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abobrinha

Abobrinha está longe de ser o meu legume preferido. Na verdade é um dos que menos gosto. Acho o sabor sem graça e por ser um legume que tem muita água (o que faz com que o sabor seja tão suave) a textura depois de cozida quase nunca me agrada. Mas existem maneiras de se livrar de uma parte da água e concentrar o sabor da abobrinha. A minha preferida é corta-la me fatias finas, regar com sal e azeite e assar no forno médio-alto até ficar ligeiramente caramelizada.

abobrinha

Também gosto de dourar as fatias na frigideira (com um pouco de azeite, sem nunca acrescentar água (abobrinha já tem água suficiente) pra não diluir o sabor e manter uma textura mais firme.

Ontem almocei com uma amiga em Jerusalém e ela preparou abobrinha de uma maneira inédita pra mim: com leite de coco. Nunca tinha me ocorrido misturar esse legume, que geralmente associo com a culinária italiana e palestina, com leite de coco, que uso nos pratos brasileiros e asiáticos. Mas a minha amiga cozinha muito bem e pelo jeito é chegada numa fusion food. No início achei a mistura ousada, mas depois de provar me apaixonei pelo prato. Como além de inusitada e deliciosa essa receita é facílima, eu precisava dividi-la com vocês.

abobrinha com leite de coco

Abobrinha com leite de coco

Adaptei ligeiramente a receita da minha amiga: juntei coentro e um pouquinho de limão, porque acho que eles são o complemento ideal pro leite de coco, e juntei uma pitada de pimenta calabresa pra deixar a mistura mais quente. Claro que vocês podem fazer sem a pimenta (tem quem não goste de ardor) e sem o coentro (por mais estranho que isso possa parecer pra mim, tem um pessoal que detesta essa erva).

600g de abobrinha (do tipo italiana), cortada em meias-luas finas

1 cebola grande, picada

4-6 dentes de alho, picados/ralados

3x de leite de coco

1cs de azeite

Sal, pimenta calabresa, pimenta do reino e noz-moscada

Suco de limão e um punhado de coentro

Aqueça o azeite em uma frigideira grande e funda e doure a cebola. Junte o alho, cozinhe mais 30 segundos e acrescente a abobrinha. Deixe cozinhar em fogo médio-alto durante alguns minutos, mexendo de vez em quando (fique de olho pra não deixar queimar). Quando uma parte da abobrinha estiver bem dourada junte o leite de coco e os temperos. Usei uma pitada generosa de noz-moscada, pimenta do reino e calabresa, mas tempere de acordo com o seu gosto. Deixe cozinhar mais alguns minutos, até uma parte do leite de coco evaporar e a abobrinha ficar bem macia. Desligue o fogo e junte um pouco de suco de limão (usei 1cs) e um punhado de coentro picado. Prove e corrija o sal, se necessário. Rende 4 porções como acompanhamento.

*Algumas sugestões pra servir: acho que essa abobrinha deve ficar arretada no recheio do meu omelete de grão de bico, mas também fica ótima servida com arroz (melhor se for basmati ou tai). Minha amiga serviu a abobrinha acompanhando gnocchi (eu disse que ela era chegada em misturar culinárias diferentes) e ficou supimpa.

Mais algumas receitas de pratos com abobrinha:

 antipasto beringela abobrinha copie

 Antipasto de abobrinha (e beringela, com alho e hortelã)

Espaguete com abobrinha grelhada e espinafre

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

 Espaguete de abobrinha com pesto de tomate

Espaguete de abobrinha com pesto de tomate (receita crua e sem glúten)

E antes de me despedir, agradeço a todos que deixaram comentários no meu último post. Adorei receber os parabéns de vocês e espero poder comemorar muitos outros aniversários do blog. E o azeite de Tawfic está a caminho, Ju.

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Graças ao amor incondicional que Anne tem por macarrão, pude criar infinitas receitas de massas. Já que sou obrigada a comer macarrão pelo menos uma vez por semana, procuro criar pratos que me agradem, acrescentando sempre uma dose generosa de legumes. O bom de comer algo que não gosto muito é que sou extremamente exigente com essas receitas e acabei me tornando uma expert em macarrão, o que nem de longe eu sonhava em ser antes de Anne entrar na minha vida. Sabe como é, quando a gente adora um tipo de comida qualquer versão dela (bem preparada ou não) agrada. Eu sou louca por sopa e, independente do que coloco na panela, dificilmente acho o resultado final ruim. Sopa pra mim é uma delícia de qualquer jeito. Já macarrão, que raramente sinto vontade de comer, precisa ser muito, muito bom pra me empolgar.

Pensando nisso resolvi dividir com vocês algumas dicas pra preparar macarrão capaz de empolgar até quem torce o nariz pra ele. Sei que todo mundo sabe como cozinhar esse cereal e ele é um dos primeiros pratos que aprendemos a preparar (em alguns casos, o único). Mas vi tanto macarrão sendo massacrado por aí que achei que algumas dicas seriam mais que úteis. Lá vai:

-Os italianos costumam dizer que fora da Itália cozinhamos o macarrão demais e salgamos a água do cozimento de menos. Pra cozinhar o macarrão nas regras da arte, leve uma grande quantidade de água ao fogo e quando começar a ferver junte uma dose generosa de sal (se você acrescentar o sal no início, a água demorará mais pra ferver). O que significa “uma dose generosa de sal”? Na Itália é costume dizer que a água onde cozinhamos o macarrão deve ser tão salgada quanto o mar Mediterrâneo. Nunca deixo minha água tão salgada quanto o mar, pois tenho pena de estruir tanto sal (afinal aquela água toda vai embora pela pia depois que escorremos o macarrão), mas chego perto. Prove um pouco da água e se não estiver quase tão salgada quanto o mar, junte mais sal.

– Cozinhe o macarrão al dente. Isso significa que ele deve ficar macio, mas ainda ligeiramente firme. Não precisa ter medo de comer macarrão cru no jantar. Durante o processo de escorrer a massa, misturar com o molho (que também deve estar quente) e servir, ela continua cozinhando e quando você começar a comer estará perfeitamente cozida. Pode confiar. Se, ao contrário, você esperar o macarrão cozinhar totalmente antes de escorrer, ele vai acabar passando do ponto. E nada menos apetitoso do que papa de macarrão.

– Antes de escorrer a massa, retire uma xícara da água do cozimento e reserve. Essa água, rica em amido, ajuda o molho a “colar” na massa e também serve pra afinar um molho que ficou espesso demais. Nem sempre uso a água reservada, mas às vezes ela é extremamente útil (principalmente quando uso molhos à base de creme).

– Outra regra de ouro: sempre prepare o molho antes de cozinhar o macarrão. O molho pode esperar (e ser requentado sem problemas), já o macarrão, não. A exceção aqui é macarrão ao alho e óleo, já que o molho fica pronto em segundos e não pode ser requentado.

– A única maneira de fazer com que sua massa não grude é escorrer o macarrão e misturá-lo imediatamente ao molho. Mais uma razão pra fazer o molho antes de cozinhar a massa. Esqueça essa história de colocar óleo na água do cozimento e nem pense em “enxaguar” seu macarrão depois de cozido (além de esfriar o macarrão, o enxague retira o amido que envolve a massa e o molho não vai aderir).

– Cada forma de macarrão casa melhor com um certo tipo de molho, mas acho que é importante levar em consideração suas preferências. Aqui em casa gostamos de usar espaguete com molhos de tomate leves e com legumes ao azeite (como a receita de hoje). Usamos massas longas e chatas, como fettuccini e linguini, com molhos à base de creme e molhos brancos. Já massas curtas, como pene, parafuso e concha, ficam ótimas em saladas frias e em gratinados. Mas se suas preferências são diferentes, siga seu instinto. Minha dica aqui é: esqueça os manuais e escolha a massa que preferir. O mais bacana de fazer a própria comida é que podemos deixa-la exatamente do jeitinho que a gente gosta e garanto que a polícia do macarrão não vai bater na sua porta se você servir espaguete com molho branco.

– Mais uma dica que vai contra a tradição. Sabe como os italianos vivem dizendo que nós (os não italianos) colocamos molho demais no macarrão? É verdade e eu serei a primeira a concordar que isso estraga um pouco o prato. Pra mim três fios de macarrão nadando em uma piscina de molho está mais pra sopa do que outra coisa. Porém macarrão é algo tão pobre em nutrientes (a composição da maioria das massas secas vendidas em supermercados é farinha de trigo e água, ou seja, carboidrato com pouca proteína e praticamente nenhuma vitamina nem mineral) que acho importante juntar uma quantidade boa de ingredientes nutritivos. Não precisa afogar sua massa no molho, mas não tenha medo de carregar nos legumes, leguminosas e ervas. Sua saúde e suas papilas vão agradecer.

– Nem só de parmesão vive o macarrão. Se você é vegano e está a procura de um substituto vegetal saboroso pra esse queijo, ou se você é onívoro/vegetariano, mas gostaria de ampliar seus horizontes em matéria de cobertura pra massas, experimente meu mix de sementes ou meu parmepão. Outra maneira simples e de aumentar o sabor e os nutrientes da sua massa é polvilhá-la com castanhas do Pará raladas.

– E já que estamos falando de ingredientes pra “finalizar” o macarrão pronto, pimenta do reino moída na hora e sal marinho (de preferência em flocos) polvilhados diretamente sobre o prato, no momento de servir, fazem uma imensa diferença no produto final. Pimenta do reino em pó perde seu aroma rapidamente e se você ainda não tem um moinho de pimenta, corra e compre um. E se você tem um azeite extra virgem especial (aquela garrafinha que custou uma fortuna), um fio sobre o prato pronto realçará bastante o sabor de suas massas (com uma exceção: molhos brancos cremosos não precisam da dose extra de azeite).

Agora passemos à receita de hoje. Esse espaguete com abobrinha e espinafre foi a minha adaptação de uma ideia simples que Anne teve outro dia. Lembram que passei duas semanas com o pé enfaixado, com o tendão de Aquiles do pé direito inflamado? Anne acabou preparando vários jantares durante minha convalescência e um deles foi macarrão com abobrinha. Confesso que quando ela anunciou o menu desconfiei que aquilo não ia ser muito bom, mas pra minha surpresa o prato era uma delícia. Desde então preparei esse espaguete várias vezes, mas não pude resistir à tentação de fazer algumas melhoras. Como a criadora do prato aprovou a minha versão, e que esse blog tem poucos pratos com massa, fiquei com vontade de publicar a receita aqui.

Imaginem que um espaguete no alho e óleo se juntou com abobrinhas grelhadas e espinafre cozido. O prato é suculento, perfumado e extremamente saboroso. Eu, que nunca gostei de macarrão no azeite e exigia sempre molho de tomate ou molho branco cremoso na minha massa, estou encantada com essa receita.

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Cozinho os legumes na mesma frigideira, em etapas, por isso é importante usar a maior e mais funda que você tiver. Pra transformar essa receita em um prato completo, junte 1x de grão de bico cozinhado (escorrido e temperado com sal) aos legumes antes de acrescentar o macarrão. Também gosto de polvilhar esse prato com castanhas do Pará raladas: fica ainda mais gostoso e nutritivo.

2 abobrinhas pequenas (aproximadamente 5x depois de cortadas)

200g de espinafre

4-8 dentes de alho (de acordo com o seu gosto)

200g de espaguete cru

Azeite, sal e pimenta do reino

Prepare os legumes. Lave as abobrinhas e corte cada uma ao meio, no sentido do comprimento. Em seguida corte cada metade em fatias finas, criando meia luas.  Corte o alho em fatias finíssimas. A quantidade vai depender do seu gosto, mas acho que quanto mais alho você usar, mais saboroso ficará o prato. Lave o espinafre e pique finamente. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira grande e doure as fatias de abobrinha em fogo alto. Mexa bem pra dourar as fatias do outro lado. Esse processo é bem rápido e a abobrinha pode passar de dourado pra queimado em poucos segundos, logo não saia de perto do fogão. Baixe o fogo e deixe cozinhar mais alguns minutos, até ela ficar bem macia. Empurre pros lados da frigideira, despeje um pouquinho de azeite no centro e doure o alho em fogo baixo. Mais uma vez, fique de olho, pois o alho só precisa de alguns segundos pra dourar e queima muito facilmente. Misture o alho frito com as fatias de abobrinha e empurre tudo pra um cantinho da frigideira, deixando espaço pra cozinhar o espinafre. Despeje o espinafre picado (não precisa acrescentar mais azeite) e cozinhe até ele murchar e quase toda a água evaporar. Misture todos os legumes, tempere com sal e pimenta do reino a gosto e reserve, coberto, enquanto cozinha o espaguete. Ferva bastante água em uma panela grande. Quando começar a ferver, junte um dose generosa de sal e o espaguete cru. Cozinhe até ficar al dente (macio, mas ainda ligeiramente firme). Pouco antes do macarrão ficar pronto, aqueça os legumes. Escorra o espaguete e despeje na frigideira com os legumes. Regue com 1cs de azeite e misture bem. Prove e corrija o tempero. Sirva imediatamente, polvilhado com mais pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e, se quiser, castanhas do Pará raladas. Rende 2 porções como prato principal.

Abobrinha e pimentão recheados com arroz, grão de bico e especiarias.

Quanto pensei em fazer uma versão mais acessível dos dawalis palestinos, pensei imediatamente em rechear folhas de repolho. Mas, por causa de uma combinação de fatores, acabei sem repolho e sem condições de sair pra procurá-lo pela cidade. Semana passada sofri um pequeno acidente de trabalho (a frente da gaveta dos chás caiu sobre o meu tendão de Aquiles) e desde sábado estou com o pé enfaixado. Nada grave, só preciso de repouso e daqui a alguns dias estarei novinha em folha. Mas a maneira como estou andando atualmente, de lado, puxando uma perna, acabou com os meus planos de ir à feira essa semana. A outra moradora daqui de casa passou a semana correndo de um lado pro outro (sorte dela que pode correr!) e acabou esquecendo de comprar o repolho que pedi. Todos sabem que a necessidade é a mãe da criatividade, então a falta do ingrediente principal da receita que eu planejava preparar me fez ter outras ideias, que acabaram sendo muito mais interessantes.

Optei por rechear abobrinhas, que tradicionalmente fazem parte da panelada de dawalis, mas também pimentões vermelhos, muito usados na culinária palestina, embora nunca com folhas de parreira. A partir daí fui me afastando da tradição e seguindo os meus instintos. A mistura de especiarias que usei no prato é bem próxima da usada aqui, embora na Palestina a combinação seja vendida pronta, em forma de “mix”. Também mantive as ervas frescas que adoro nos dawalis: salsinha e hortelã (minhas amigas muçulmanas podem até achar uma heresia, mas a hortelã é essencial). E inspirada pela camada de tomate e cebola do fundo da panela onde cozinham os dawalis, forrei a travessa com esses legumes, antes de levar o prato ao forno. Acrescentei grão de bico pra deixar o prato mais nutritivo e completo (lembrem: arroz e grão de bico formam uma proteína vegetal completa) e passas, porque adoro uma pitadinha de doce nos meus pratos salgados. Aprendi isso quando estive no Marrocos, onde os maravilhosos tajines são preparados geralmente com alguma fruta seca (tâmaras, passas, damascos ou ameixas).

O resultado? Enquanto o prato estava no forno fiquei um pouco apreensiva, até o momento em que o aroma dos legumes assando invadiu a casa e Anne chegou correndo na cozinha perguntando que comida maravilhosa era aquela. Quando dei a primeira garfada na minha criação pensei que a trabalheira tinha valido a pena. Que importância tinha um pé dolorido diante daquela delícia? O arroz estava maravilhosamente perfumado, os legumes desmanchando na boca e os tomates e as cebolas tinham se transformado em um molho suculento que complementou perfeitamente o prato. A senhora Papacapim ficou ainda mais empolgada do que eu com o jantar e tive que arrancar das suas mãos a última abobrinha recheada, pois eu precisava dela pra fotografar no dia seguinte (nunca fotografo comida à noite).

Bendita a hora em que faltou repolho aqui em casa!

Abobrinha e pimentão recheados com arroz, grão de bico e especiarias

As abobrinhas daqui são bem pequenas, por isso achei importante indicar a quantidade em gramas também: assim vocês sabem exatamente o quanto de abobrinha usar. Eu asso as cebolas sozinhas durante alguns minutos, antes de acrescentar os tomates e outros legumes à travessa, porque assim elas têm a chance de ficar ligeiramente caramelizadas antes de serem inundadas pelo suco dos tomates. Aqui todos os pratos tradicionais são feitos com arroz branco e é impossível achar arroz integral nas mercearias. Usei um arroz basmati branco super perfumado, que deixou o prato ainda mais saboroso, mas sintam-se livres pra usar o arroz (branco ou integral) que preferirem. Quando fiz a receita eu só tinha um pimentão e acabou sobrando arroz. No dia seguinte comi o arroz do recheio puro, depois de esquentar, e achei tão bom que estou pensando em prepara-lo sozinho de vez em quando.

3 abobrinhas pequenas (500g)

2 pimentões vermelhos

1x de arroz cru (usei arroz basmati branco)

1x de grão de bico cozido (na água com sal)

3 cebolas grandes

6-8 tomates bem maduros

6 dentes de alho

Especiarias: 1cc de cominho em pó, 1/2cc de semente de coentro em pó, 1/2cc de páprica suave, 1/2cc de pimenta do reino moída, 1/3cc de cúrcuma

1cs (bem cheia) de passas

2cs de salsinha fresca picada

1cs de hortelã fresca picada

1cc de raspas de limão, mais suco de limão pra servir

Azeite e sal a gosto

Cubra as abobrinhas inteiras (lavadas) com água salgada e leve ao fogo. Deixe ferver durante alguns minutos, até elas amolecerem um pouco (cuidado pra não cozinhar demais). O tempo de cozimento vai depender do tamanho das suas abobrinhas. As minhas eram bem pequenas e amaciaram em cinco minutos. Quando esfriar um pouco corte as abobrinhas ao meio, no sentido do comprimento, e retire a maior parte da polpa usando uma colher pequena (veja foto). Salgue ligeiramente o interior das abobrinhas. Reserve a polpa e a as abobrinhas cavadas, assim como a água do cozimento.

Refogue metade de uma cebola picada em 1cs de azeite. Junte 4 dentes de alho ralados ou pilados e cozinhe mais 30 segundos.  Acrescente as especiarias, uma pitada generosa de sal e o arroz (lave antes pra retirar um pouco do amido) e refogue durante alguns instantes. Junte a polpa da abobrinha (pré-cozida) picadinha e o grão de bico cozido e misture bem. Cubra com 2x da água onde as abobrinhas cozinharam e deixe o arroz cozinhar até ficar cozido, mas ainda “al-dente”(ligeiramente firme). Acresente um pouco mais da água das abobrinhas se o arroz secar antes de cozinhar. O arroz deve ficar sem nenhum líquido, mas bem úmido. Desligue o fogo, polvilhe o arroz com as passas, as ervas frescas picadas e as raspas de limão e misture mais uma vez. Prove e corrija o sal. Deixe descansar, coberto, enquanto prepara o resto do prato.

Corte 2 cebolas e meia em pedaços grandes (corto as cebolas pequenas em 4 e as maiores em 8). Espalhe um fio de azeite em uma travessa grande e disponha os pedaços de cebola, separando um pouco as camadas. Leve ao forno médio. Enquanto as cebolas começam a assar, corte os tomates em pedaços grandes e reserve. Preencha cada abobrinha cavada com a mistura de arroz e grão de bico. Corte os dois pimentões vermelhos ao meio (no sentido do comprimento) e retire as sementes e a membrana branca. Recheie as metades de pimentão com o arroz.

Retire a travessa do forno e disponha os pedaços de tomate sobre as cebolas, forrando completamente o fundo. Espalhe os 2 dentes de alho restantes (ralados ou pilados) e tempere com sal, pimenta do reino e um fio de azeite. Se sua forma for muito grande talvez você precise usar mais tomates. Arrume as abobrinhas e os pimentões recheados sobre os tomates/cebolas (veja foto acima). Regue os legumes com um fio de azeite e leve ao forno médio até eles ficarem bem macios e os tomates se desintegrarem. Se seu forno tiver a função “grill”, use-a durante os últimos cinco minutos, pros legumes ganharem uma casquinha crocante de arroz. Mais uma vez, o tempo de cozimento vai depender do tamanho dos seus legumes. Sirva bem quente, regado com um pouco de suco de limão e acompanhado de uma bela salada verde. Rende 4 porções.

Salada de macarrão e grão de bico com abobrinha, tomate e rúcula

Fiz uma longa lista com tudo que tenho que fazer antes de viajar, mas parece que minha cabeça entrou de férias antes do meu corpo! Ando me arrastando pela casa, com vontade de fazer siestas, tomar longos cafés da manhã admirando a folhagem e ler revistas de culinária no sofá. E, o mais importante, não trabalhar, não limpar a casa e não responder emails. O único ítem que consigui respeitar da lista (até então) é “esvaziar a geladeira e o congelador”.

Eu cozinho leguminosas todas as semanas, depois divido em porções e congelo, de modo que a qualquer época do ano, quem abrir meu congelador vai encontrar vários saquinhos de feijão (de vários tipos), grão de bico e lentilha. Graças a esse hábito meu, sou capaz de preparar uma refeição em menos de meia hora. Tiro um saquinho do congelador, o legume que estiver dando sopa na geladeira e um cereal do armário e improviso um almoço/jantar nutritivo, balanceado e rápido. Essa fórmula é prática e, mantendo uma certa harmonia entre os ingredientes, produz resultados saborosos. Mas ontem minha vontade de dar cabo ao conteúdo da geladeira, e usar os restos do dia anterior, foram mais fortes que meu bom senso culinário e o jantar foi uma cacofonia gastronômica. Misturar arroz estilo asiático com repolho e feijão branco não é uma boa idéia (só avisando, caso alguém tenha pensado nisso). Tudo que posso dizer é que não passei uma noite muito agradável, mas sacrifícios como esse às vezes são necessários pra não desperdiçar comida. Felizmente, tem também as misturas improvisadas que dão muito certo, como essa salada de macarrão e grão de bico.

Combinar um cereal com uma leguminosa é uma das regras de ouro da nutrição vegana. Os dois juntos formam uma proteína vegetal completa, de ótima qualidade. Mas feijão com arroz todo dia cansa, por isso estou sempre experimentando novas combinações. Nunca tinha colocado grão de bico e macarrão no mesmo prato antes, mas, embora possa parecer estranho pra alguns, os ousados que experimentarem a receita abaixo não vão se arrepender. Esses dois ingredientes não têm um sabor acentuado, por isso é importante misturá-los com outros ingredientes de sabor intenso. Uma dose generosa de alho, algumas azeitonas pretas, um toque de raspas de limão, um bom azeite e um pouco de rúcula transformam essa salada em um prato excitante e saboroso. Abobrinhas assadas e tomates maduros completam o prato, deixando tudo mais suculento. Não sei se vocês têm costume de comer macarrão frio, com uma vinagrete no lugar dos molhos tradicionais, mas esse tipo de salada é perfeito pros dias quentes. Alimenta sem pesar no estômago e não te faz suar como um prato quente.

Agora vou (tentar) voltar pros meu afazeres, contando os minutos que faltam pro meu corpo cansado se juntar à minha cabeça na terra encantada das férias.

 

 Salada de macarrão com grão de bico, abobrinha, tomate e rúcula

 Eu gosto de uma dose generosa de alho e bastante rúcula na minha salada, mas ajuste as quantidades pra adaptar a receita ao seu gosto. Lembre-se, no entanto, que macarrão e grão de bico têm um sabor suave e precisam de outros elementos marcantes pra realçá-los. Outra dica: é importante usar tomates bem maduros e suculentos e azeitonas de ótima qualidade nessa receita. Uso grão de bico congelado e coloco diretamente na panela, sem descongelar antes.

250g de macarrão do tipo penne, parafuso ou tubos curtos (melhor se for integral)

1x de grão de bico cozido

3 dentes de alho ralados

2 abobrinhas italianas pequenas em rodelas médias (entre 1/2x e 2x quando assadas)

12 azeitonas pretas, caroços removidos e partidas ao meio

2 tomates grandes (bem maduros), em pedaços médios

raspas de 1 limão pequeno

2 punhados de rúcula picada

4cs de azeite, mais um pouco pra untar

1cs de vinagre balsâmico

sal e pimenta do reino a gosto

Disponha as rodelas de abobrinha em uma placa levemente untada com azeite. Regue com 1cs de azeite, tempere com sal e asse em forno médio até ficar macio e ligeiramente dourado. Mexa uma vez durante o processo pra virar as rodelas e dourar do outro lado. Cozinhe o macarrão al dente, escorra e reserve. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira pequena e doure o alho. Junte o grão de bico cozido (se congelado, não precisa descongelar antes) e refogue, mexendo de vez em quando, durante alguns minutos, até os grãos ficarem com uns pontinhos dourados. Tempere com sal e reserve. No recipiente em que for servir, misture 2cs de azeite com 1cs de vinagre balsâmico. Junte os tomates em pedaços, com o suco que tiver escorrido deles, as azeitonas, o macarrão cozido, as raspas de limão, o grão de bico (raspe bem a frigideira pra recuperar todo o alho frito), a abobrinha assada e uma dose generosa de pimenta do reino. Mexa pra envolver tudo com o molho, prove a corrija o sal, se necessário. Por último junte a rúcula, misture rapidamente e sirva em temperatura ambiente. Rende 2-4 porções (dependendo do seu apetite). Gosto de comer essa salada com uma porção extra de rúcula, mas só faça isso se você for fã.

Quiche vegana de abobrinha, pimentão vermelho e tomate seco

Hoje quero dividir com vocês uma das minhas receitas preferidas, mas antes de começar a falar dessa jóia da gastronomia francesa preciso dizer uma coisa importante (pra mim): “quiche” é fêmea. Pronto, me sinto bem melhor agora. Não sei qual o gênero que atribuem a esse prato no resto do país, mas na minha terra todos os lugares que servem quiche chamam a coitada de “o quiche”. Sei que a confusão de gêneros não atrapalha em nada o sabor da quiche, mas às vezes sou chata assim e me importo com esse tipo de bobagem. Pra ninguém achar que sou esnobe só porque o Francês é minha segunda língua, saibam que também corrijo os franceses, que insistem em dizer “a samba” (eles acham que tudo que termina com “a” em Português é feminino).

Depois desse momento professor Pascale (que me ensinou muita coisa, diga-se de passagem), vamos falar de quiche. Esse foi um dos clássicos da culinária francesa que só descobri quando fui morar em Paris. A Natal da minha adolescência vendia churro, tapioca e pastel, mas ainda não tinha cafés oferecendo comida européia. Quiche foi um dos primeiros pratos franceses que aprendi a preparar e ela costumava aparecer na minha mesa com bastante frequência. Com a chegada do veganismo na minha vida parei de preparar essa delícia, que, como todos sabem, é composta de ovos, creme de leite e queijo (e, no caso da “quiche lorraine”, a mais tradicional de todas, uma boa dose de bacon). Mas não demorou muito pra eu descobrir que vegans ao redor do mundo estavam preparando quiches com tofu, provavelmente o ingrediente mais versátil da cozinha vegana. A grande vantagem do tofu é que ele substitui os ovos, o creme e o queijo ao mesmo tempo, garantindo uma textura muito próxima da quiche tradicional. Muitos vão argumentar que, se a textura é parecida, o sabor passa a léguas de distância do original. Não vou negar essa evidência, mas a idéia não é reproduzir o sabor e sim o conceito. Tofu, como eu já expliquei aqui no blog, é quase insípido. O que parece ser um defeito é na verdade sua maior qualidade. Justamente porque o seu sabor é neutro, ele pode ser combinado com uma infinidade de ingredientes e criar pratos completamente diferentes. No caso da quiche, como a base vegana é neutra, os outros ingredientes podem brilhar com toda sua força, sem precisar competir com o sabor marcante do ovo ou do queijo.

Sei que os não vegs podem dizer que ovo e, principalmente, queijo são deliciosos e não tem nada errado em fazer uma quiche com gosto de ovo/queijo. Eles estão certos e eu certamente adorava minhas quiches tradicionais. Mas acho importante ressaltar que é possível fazer pratos deliciosos sem esses ingredientes também. Não crio pratos veganos pra competir com pratos onívoros ou criar algo mais gostoso do que o original (mas garanto que isso acontece às vezes e é sempre uma agradável surpresa). Minha motivação principal é criar algo 100% vegetal que seja tão bom quanto, mas que tenha personalidade única. Algo que traga reconforto pros veganos que achavam que estavam condenados a se contentar  sempre com um prato menos apetitoso do que o do onívoro ao lado, mas também capaz de impressionar (e satisfazer) os não vegs a procura de sabores novos.

Tenho várias receitas de quiches veganas no meu repertório e a de hoje é a minha última criação. A massa é tão gostosa que eu poderia assá-la sozinha e comê-la como um salgadinho. O recheio mistura alguns dos meus ingredientes preferidos (pimentão vermelho grelhado, tomate seco, mangericão), que tem sabores marcantes e se harmonizam perfeitamente. Fazer quiche é um pouco demorado e trabalhoso, mas o resultado final vale cada segundo que você passar na cozinha. Essa quiche é tão saborosa que entra na categoria dos pratos veganos que os onívoros adoram ( fiz o teste dezenas de vezes).

Mas o meu maior prazer é serví-la pra veganos que, como eu, suspiram de inveja ao ver seus amigos comer quiches suculentas do seu lado enquanto eles bebem tristes um café preto porque é a únca coisa vegana do cardápio (em Natal cappuccino com leite de soja ainda é algo que não existe). Amigo(a), se você já passou por essa situação, a receita de hoje é pra você. Um dia vou criar uma ONG que distribuirá quiches veganas pra todos, mas enquanto esse dia não chega levante dessa cadeira, compre um bloco de tofu e faça uma bela quiche, no feminino e vegana! Chegou a sua vez de fazer os onívoros suspirarem de inveja*.

*Aviso: esse blog não tem intenção nenhuma de criar sentimentos de rivalidade entre veganos e onívoros. Faça quiche, não faça guerra!

Quiche vegana de abobrinha, pimentão vermelho e tomate seco

A receita é longa, mas os ingredientes são simples e, como disse, o resultado vale a pena. Eu gosto tanto da massa (ligeiramente adaptada dessa receita) que resolvi fazer uma quantidade maior dessa vez, mas confesso que com tanta massa a quiche ficou meio seca (nas fotos dá pra ver que as bordas são bem mais altas que o recheio). Mas não se preocupe que a receita publicada aqui faz a quantidade certa de massa, logo você não terá esse problema. O ideal é usar uma forma de mais ou menos 28cm de diâmetro. Se ela tiver aro removível você poderá transferir a quiche inteira pra um prato ou bandeja antes de servir, mas se você não tiver uma forma assim, pode usar uma comum e servir a quiche dentro dela.

Massa

1x de farinha de trigo

½ x de aveia fina

3cs de gergelim tostado (toste gergelim cru em um frigideira seca durante alguns minutos, até ficar dourado)

1/2cc de bicarbonato de sódio

3/4cc de sal

1/3x mais 1cs de azeite

1/4x de água

Recheio

3x de tofu (do tipo macio, esfarelado com os dedos antes de medir)

2 cebolas pequenas (ou 1 bem grande)

4 dentes de alho

2 ½ x de abobrinha em rodelas finas

1 pimentão vermelho

1/3x de tomate seco picado

2cs bem cheias de manjericão fresco picado

3cs de azeite, mais pra untar

3cs de suco de limão

sal e pimenta do reino moída a gosto

Comece a preparar o recheio. Unte ligeiramente com azeite uma placa de metal e disponha as fatias de abobrinha. Tempere com sal, regue com 1cs de azeite e asse em forno médio/alto até ficar dourado em alguns lugares (veja foto acima). Aproveite pra assar o pimentão (inteiro) ao mesmo tempo. Quando o pimentão estiver com a casca queimada (mais detalhes em como assar pimentão aqui), retire do forno e coloque imediatamente dentro de uma vasílha com tampa. O pimentão vai suar e a casca vai descolar facilmente. Quando ele estiver morno, corte-o ao meio, descarte as sementes e a pele e pique-o em pedacinhos. Reserve.

Prepare a massa. Misture todos os ingredientes e amasse bem. A textura lembrará areia úmida. Esfarele a massa sobre a forma e espalhe com os dedos, apertando bem pra formar uma camada uniforme no fundo e nas laterais. Uso uma forma de 28cm de diâmetro e a quantidade de massa é suficiente pra cobrir o fundo e formar uma borda da altura do recheio. Asse a massa (sem recheio) durante 10 minutos e reserve.

Termine de preparar o recheio. Enquanto a abobrinha assada esfria, pique as cebolas e o alho. Aqueça 2cs de azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e cozinhe mais 1 minuto. Triture o tofu, a cebola/alho refogados, o suco de limão, o sal (uso 1cc) e a pimenta do reino (uso 1/3cc) no liquidificador. Se seu tofu for meio firme, será preciso juntar algumas colheres de sopa de água pro motor continuar funcionando. Transfira a mistura pra um recipiente grande, junte o pimentão grelhado, o tomate seco, a abobrinha assada e o mangjricão. Misture bem, prove e corrija o tempero.

Espalhe o recheio sobre a massa pré-assada e asse em forno médio. A quiche está pronta quando as bordas estiverem douradas e o recheio inchar um pouco (vai aparecer algumas rachaduras na superfície) e ficar bem firme (aperte com a ponta dos dedos pra testar). No meu forno leva de 30 à 45 minutos. Sirva acompanhada de uma salada verde. Rende 4 porções como prato principal.