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Crepes recheados com creme de tofu, castanha e espinafre e molho de tomate assado.

Acho que já escrevi aqui no blog que tenho uma vizinha palestina-americana que faz stand up comedy e que passa por aqui de vez em quando pra fazer shows na região. Quando ela vem à Belém sempre me contrata como sua “personal chef”, o que significa que durante uma semana eu preparo todas as suas refeições. Além de poder colocar alguma coisa na carteira, é uma oportunidade pra preparar pratos ultra caprichados que eu nunca teria coragem de preparar no dia-a-dia.

Porém o melhor de tudo é o desafio criativo de desenvolver novas receitas e melhorar as antigas. Fazia tempos que eu lapidava uma receita de crepe sem nunca ficar totalmente satisfeita. Mas dessa vez consegui alcançar exatamento o resultado que esperava. Vou poupar vocês do relato do quase desastre que aconteceu na noite que resolvi fazer crepes pra vizinha sem receita, pois nunca me dei o trabalho de anotar as tentativas anteriores, no improviso e às nove horas quando o jantar deveria ser servido às dez em ponto (eu gosto de viver perigosamente) e irei direto à receita. Eu não me empolgo facilmente com os pratos que crio, não exatamente por modéstia, mas porque sou extremamente exigente e perfeccionista na cozinha. Já me aconteceu várias vezes de servir um prato pros convidados e enquanto eles soltavam exclamações admirativas eu pensava com meus botões “Humpf! tá faltando um pouco disso, tem muito daquilo, eu devia ter feito assim…”. Mas de vez em quando, se sinto que acertei a loteria culiária, dou uma risada de bruxa e começo a pular (cada um expressa sua alegria como quer e prefiro não reprimir essas reações bizarras, a menos que tenha gente na cozinha, claro). Esses crepes, amigos, me fizeram dar muitos pulos.

Crepes veganos

Eu estava procurando uma receita de “ricota” vegetal há tempos, mas ao invés de usar tofu amassado, como vi em vários restaurantes vegetarianos, resolvi usar a base da minha receita de patê de tofu. Ela é extremamente cremosa e saborosa, mas neutra o suficiente pra ser combinada com outros ingredientes, nesse caso o espinafre. A mistura não poderia ter ficado melhor e casa perfeitamente com o sabor delicado dos crepes. Embora os crepes recheados sejam deliciosos, a adição do molho de tomate assado acrescentou uma nota viva e leve ao prato e completou a equação. O veredicto? Crepes feitos pros anjinhos no restaurante do paraíso vegano!

A receita parece complicada, mas não é. Tem várias etapas, certo, mas elas podem ser executadas de olhos fechados até por quem não tem muita experiência na cozinha. Tirando, talvez, a confecção dos crepes, mas com um pouquinho de prática você fará crepes com as mãos amarradas nas costas. E pra ganhar tempo, prepare o recheio no dia anterior (ele sobrevive à uma noite na geladeira sem nenhum efeito colateral) e asse os tomates pro molho enquanto faz os crepes. Com o recheio pronto você só vai precisar de 40 minutos antes de sentar à mesa com um prato de deliciosos crepes recheados na sua frente. E posso garantir que eles compensam cada segundo passado na cozinha.

 

Crepes veganos recheados com creme de tofu, castanha e espinafre e molho de tomate assado

A receita é longa, mas você pode dividir as etapas e preparar o recheio no dia anterior. Coloque os tomates pra assar enquanto você faz os crepes e o jantar ficará pronto em meros 40 minutos. Bonus: você não vai precisar de todo o creme de tofu e castanha pra fazer a receita, então você terá um delicioso patê pra passar no pão durante os próximos dias (se quiser junte um pouco de tomates secos e ervas, como expliquei aqui).

Crepes

1 ½ x de leite vegetal (usei meu leite de amêndoas, mas pode ser substituido por leite de soja não adoçado)

1x de farinha de trigo

1cs de azeite (ou óleo de girassol)

1/3 cc (rasa) de sal

1 pitada de cúrcuma (opcional, mas é o que da a cor amarelada tipica dos crepes)

azeite pra untar a frigideira

Recheio

300gr de tofu (quanto mais fresco, melhor)

1/2x de castanha de caju (não tostada e sem sal), de molho por 6 horas

1 cebola picada

2 dentes de alho picados

1cc de levedo de cerveja (se for maltado, o que é o ideal, usar 2cc)

1cs de suco de limão

1cs de azeite

1/2cc (rasa) de sal, ou a gosto

uma pitada generosa de pimenta do reino

1/2x de água

1/2kg de espinafre

1cs de azeite

1 cebola picadinha

Molho

6 tomates bem maduros

1 dente de alho grande

3cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Comece preparando o recheio. Aqueça 1cs de azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e deixe cozinhar mais 1 minuto. Reserve. Coloque todos os ingredientes do creme (do tofu até a água) no liquidificador. Ligue o motor e adicione a água aos pouquinhos. Será necessário parar o motor algumas vezes e mexer o creme pra que todos os ingredientes sejam triturados. Dependendo da textura do tofu utilizado você precisará de mais ou menos água (o objetivo é atingir a conscistência de um patê espesso e cremoso). Reserve. Lave bem o espinafre e corte em pedaços bem pequenos. Coloque o espinafre picado em uma panela grande, leve ao fogo baixo (não precisa acrescentar azeite nem água) e cozinhe tampado durante 2 minutos, ou o suficiente pra que ele murche ligeiramente. Deixe esfriar e esprema o espinafre entre as mãos, retirando o máximo de água possível. Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola picadinha. Misture ao espinafre e tempere com sal e pimenta do reino. Junte metade do creme de tofu e misture bem. Eu gosto de colocar mais espinafre do que creme no recheio, mas use mais creme se preferir o inverso. Prove, corrija o tempeiro e reserve. (Guarde o resto do creme na geladeira e use como patê pra passar no pão).

Prepare o molho. Lave e corte os tomates em 4. Descasque o alho e corte em fatias finas. Espalhe 1cs de azeite em uma forma de vidro (mais fácil de limpar depois), disponha o tomate e o alho por cima e polvilhe um pouco de sal. Regue com mais 1cs de azeite e asse em forno médio-alto até os tomates ficarem bem macios e começarem a se desintegrar (entre 15 e 20 minutos). Deixe esfriar um pouco, transfira tudo pro liquidificador (não esqueça de recolher o líquido que ficou na forma) e triture até ficar homogêneo. Com o motor ligado, despeje 1cs de azeite em fio pra criar uma leve emulsão. Corrija o sal e tempere com pimenta do reino a gosto. Reserve.

Prepare os crepes. Coloque todos os ingredientes no liquidificador e bata até ficar homogêneo. Aqueça uma frigideira anti-aderente rasa. Quando estiver bem quente (mas não fumegando!) espalhe um pouco de azeite (meu método: despejo o equivalente a 1cc de azeite e espalho com papel toalha). Despeje um pouco de massa no centro da frigideira e, usando movimentos circulares, deixe a mistura escorrer e cubrir toda a superfície. Se você não souber fazer crepes desse jeito, despeje um pouco de massa no centro da frigideira e use as costas de uma colher pra espalhar a massa, fazendo uma espiral do centro em direção às bordas. Os crepes devem ficar bem finos e você vai precisar de um pouco de prática pra saber a quantidade exata de massa necessária pra cada um. Quando as bordas do crepe ficarem ligeiramente douradas e despregrarem da frigideira, use uma espátula pra virá-lo e deixe cozinhar do outro lado. Repita a operação com o resto da massa, colocando sempre um pouco de azeite na frigideira entre um crepe e outro.

Montagem. Recheie cada crepe com um pouco do creme de espinafre (a quantidade vai depender do tamanho do seu crepe, mas se eles forem fininhos, como devem ser, não precisa carregar no creme) e enrole como se fosse uma panqueca. Arrume os crepes recheados em uma forma (não precisa untar) e aqueça em forno baixo por alguns minutos (só o suficiente pra aquecer o recheio). Sirva com o molho morno, em porções individuais pra cada pessoa ir mergulhando seus crepes na cumbuquinha de molho enquanto come. Rende 4 porções (se apetites moderados ou se for servido acompanhado de outros pratos).

O prato que servi pra vizinha.

Quiche vegana de abobrinha, pimentão vermelho e tomate seco

Hoje quero dividir com vocês uma das minhas receitas preferidas, mas antes de começar a falar dessa jóia da gastronomia francesa preciso dizer uma coisa importante (pra mim): “quiche” é fêmea. Pronto, me sinto bem melhor agora. Não sei qual o gênero que atribuem a esse prato no resto do país, mas na minha terra todos os lugares que servem quiche chamam a coitada de “o quiche”. Sei que a confusão de gêneros não atrapalha em nada o sabor da quiche, mas às vezes sou chata assim e me importo com esse tipo de bobagem. Pra ninguém achar que sou esnobe só porque o Francês é minha segunda língua, saibam que também corrijo os franceses, que insistem em dizer “a samba” (eles acham que tudo que termina com “a” em Português é feminino).

Depois desse momento professor Pascale (que me ensinou muita coisa, diga-se de passagem), vamos falar de quiche. Esse foi um dos clássicos da culinária francesa que só descobri quando fui morar em Paris. A Natal da minha adolescência vendia churro, tapioca e pastel, mas ainda não tinha cafés oferecendo comida européia. Quiche foi um dos primeiros pratos franceses que aprendi a preparar e ela costumava aparecer na minha mesa com bastante frequência. Com a chegada do veganismo na minha vida parei de preparar essa delícia, que, como todos sabem, é composta de ovos, creme de leite e queijo (e, no caso da “quiche lorraine”, a mais tradicional de todas, uma boa dose de bacon). Mas não demorou muito pra eu descobrir que vegans ao redor do mundo estavam preparando quiches com tofu, provavelmente o ingrediente mais versátil da cozinha vegana. A grande vantagem do tofu é que ele substitui os ovos, o creme e o queijo ao mesmo tempo, garantindo uma textura muito próxima da quiche tradicional. Muitos vão argumentar que, se a textura é parecida, o sabor passa a léguas de distância do original. Não vou negar essa evidência, mas a idéia não é reproduzir o sabor e sim o conceito. Tofu, como eu já expliquei aqui no blog, é quase insípido. O que parece ser um defeito é na verdade sua maior qualidade. Justamente porque o seu sabor é neutro, ele pode ser combinado com uma infinidade de ingredientes e criar pratos completamente diferentes. No caso da quiche, como a base vegana é neutra, os outros ingredientes podem brilhar com toda sua força, sem precisar competir com o sabor marcante do ovo ou do queijo.

Sei que os não vegs podem dizer que ovo e, principalmente, queijo são deliciosos e não tem nada errado em fazer uma quiche com gosto de ovo/queijo. Eles estão certos e eu certamente adorava minhas quiches tradicionais. Mas acho importante ressaltar que é possível fazer pratos deliciosos sem esses ingredientes também. Não crio pratos veganos pra competir com pratos onívoros ou criar algo mais gostoso do que o original (mas garanto que isso acontece às vezes e é sempre uma agradável surpresa). Minha motivação principal é criar algo 100% vegetal que seja tão bom quanto, mas que tenha personalidade única. Algo que traga reconforto pros veganos que achavam que estavam condenados a se contentar  sempre com um prato menos apetitoso do que o do onívoro ao lado, mas também capaz de impressionar (e satisfazer) os não vegs a procura de sabores novos.

Tenho várias receitas de quiches veganas no meu repertório e a de hoje é a minha última criação. A massa é tão gostosa que eu poderia assá-la sozinha e comê-la como um salgadinho. O recheio mistura alguns dos meus ingredientes preferidos (pimentão vermelho grelhado, tomate seco, mangericão), que tem sabores marcantes e se harmonizam perfeitamente. Fazer quiche é um pouco demorado e trabalhoso, mas o resultado final vale cada segundo que você passar na cozinha. Essa quiche é tão saborosa que entra na categoria dos pratos veganos que os onívoros adoram ( fiz o teste dezenas de vezes).

Mas o meu maior prazer é serví-la pra veganos que, como eu, suspiram de inveja ao ver seus amigos comer quiches suculentas do seu lado enquanto eles bebem tristes um café preto porque é a únca coisa vegana do cardápio (em Natal cappuccino com leite de soja ainda é algo que não existe). Amigo(a), se você já passou por essa situação, a receita de hoje é pra você. Um dia vou criar uma ONG que distribuirá quiches veganas pra todos, mas enquanto esse dia não chega levante dessa cadeira, compre um bloco de tofu e faça uma bela quiche, no feminino e vegana! Chegou a sua vez de fazer os onívoros suspirarem de inveja*.

*Aviso: esse blog não tem intenção nenhuma de criar sentimentos de rivalidade entre veganos e onívoros. Faça quiche, não faça guerra!

Quiche vegana de abobrinha, pimentão vermelho e tomate seco

A receita é longa, mas os ingredientes são simples e, como disse, o resultado vale a pena. Eu gosto tanto da massa (ligeiramente adaptada dessa receita) que resolvi fazer uma quantidade maior dessa vez, mas confesso que com tanta massa a quiche ficou meio seca (nas fotos dá pra ver que as bordas são bem mais altas que o recheio). Mas não se preocupe que a receita publicada aqui faz a quantidade certa de massa, logo você não terá esse problema. O ideal é usar uma forma de mais ou menos 28cm de diâmetro. Se ela tiver aro removível você poderá transferir a quiche inteira pra um prato ou bandeja antes de servir, mas se você não tiver uma forma assim, pode usar uma comum e servir a quiche dentro dela.

Massa

1x de farinha de trigo

½ x de aveia fina

3cs de gergelim tostado (toste gergelim cru em um frigideira seca durante alguns minutos, até ficar dourado)

1/2cc de bicarbonato de sódio

3/4cc de sal

1/3x mais 1cs de azeite

1/4x de água

Recheio

3x de tofu (do tipo macio, esfarelado com os dedos antes de medir)

2 cebolas pequenas (ou 1 bem grande)

4 dentes de alho

2 ½ x de abobrinha em rodelas finas

1 pimentão vermelho

1/3x de tomate seco picado

2cs bem cheias de manjericão fresco picado

3cs de azeite, mais pra untar

3cs de suco de limão

sal e pimenta do reino moída a gosto

Comece a preparar o recheio. Unte ligeiramente com azeite uma placa de metal e disponha as fatias de abobrinha. Tempere com sal, regue com 1cs de azeite e asse em forno médio/alto até ficar dourado em alguns lugares (veja foto acima). Aproveite pra assar o pimentão (inteiro) ao mesmo tempo. Quando o pimentão estiver com a casca queimada (mais detalhes em como assar pimentão aqui), retire do forno e coloque imediatamente dentro de uma vasílha com tampa. O pimentão vai suar e a casca vai descolar facilmente. Quando ele estiver morno, corte-o ao meio, descarte as sementes e a pele e pique-o em pedacinhos. Reserve.

Prepare a massa. Misture todos os ingredientes e amasse bem. A textura lembrará areia úmida. Esfarele a massa sobre a forma e espalhe com os dedos, apertando bem pra formar uma camada uniforme no fundo e nas laterais. Uso uma forma de 28cm de diâmetro e a quantidade de massa é suficiente pra cobrir o fundo e formar uma borda da altura do recheio. Asse a massa (sem recheio) durante 10 minutos e reserve.

Termine de preparar o recheio. Enquanto a abobrinha assada esfria, pique as cebolas e o alho. Aqueça 2cs de azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e cozinhe mais 1 minuto. Triture o tofu, a cebola/alho refogados, o suco de limão, o sal (uso 1cc) e a pimenta do reino (uso 1/3cc) no liquidificador. Se seu tofu for meio firme, será preciso juntar algumas colheres de sopa de água pro motor continuar funcionando. Transfira a mistura pra um recipiente grande, junte o pimentão grelhado, o tomate seco, a abobrinha assada e o mangjricão. Misture bem, prove e corrija o tempero.

Espalhe o recheio sobre a massa pré-assada e asse em forno médio. A quiche está pronta quando as bordas estiverem douradas e o recheio inchar um pouco (vai aparecer algumas rachaduras na superfície) e ficar bem firme (aperte com a ponta dos dedos pra testar). No meu forno leva de 30 à 45 minutos. Sirva acompanhada de uma salada verde. Rende 4 porções como prato principal.

Ratatouille

 

Desde a semana passada convivo com uma gripezinha chata que vai e volta sem no entando me deixar de vez. É muito raro eu ficar doente, acredito que devo isso à minha dieta super natural, então não vou reclamar. Até porque a gripe que me acompanha atualmente, além de não ser das mais pesadas, tem uma característica muito estranha: abriu meu apetite. Parece que quando o tempo esfria nada consegue calar meu estômago. Passei a semana me sentindo febril, com dor de cabeça e nariz escorrendo, mas isso não me impediu de fazer sopa atrás de sopa (meu jantar preferido no inverno) e até assar uma dúzia desses bolinhos maravilhosos.

Mas chegou uma hora em que meu corpo adoentado implorou por um dia inteiro na cama e nem meu estômago faminto foi capaz de me levantar. Quando me encontro incapacitada de cozinhar, seja por motivo de doença (raro) ou cansaço (mais frequente), Anne assume o comando do fogão. Na era “pré-Sandra” da sua vida, ela costumava cozinhar e até gostava. Mas isso foi antes de eu me mudar pra casa dela, me apossar da sua cozinha e declarar que aquele era meu território e que ela só teria o direito de adentrá-lo pra lavar a louça. Desde então ela parou quase totalmente de cozinhar e teve que se conformar com sua nova função de lava-pratos. Antes que digam que sou uma pessoa controladora vou logo me defender: eu cozinho muito melhor que Anne. Por que nos contentar de comida “mais ou menos” quando podemos degustar algo muito mais delicioso? Tem um prato porém que ela prepara divinamente bem, tão bem quanto eu: ratatouille. Então quando ela assume o controle da cozinha, por que estou muito cansada ou doente, ela quase sempre prepara ratatouille.

Ratatouille (se pronuncia “ra.ta.tu.ie” e é um substantivo feminino) é um prato francês  com legumes que além de simplérrimo e delicioso é o único naturalmente vegano desse país. Pelo menos nem eu nem Anne (que é francesa) conhecemos outra receita típica francesa que também seja vegana. Esse é um prato fácil e rápido de fazer, mas se você escolher ingredientes frescos e maduros o resultado será riquíssimo em sabor. Não cura gripe mas reconforta, principalmente se outra pessoa preparar pra você. Agora com licença que vou voltar pra cama com meu prato de ratatouille.

 

Ratatouille

A abobrinha daqui é menor que a do Brasil então as quantidades são aproximadas. Anne usa três abobrinhas palestinas e imagino que seja o equivalente de duas médias aí. Mas não se preocupe que um pouco mais ou um pouco menos de abobrinha não vai estragar a receita. Anne gosta de comer ratatouille com arroz, eu gosto de comer com um pão rústico com cereais. Se quiser uma refeição mais robusta (e completa), sirva com tofu assado ou um burger vegetal, como esse aqui.

1 beringela média

2 abobrinhas médias

1 pimentão vermelho

4x de tomate picado

1 cebola

2 dentes de alho picados

3cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

½ cc de tomilho seco ou 1cc de tomilho fresco (opcional)

Corte a beringela e a abobrinha em cubos médios. Corte o pimentão em pedaços médios e pique a cebola. Aqueça 2cs de azeite e refogue a cebola até ficar ligeiramente dourada. Junte o pimentão e o alho e mexa bem. Acrescente a beringela e a abobrinha e refogue alguns minutos em fogo baixo, mexendo de vez em quando pra não pregar na panela. Quando os legumes tiverem amolecido um pouco e ganhado uma corzinha junte o tomate, o tomilho (se estiver usando) e tempere com sal. Cubra e deixe cozinhar em fogo baixíssimo até os legumes ficarem bem macios e os tomates se transformarem em um molho espesso (não precisa colocar água). Corrija o sal, junte uma pitada generosa de pimenta do reino e regue com 1cs de azeite antes de servir. Serve 2-4 pessoas, dependendo dos acompanhamentos. Ratatouille é ainda melhor no dia seguinte.

 

 

Torta de maçã (a melhor de todas)

Dizem que os ciclos dos planetas têm uma influência na nossa vida. Saturno leva vinte nove anos pra dar uma volta completa ao redor do sol. Quando alguém completa vinte nove anos acontece o famoso “retorno de Saturno”, a primeira grande crise da vida adulta. É quando começam aquelas cobranças do estilo “Já conseguiu um diploma?”, “Já comprou uma casa?”, “Já casou?”, etc.  É quando as pessoas sentem aquela vontade urgente de mudar de vida. Meu vigésimo nono aniversário aconteceu algumas semanas atrás. Um belo dia de novembro acordei e tinha vinte nove anos. Olhei ao redor e esperei a crise.  Felizmente, ao fazer a análise desses vinte nove anos de existência, o saldo foi positivo. Realisei o grande sonho da minha vida, que era fazer faculdade no exterior. Descobri o que realmente quero fazer da vida e joguei fora o diploma da faculdade. Visitei vários países. Matei meu pai (foi Freud que mandou e é no sentido figurado) e perdoei minha mãe por não ter sido a mãe que eu sonhei em ter (quanto a me perdoar por não ser a filha que ela sonhou em ter, essa será minha missão durante os próximos vinte e nove anos). Fiz as pazes com meu corpo. Encontrei o amor da minha vida e tratei logo de casar com ela pra não perdê-la de vista. Não tenho casa, nem carro, nem sequer cartão de crédito e tudo que possuo cabe em uma mala (tirando minha vaquinha Macabéa), mas se engana quem pensa que isso me preocupa. Achei o meu lugar no mundo e sou muito feliz.

Porém me senti na obrigação de mudar alguma coisa na minha vida, em consideração a Saturno. Então decidi que não faria bolo de aniversário. Acho um absurdo ingerir aquela quantidade imensa de farinha de trigo e açúcar quando se tem tanta coisa mais interessante pra comer. Então resolvi criar a torta dos meus sonhos pra comemorar a mudança de idade e o novo ciclo. Eu tinha em mente uma torta de estilo européia, não essas confecções submersas em leite condensado e creme de leite que os brasileiros têm o (péssimo) hábito de consumir. Eu queria uma massa fina e crocante, com o mínimo de farinha possível e com amêndoas. Queria bastante recheio e o recheio tinha que ser maçã porque sobremesas com frutas são as minhas preferidas. As maçãs tinham que ser flambadas no rum, pois nada como um pouquinho de álcool pra transformar uma sobremesa simples em algo especial. E ao invés de fazer uma torta grande, queria tortinhas individuais pois comer uma mini-torta é mais gostoso do que comer uma fatia de torta. Precisei de quatro tentativas pra chegar ao resultado que eu estava procurando (por isso só estou publicando a receita agora) mas consegui fazer a torta de maçã perfeita, a melhor que já comi.

Nunca mais quero bolo de aniversário, a partir de agora só quero essa torta.

Torta de maçã n°29

A receita é longa porque explico cada passo em detalhes, mas fazer essas tortinhas é super fácil. Se quiser uma sobremesa ultra especial, sirva com sorvete de baunilha vegano. Iogurte de soja de baunilha também é um ótimo acompanhamento.

Massa:

1x de amêndoas em pó (mais ou menos 3/4x de amêndoas inteiras)

2/3x de farinha de trigo

2cc rasas de açúcar demerara

2 pitadas de sal

½ cc de canela

4cs rasas de margarina gelada

2cs de água gelada

farinha de trigo pra polvilhar

um pouco de leite de soja pra pincelar (opcional)

Recheio:

4 maçãs grandes (ou 6 pequenas)

suco de limão

1cs de margarina

um fio de azeite

1cs de açúcar demerara

2cs de rum

canela

Massa:

Se não encontrar amêndoas em pó, triture ¾ x de amêndoas inteiras no liquidificador até atingir a textura de areia fina. Se alguns pedaços ficarem inteiros, pique-os o mais finamente possível com uma faca afiada. Nunca testei mas acredito que com um pilão pesado e bastante paciência também é possível fazer esse trabalho. Misture as amêndoas em pó com a farinha de trigo, o açúcar, o sal e a canela. Junte a margarina gelada em pedacinhos (eu meço 1cs rasa de margarina gelada e uso uma faca pra ir cortando pedacinhos de margarina que deixo cair sobre a farinha, depois faço o mesmo com o resto da margarina) e misture com um garfo até a massa atingir um aspecto granulado. Junte 2cs de água gelada e mexa com um garfo até todos os ingredientes se misturarem, depois use as mãos e amasse ligeiramente até ficar homogêneo. Você tem que trabalhar rápido senão a margarina derrete e a massa fica mole demais. Forme uma bola, envolva a massa com um pedaço de plástico (filme ou saco) e coloque no congelador enquanto prepara o recheio.

Recheio:

Descasque as maçãs (eu gosto de descascar metade das maçãs e deixar a outra metade com casca: é mais bonito e a textura fica mais interessante), corte cada maçã em quatro e regue com um pouco de suco de limão pra impedir que elas escureçam. Corte cada pedaço de maçã em fatias finas e regue com mais suco de limão, se preciso. Derreta a margarina em uma frigideira grande e funda (se for de ferro, melhor ainda) e junte um fio de azeite (isso impede que ela queime). Despeje as fatias de maçã na frigideira e mexa pra que tudo fique envolvido com margarina. Cozinhe em fogo baixo até a maçã ficar macia. Polvilhe o açúcar e mexa delicadamente pra não quebrar as fatias. Junte o rum e incline a frigideira sobre a chama do fogão pra flambar as maçãs. Quando a chama se apagar desligue o fogo e deixe esfriar.

Montagem:

Aqueça o forno em temperatura média/alta. Espalhe bastante farinha sobre a superfície de trabalho. Retire a massa do congelador e, com uma faca, divida em quatro porções iguais. Pegue um pedaço e coloque os outros de volta no congelador. Estique a massa (com as mãos ou rolo), formando um círculo um pouco maior que um CD. A massa é grudenta e você vai precisar polvilhá-la com farinha pra que ela não grude. nas suas mãos. Use uma faca longa e reta pra descolar a massa da superfície de trabalho e transferí-la pra uma placa de alumínio, ou forma rasa (não precisa untar). Coloque a forma na geladeira enquanto prepara as outras três mini-tortas. Como a massa é rica em margarina, é importante mantê-la gelada senão ela amolece e fica impossível de ser manipulada. Divida o recheio em quatro e disponha as porções de maçã sobre os discos de massa, deixando 1,5cm de borda sem recheio. Dobre as bordas sobre as maçãs, formando um “muro” ao redor do recheio. Não precisa ser perfeito, o charme dessas tortinhas é o visual rústico. Pincele as bordas com um pouco de leite de soja (opcional, a vantagem de fazer isso é que a massa vai ficar mais douradinha) e polvilhe com canela. Asse as mini-tortas até a massa ficar bem dourada. Sirva morna. Rende quatro mini-tortas.

 

Gratin Dauphinois Vegano (batata gratinada com creme)

 

O clima aqui na Palestina começou (enfim!) a esfriar. Os dias estão mais curtos, o sol se põe as 16h30 e a falta de luz me faz querer passar o dia inteiro de pijama, tomando chá e…comendo. O outono é a minha estação preferida e a que mais abre o meu apetite. Enquanto no verão eu sou capaz de passar semanas me alimentando unicamente de saladas, no outono eu só penso em comida que faz peso no estômago, como batata, aveia, pão e muita, muita sopa.

Trabalhei muitos anos como baby sitter na França. De vez em quando eu cuidava de um menina chamada Lucy. Um dia a mãe dela me ensinou a fazer um dos pratos típicos do inverno francês: gratin dauphinois. Não me lembro de quase nada da mãe de Lucy (nem sequer do nome dela!) mas nunca esqueci a receita. Batata, queijo e creme são a base da maioria dos pratos de inverno. Claro que isso é uma bomba calórica e depois de comer um prato cheio da mistura, você não tem mais forças nem pra se levantar da cadeira. Mas eu gostava de comer esse tipo de comida de vez em quando, mesmo se depois eu ficava com a impressão de ter me transformado em uma jibóia que acabara de engolir uma capivara e tinha que ficar paradinha até terminar a digestão. Foi então que o veganismo entrou na minha vida e eu tive que adaptar essa receita. A original usava creme de leite e queijo gruyère. Substituí o creme de leite por creme de castanha, juntei um pouco de cebola e alho refogados (pra aumentar o sabor) e fiz uma farofinha  de castanha do Pará (que uso da mesma maneira que usaria parmesão ralado) e voilà: nasceu um gratin bem mais leve e tão saboroso quanto.  A batata cozinha no creme e absorve uma parte dele, ficando ultra macia e saborosa. A “farofa” acrescenta, além de sabor, um contraste de texturas (macio/crocante) e deixa o prato mais interessante.

Nessa receita, e em todas as que preparo na minha cozinha, não uso creme de soja por três motivos. Primeiro porque não é vendido onde moro. Segundo porque prefiro limitar o consumo de soja e seus derivados aqui em casa. E, finalmente, porque prefiro o gosto do creme de castanha de caju. Faz dois anos que adotei esse creme e mesmo depois de ter testado creme de soja, de arroz, de aveia e até de amêndoa ele continua sendo, de longe, o meu preferido: suave, ultra cremoso e com zero gosto de castanha. Quando um amigo onívoro come esse creme pela primeira vez sempre pergunta “Isso é creme de leite?” Sei que é mais prático comprar creme de soja no supermercado (pra quem encontra esse produto onde mora, claro) mas colocar castanha de molho algumas horas e triturar no liquidificador com um pouco de água não é tão complicado assim e o resultado é muito superior.

Acredito que aí no Brasil os termômetros não parem de subir mas não deixe a temperatura alta ser um obstáculo entre você e esse gratin. Quando colocar a primeira garfada na boca feche os olhos e imagine que a neve está caindo lá fora. Se preciso, abra todas as janelas e ligue o ventilador.

 

Gratin Dauphinois Vegano(batata gratinada com creme)

Essa receita fica perfeita  em uma travessa de 26cmx15cm. Se a sua travessa for maior, a camada de batata ficará muito fina e o creme vai secar antes da batata cozinhar. Se você só tiver travessas grandes, eu aconselho dobrar a quantidade de ingredientes. Se sobrar gratin, guarde o resto na geladeira e aqueça no forno, coberto com papel alumínio, antes de servir. O prato pronto se conserva dois dias na geladeira. Sirva acompanhado com salada verde e, se quiser um prato ainda mais robusto, tofu grelhado.

 

4 batatas médias

1 cebola

2 dentes de alho

¾ x de castanha de caju natural (do tipo que não foi torrada, nem salgada), de molho por 6 horas

1 ½ x de água

½ cc de amido de milho (maizena)

1 cs de azeite

1/3 cc de noz moscada, de prerefência ralada na hora

sal e pimenta do reino a gosto

 

pra polvilhar:

10 castanhas do Pará

2cs de farinha de rosca

1cs de azeite

¼ cc de sal

 

Aqueça o forno em temperatura média/alta. Descasque a cebola, corte ao meio (no sentido horizontal) e faça fatias finas. Descasque e pique o alho. Aqueça 1cs de azeite em uma panela pequena e refogue a cebola durante alguns minutos. Quando estiver bem dourada, junte o alho e refogue mais dois minutos. Desligue o fogo e reserve. No liquidificador, junte as castanhas escorridas (jogue fora a água na qual elas ficaram de molho), 1 1/2 x de água, o amido de milho, a noz moscada e uma pitada generosa de sal. Bata durante um minuto, ou até que as castanhas se desfaçam completamente (esfregue um pouco do líquido entre os dedos, se não sentir mais nenhum grãozinho está pronto). A mistura ficará bem líquida, mas ela vai se transformar em um creme espesso no forno. Reserve esse líquido (deixe dentro do liquidificador). Descasque e corte as batatas em fatias finíssimas, quase transparentes. Eu uso a faca, mas se preferir pode usar um aparelho manual pra fatiar (alguns ralos tem uma parte específica pra fatiar). Como já disse, o ideal é usar uma travessa pequena, de 26cmx15cm. As instruções que vou dar agora são pra uma travessa com essas dimenções. Espalhe um pouco de creme no fundo da travessa e por cima disponha 1/3 da batata, arrumando cada fatia ligeiramente sobre a outra (coloque uma primeira fatia, ponha a segunda em cima da metade da fatia anterior e assim por diante). Tempere generosamente com sal e pimenta do reino e espalhe metade da mistura de cebola e alho refogados. Regue tudo com 1/3 do creme. Repita o processo mais duas vezes. No final você terá três camadas de batata, duas de cebola e alho e tudo terá sido temperado com sal e pimenta e regado com creme. Cubra tudo com papel alumínio e asse até a batata ficar bem macia. Pra testar, espete o gratin com um garfo: ele tem que atraverssar as batatas sem nenhuma resistência. Quando a batata estiver cozida, retire o papel alumínio e deixe gratinar descoberto por mais 5 minutos.

Enquanto o gratin está no forno, prepare a mistura pra polvilhar. Em uma frigideira pequena, toste (a seco) as castanhas do Pará, até que elas fiquem ligeiramente douradas de todos os lados. Transfira pra uma táboa de cortar legumes e deixe esfriar. Na mesma frigideira, aqueça 1cs de azeite e doure a farinha de rosca, mexendo sempre com uma colher de pau pra não queimar. Alguns minutinhos são suficientes pra deixar a farinha de rosca crocante. Desligue o fogo e deixe esfriar na frigideira. Com uma faca bem amolada, pique as castanhas do Pará o mais fino possível. Uso uma faca grande e pesada e em menos de um minuto trasformo as castanhas em farofa. Imagino que um pilão faria  esse trabalho em menos tempo. Junte a farinha de rosca com as castanhas picadas, acrescente o sal e misture bem. Quando o gratin estiver pronto, polvilhe com essa mistura antes de servir. Sirva acompanhado de uma salada verde. Serve duas pessoas (com fome) como prato único, ou quatro pessoas como acompanhamento.