

geleia morango chia

Esse mês pretendo tratar da questão do açúcar na alimentação, mas antes de dividir com vocês todas as informações que juntei nos últimos anos (preparem-se que o negócio é pesado), achei que seria interessante publicar uma ou outra receita doce sem açúcar por aqui.

Faz tempo que o açúcar não faz mais parte da minha alimentação, mas mesmo depois de ter parado de consumi-lo, criei algumas sobremesas com açúcar pra agradar amigos e familiares. E, claro, pra agradar vocês, queridos leitores. Durante muito tempo fiquei com medo de banir de vez o açúcar aqui do blog e provocar reações negativas entre vocês. Já fui chamada de ‘radical’, ‘extremista’ e até ‘xiita’ por causa dos meus hábitos alimentares, que alguns consideram inutilmente excessivos. Mas quando publiquei algumas receitas sem açúcar a reação de vocês foi exatamente o oposto e muita gente me escreveu agradecendo. Descobri que alguns dos meus leitores também cortaram, ou estão tentando cortar, o açúcar do seu dia-a-dia, então hoje me sinto à vontade pra fazer esse anúncio: de agora em diante o açúcar virou persona non grata (eu deveria dizer ‘ingrediente non grato’?) nesse blog e não aparecerá mais no Papacapim (tirando, talvez, alguma rara exceção).

O que nos leva à receita de hoje. Eu gostaria de dizer que a ideia de fazer geleia de frutas crua com chia saiu da minha cabeça, mas a verdade é que vi algo parecido em um blog canadense e imediatamente dei aquele tapão na testa que significa ‘por que não pensei nisso antes?’. Que ideia de gênio! Mas eu queria ver se deixava a receita ainda mais nutritiva e comecei a fazer modificações. Amigo(a)s, consegui transformar uma das coisas menos saudáveis que existe (geleia é praticamente só açúcar!) em algo rico em fibras (morango+passas+chia), sem um grama de açúcar (só o açúcar natural da fruta está presente aqui), rico em ferro (das passas) e em ômega 3 (da chia)! Se vocês estivessem aqui quando coloquei a primeira colherada de geleia na boca teriam me visto pinotando na cozinha…

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Embora eu esteja eufórica (como quando criei os famosos omeletes veganos), preciso avisar que essa geleia não é exatamente como as geleias tradicionais. Embora eu tenha incluído uma foto da minha geleia espalhada em um pedaço de pão nesse post, era só pra mostrar a textura, pois acho que ela não é doce o suficiente pra ser comida assim. Mas as possibilidades são inúmeras. Desde que fiz essa receita degustei minha geleia em uma vitamina de banana (misturei uma banana, leite de amêndoa e uma colher de sopa de geleia de morango e além da vitamina ter ficado deliciosa, a cor ficou linda), misturada na minha papa de aveia matinal (acrescentei uma colher de sopa por porção à papa pronta) e pura, quando bate aquela vontade de comer algo doce depois das refeições. Mas imagino que ela ficaria perfeita como recheio de bolos e tortas, ou misturada à sobremesas com chocolate. Na próxima vez que fizer esse pavê trufado de chocolate usarei essa geleia substituindo os morangos macerados com açúcar. ‘Deliciosa’, ‘nutritiva’ e ‘versátil’ são os adjetivos que mais valorizo quando se trata de receitas e essa geleia reúne os três.

Vou aproveitar que a feira está inundada de morangos (a primavera sempre chega mais cedo por aqui) e durantes as próximas semanas não vai faltar geleia na minha geladeira!

(Se você estiver procurando uma geleia mais tradicional, mas igualmente sem açúcar, veja minha receita de geleia natural de ameixa.)

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Geleia natural de morango e chia (sem açúcar, crua)

Essa receita é adoçada com passas então a quantidade utilizada vai depender da doçura dos seus morangos e da sua afinidade com doce. Meus morangos estavam bem doces e só precisei de 1/2x de passas, mas se os seus estiverem azedos (ou se você preferir uma geleia mais doce) você vai precisar de uma quantidade maior. Eu gosto de combinar morango com raspas de limão, pois acho que uma pontinha de acidez realça o sabor, mas baunilha fica ainda melhor com essa frutinha.

400g de morangos maduros

Entre 1/2x e 1x de passas

1cc de suco de limão

2cs de sementes de chia

1cc de extrato natural de baunilha (ou as sementes de 1 favo de baunilha) OU 1/3cc de raspas de limão (opcional)

Lave os morangos, retire os cabinhos e corte em pedaços miúdos. Coloque metade dos morangos picados no liquidificador junto com as passas (a quantidade vai depender da doçura dos seus morangos) e triture até virar um purê. Desligue o motor algumas vezes e mexa com uma colher pra facilitar o processo, mas não acrescente água. Prove e se achar que não está doce o suficiente junte mais um pouco de passas e volte a triturar. Despeje o purê de morango e passas sobre o resto dos morangos picados, junte o suco de limão, as raspas de limão ou a baunilha, se estiver usando, e a chia. Misture bem. Deixe a chia hidratar 15 minutos (mexa a cada 5 minutos) antes de degustar. Se conserva na geladeira por alguns dias (a geleia vai ficar mais espessa depois de descansar umas horas na geladeira). Rende aproximadamente 2x.

sanduiche omelete veg

Eu fico feliz em saber que minha euforia contagiou muita gente e meu omelete vegano de grão de bico apareceu em muitas mesas. Ele continua fazendo muito sucesso aqui em casa e acabo de criar uma nova versão com linhaça no lugar da farinha de aveia. Eu queria que o omelete ficasse completamente sem glúten e a linhaça não só resolveu o problema como deixou a receita ainda mais nutritiva. Agora meu omelete é vegano, cheio de proteína e fibra, sem glúten e fonte de ômega 3!

E tem mais! Descobri que esse omelete fica uma maravilha como recheio de sanduíche. Como ele é um pouco seco, é importante passar uma pasta cremosa no pão ou incluir ingredientes suculentos, como o que fiz aqui. Mais um sanduíche vegano delicioso pra minha lista!

Omelete vegano de grão de bico (versão melhorada, sem glúten)

Faça tudo igual à receita original, mas substitua a farinha de aveia por 2 1/2cs de linhaça moída. Eu descobri dois truques simples pra impedir os omeletes de se quebrarem na hora de virar. Primeiro: coloque um pouco menos de massa, pra que o fundo da frigideira não fique totalmente coberto (deixe uma borda livre de aproximadamente 2cm ao redor do omelete). Assim você terá espaço pra inserir a espátula na hora de virar, sem machucar a parte exterior do omelete. Segundo: despeje a massa quando a frigideira estiver bem quente, espalhe e deixe cozinhar os primeiros 20-30 segundos em fogo alto (em seguida diminua o fogo). Fazendo isso o omelete vai criar imediatamente uma casquinha crocante, mais resistente, e se manterá intacto na hora de virar.

Sanduíche de omelete com pimentão assado e abacate (vegano)

Esse sanduíche é bom frio ou quente. Se quiser uma versão quente, não toste o pão antes de montar o sanduíche e coloque o sanduíche pronto em uma máquina de panini ou uma chapa quente por alguns instantes.

Omelete vegano de grão de bico (versão com aveia ou linhaça) Pra fazer o sanduíche da foto juntei também um pouquinho de tomate picado à massa do omelete. Outra dica: substitua a salsinha por coentro (fica melhor com abacate).

Pimentão assado (veja como assar pimentão nesse post), em tiras

Abacate, em fatias

Sal, pimenta do reino, suco de limão e azeite

Pão em fatias (usei um pão semi-integral com sementes)

Regue o abacate fatiado com bastante suco de limão, sal (seja generoso(a), pois abacate precisa de uma boa dose de sal pra brilhar) e pimenta do reino. Toste levemente o pão. Espalhe o abacate sobre uma fatia de pão, cubra com duas camadas de omelete (corte pedaços proporcionais ao tamanho do pão) e disponha tiras de pimentão assado por cima. Tempere com sal e pimenta do reino. Regue a segunda fatia de pão com azeite e feche o sanduíche (a parte com azeite deve ficar em contato com o recheio). Deguste imediatamente.