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pasta com couve flor assada e molho de nozes

Lavar louça produz um efeito curioso na minha pessoa. Enquanto minhas mãos estão ocupadas, minha mente levanta voo. Impressionante como encarar fixamente a parede em cima da pia funciona como um trampolim pra minha imaginação. E olha que estou falando de uma parede coberta de azulejos beges sem graça. Nem ouso imaginar o tipo de devaneio que uma janela (com uma paisagem) desencadearia.

Por exemplo, outro dia estava eu a pensar, entre espuma de detergente e pratos sujos, o seguinte absurdo: se eu pudesse convidar qualquer pessoa pra jantar aqui em casa, quem eu convidaria? Pro exercício ficar ainda mais interessante me dei o direito de escolher entre vivos e mortos. Tem quem pense no que levaria pra uma ilha deserta, ou quem levaria pra cama… Eu, graças à minha obsessão com comida, penso em quem convidaria pra jantar.

Primeiro pensei em grandes personalidades, ídolos e heróis. Clarice Lispector sempre me fascinou, mas seu jeito arisco (que descobri em uma antiga entrevista da TV Cultura) me assusta. E jantar assustada deve dar indigestão. Por mais que eu admire Gandhi, seus votos de frugalidade fazem dele a pessoa menos recomendada pra dividir um jantar gourmet. Ivan Illich, meu herói absoluto, diria coisas tão incríveis que meu interesse pela comida desapareceria completamente.

Depois pensei em convidados que fazem parte da minha lista dos mais atraentes. Adriana Calcanhotto, por quem eu cultivei uma paixão platônica durante toda a adolescência, Chico Buarque, e sua voz absolutamente deliciosa, Jodie Foster, que fala Francês com um sotaque irresistível… Todos têm em comum a inteligência, que pra mim é o maior afrodisíaco. Só tem um problema aqui: pessoas extremamente inteligentes me fascinam, me atraem e… me intimidam. Dos três citados acima só cheguei perto de Adriana Calcanhotto e fiquei completamente paralisada. Se a cozinheira estiver paralisada o jantar será um desastre. E a última coisa que quero nessa vida é que Chico Buarque volte pro Rio falando mal da minha comida. O que aconteceria com a minha reputação de cozinheira?

A solução seria convidar uma pessoa bacana e divertida, mas que não fizesse parte nem da lista dos heróis nem da lista dos mais atraentes. Então pensei em Jessier Quirino, um poeta/contador de causos que acho fantástico. E ele é da Paraíba, então é um vizinho meu no Brasil. Imaginei ele chegando aqui em casa…

-Opa! Então você é de Natal? Imagino que preparou algo da terrinha. Adoro carne de sol, camarão…

– Jessier, eu sou vegana.

-Você é o quê, minha filha?

-Vegana. Sabe como é, não como nenhum animal, nem leite, nem ovos…

-Agora pronto! Vim parar nesse fim de mundo pra jantar vento?

Então desisti de convidar Jessier Quirino. Zeca Baleiro é um moço bacana. Não é tão engraçado quanto Jessier, mas tem uma das vozes mais lindas que já ouvi e tenho certeza que seria uma boa companhia. E além de ser outro vizinho do Nordeste (ele é do Maranhão), ele é descendente de libaneses.

– Seja bem-vindo, Zeca!

– É um prazer estar aqui na Palestina. Sabia que meus avós eram libaneses?

-Sim, sim.

-Gosto muito do Oriente Médio. Acho a comida daqui fantástica! Essa ruma de carneiro assado, hum… A propósito, qual é o menu?

-(Suspiro…) Francamente, Zeca, tanto problema aqui no Oriente Médio e você fica aí pensando em comida! Esperava mais sensibilidade da sua parte.

E assim acabaram meus sonhos de convidar alguém famoso pra jantar aqui em casa. Não acredito que pessoas onívoras gostariam de ser tele-transportadas pra Palestina pra dividir um jantar com uma brasileira vegana.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: o prato que serviria nessa ocasião absurda seria essa massa com couve-flor assada e molho de nozes. Essa é a minha arma (comestível) infalível pra quando onívoros vêm comer aqui em casa. Mesmo os onívoros que antipatizam com a culinária vegetal adoram. Então pensei que seria legal dividir essa receita com vocês. Se por acaso algum dia Chico Buarque bater na sua porta na hora do jantar, você estará preparado(a).

pasta com couve flor assada e molho de nozes2

Massa com couve-flor assada e molho de nozes

Esse molho de nozes foi inspirado de uma receita tradicional italiana. Usar pão pra fazer um molho pra macarrão pode parecer uma ideia maluca, mas confie em mim (e nos italianos). O pão se mistura com o azeite e a água e se transforma em uma emulsão extremamente cremosa. Todo mundo pensa que tem creme no molho. As nozes casam maravilhosamente bem com a couve-flor e o tomate seco deixa tudo ainda mais irresistível. Não se assuste com a quantidade de couve-flor. Acho que assim fica mais gostoso e a textura fica mais interessante. E acreditem quando digo que esse prato amolece o coração de qualquer onívoro (ou não).

1kg de couve-flor, cortada em pedaços pequenos (buquês e talos)

1/2x de nozes

1x de pão picado (pode ser integral ou não)

1-2 dentes de alho, de acordo com o seu gosto

3cs de azeite extra virgem

2cs de tomate seco picado (de preferência do tipo que não é conservado no óleo)

1/2cs de levedo de cerveja maltado (opcional. Não use levedo comum!)

Sal e pimenta do reino a gosto

Um punhado generoso de salsinha fresca

250g de macarrão (tagliatelle e penne são os meus preferidos aqui)

-Em uma travessa grande, regue a couve-flor picada com 2cs de azeite, sal e pimenta do reino a gosto e leve ao forno quente até ficar ligeiramente dourada e macia, mais ainda ligeiramente crocante (al dente). O tempo de cozimento vai depender do seu forno (aqui em casa leva de 25 a 35 minutos). Mais explicações sobre como assar couve-flor aqui.

-Toste as nozes em uma frigideira seca até ficarem douradas dos dois lados.

-Coloque o pão, nozes tostadas, alho, 3cs de azeite, 1cs de tomate seco picado, a levedura de cerveja maltada (se estiver usando), 1/2x de água, sal e pimenta do reino a gosto no liquidificador e triture até ficar bem cremoso. Prove e corrija o sal, se necessário. Junte o resto do tomate seco, misture com uma colher (não triture) e reserve.

-Quando a couve-flor estiver assada baixe o fogo e coloque uma panela grande com água salgada pra ferver. Cozinhe o macarrão al dente. Antes de escorrer reserve 1/2x do líquido de cozimento. Coloque o macarrão escorrido de volta na panela junto com a couve-flor assada. Junte a água do macarrão ao molho (ainda no liquidificador), misture bem e distribua sobre o macarrão/couve-flor. Misture bem e sirva polvilhado com bastante salsinha fresca picada e mais pimenta do reino (melhor se for moída na hora). Rende 4 porções.

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Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Graças ao amor incondicional que Anne tem por macarrão, pude criar infinitas receitas de massas. Já que sou obrigada a comer macarrão pelo menos uma vez por semana, procuro criar pratos que me agradem, acrescentando sempre uma dose generosa de legumes. O bom de comer algo que não gosto muito é que sou extremamente exigente com essas receitas e acabei me tornando uma expert em macarrão, o que nem de longe eu sonhava em ser antes de Anne entrar na minha vida. Sabe como é, quando a gente adora um tipo de comida qualquer versão dela (bem preparada ou não) agrada. Eu sou louca por sopa e, independente do que coloco na panela, dificilmente acho o resultado final ruim. Sopa pra mim é uma delícia de qualquer jeito. Já macarrão, que raramente sinto vontade de comer, precisa ser muito, muito bom pra me empolgar.

Pensando nisso resolvi dividir com vocês algumas dicas pra preparar macarrão capaz de empolgar até quem torce o nariz pra ele. Sei que todo mundo sabe como cozinhar esse cereal e ele é um dos primeiros pratos que aprendemos a preparar (em alguns casos, o único). Mas vi tanto macarrão sendo massacrado por aí que achei que algumas dicas seriam mais que úteis. Lá vai:

-Os italianos costumam dizer que fora da Itália cozinhamos o macarrão demais e salgamos a água do cozimento de menos. Pra cozinhar o macarrão nas regras da arte, leve uma grande quantidade de água ao fogo e quando começar a ferver junte uma dose generosa de sal (se você acrescentar o sal no início, a água demorará mais pra ferver). O que significa “uma dose generosa de sal”? Na Itália é costume dizer que a água onde cozinhamos o macarrão deve ser tão salgada quanto o mar Mediterrâneo. Nunca deixo minha água tão salgada quanto o mar, pois tenho pena de estruir tanto sal (afinal aquela água toda vai embora pela pia depois que escorremos o macarrão), mas chego perto. Prove um pouco da água e se não estiver quase tão salgada quanto o mar, junte mais sal.

– Cozinhe o macarrão al dente. Isso significa que ele deve ficar macio, mas ainda ligeiramente firme. Não precisa ter medo de comer macarrão cru no jantar. Durante o processo de escorrer a massa, misturar com o molho (que também deve estar quente) e servir, ela continua cozinhando e quando você começar a comer estará perfeitamente cozida. Pode confiar. Se, ao contrário, você esperar o macarrão cozinhar totalmente antes de escorrer, ele vai acabar passando do ponto. E nada menos apetitoso do que papa de macarrão.

– Antes de escorrer a massa, retire uma xícara da água do cozimento e reserve. Essa água, rica em amido, ajuda o molho a “colar” na massa e também serve pra afinar um molho que ficou espesso demais. Nem sempre uso a água reservada, mas às vezes ela é extremamente útil (principalmente quando uso molhos à base de creme).

– Outra regra de ouro: sempre prepare o molho antes de cozinhar o macarrão. O molho pode esperar (e ser requentado sem problemas), já o macarrão, não. A exceção aqui é macarrão ao alho e óleo, já que o molho fica pronto em segundos e não pode ser requentado.

– A única maneira de fazer com que sua massa não grude é escorrer o macarrão e misturá-lo imediatamente ao molho. Mais uma razão pra fazer o molho antes de cozinhar a massa. Esqueça essa história de colocar óleo na água do cozimento e nem pense em “enxaguar” seu macarrão depois de cozido (além de esfriar o macarrão, o enxague retira o amido que envolve a massa e o molho não vai aderir).

– Cada forma de macarrão casa melhor com um certo tipo de molho, mas acho que é importante levar em consideração suas preferências. Aqui em casa gostamos de usar espaguete com molhos de tomate leves e com legumes ao azeite (como a receita de hoje). Usamos massas longas e chatas, como fettuccini e linguini, com molhos à base de creme e molhos brancos. Já massas curtas, como pene, parafuso e concha, ficam ótimas em saladas frias e em gratinados. Mas se suas preferências são diferentes, siga seu instinto. Minha dica aqui é: esqueça os manuais e escolha a massa que preferir. O mais bacana de fazer a própria comida é que podemos deixa-la exatamente do jeitinho que a gente gosta e garanto que a polícia do macarrão não vai bater na sua porta se você servir espaguete com molho branco.

– Mais uma dica que vai contra a tradição. Sabe como os italianos vivem dizendo que nós (os não italianos) colocamos molho demais no macarrão? É verdade e eu serei a primeira a concordar que isso estraga um pouco o prato. Pra mim três fios de macarrão nadando em uma piscina de molho está mais pra sopa do que outra coisa. Porém macarrão é algo tão pobre em nutrientes (a composição da maioria das massas secas vendidas em supermercados é farinha de trigo e água, ou seja, carboidrato com pouca proteína e praticamente nenhuma vitamina nem mineral) que acho importante juntar uma quantidade boa de ingredientes nutritivos. Não precisa afogar sua massa no molho, mas não tenha medo de carregar nos legumes, leguminosas e ervas. Sua saúde e suas papilas vão agradecer.

– Nem só de parmesão vive o macarrão. Se você é vegano e está a procura de um substituto vegetal saboroso pra esse queijo, ou se você é onívoro/vegetariano, mas gostaria de ampliar seus horizontes em matéria de cobertura pra massas, experimente meu mix de sementes ou meu parmepão. Outra maneira simples e de aumentar o sabor e os nutrientes da sua massa é polvilhá-la com castanhas do Pará raladas.

– E já que estamos falando de ingredientes pra “finalizar” o macarrão pronto, pimenta do reino moída na hora e sal marinho (de preferência em flocos) polvilhados diretamente sobre o prato, no momento de servir, fazem uma imensa diferença no produto final. Pimenta do reino em pó perde seu aroma rapidamente e se você ainda não tem um moinho de pimenta, corra e compre um. E se você tem um azeite extra virgem especial (aquela garrafinha que custou uma fortuna), um fio sobre o prato pronto realçará bastante o sabor de suas massas (com uma exceção: molhos brancos cremosos não precisam da dose extra de azeite).

Agora passemos à receita de hoje. Esse espaguete com abobrinha e espinafre foi a minha adaptação de uma ideia simples que Anne teve outro dia. Lembram que passei duas semanas com o pé enfaixado, com o tendão de Aquiles do pé direito inflamado? Anne acabou preparando vários jantares durante minha convalescência e um deles foi macarrão com abobrinha. Confesso que quando ela anunciou o menu desconfiei que aquilo não ia ser muito bom, mas pra minha surpresa o prato era uma delícia. Desde então preparei esse espaguete várias vezes, mas não pude resistir à tentação de fazer algumas melhoras. Como a criadora do prato aprovou a minha versão, e que esse blog tem poucos pratos com massa, fiquei com vontade de publicar a receita aqui.

Imaginem que um espaguete no alho e óleo se juntou com abobrinhas grelhadas e espinafre cozido. O prato é suculento, perfumado e extremamente saboroso. Eu, que nunca gostei de macarrão no azeite e exigia sempre molho de tomate ou molho branco cremoso na minha massa, estou encantada com essa receita.

Espaguete com abobrinha grelhada, espinafre e alho

Cozinho os legumes na mesma frigideira, em etapas, por isso é importante usar a maior e mais funda que você tiver. Pra transformar essa receita em um prato completo, junte 1x de grão de bico cozinhado (escorrido e temperado com sal) aos legumes antes de acrescentar o macarrão. Também gosto de polvilhar esse prato com castanhas do Pará raladas: fica ainda mais gostoso e nutritivo.

2 abobrinhas pequenas (aproximadamente 5x depois de cortadas)

200g de espinafre

4-8 dentes de alho (de acordo com o seu gosto)

200g de espaguete cru

Azeite, sal e pimenta do reino

Prepare os legumes. Lave as abobrinhas e corte cada uma ao meio, no sentido do comprimento. Em seguida corte cada metade em fatias finas, criando meia luas.  Corte o alho em fatias finíssimas. A quantidade vai depender do seu gosto, mas acho que quanto mais alho você usar, mais saboroso ficará o prato. Lave o espinafre e pique finamente. Aqueça 1cs de azeite em uma frigideira grande e doure as fatias de abobrinha em fogo alto. Mexa bem pra dourar as fatias do outro lado. Esse processo é bem rápido e a abobrinha pode passar de dourado pra queimado em poucos segundos, logo não saia de perto do fogão. Baixe o fogo e deixe cozinhar mais alguns minutos, até ela ficar bem macia. Empurre pros lados da frigideira, despeje um pouquinho de azeite no centro e doure o alho em fogo baixo. Mais uma vez, fique de olho, pois o alho só precisa de alguns segundos pra dourar e queima muito facilmente. Misture o alho frito com as fatias de abobrinha e empurre tudo pra um cantinho da frigideira, deixando espaço pra cozinhar o espinafre. Despeje o espinafre picado (não precisa acrescentar mais azeite) e cozinhe até ele murchar e quase toda a água evaporar. Misture todos os legumes, tempere com sal e pimenta do reino a gosto e reserve, coberto, enquanto cozinha o espaguete. Ferva bastante água em uma panela grande. Quando começar a ferver, junte um dose generosa de sal e o espaguete cru. Cozinhe até ficar al dente (macio, mas ainda ligeiramente firme). Pouco antes do macarrão ficar pronto, aqueça os legumes. Escorra o espaguete e despeje na frigideira com os legumes. Regue com 1cs de azeite e misture bem. Prove e corrija o tempero. Sirva imediatamente, polvilhado com mais pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e, se quiser, castanhas do Pará raladas. Rende 2 porções como prato principal.

Macarrão gratinado com brócolis

Já expliquei aqui no blog que não sou muito chegada a macarrão, mas acontece que a senhora papacapim, aquela fotógrafa francesa que casou comigo, adora. Ela poderia comer macarrão todos os dias e ser feliz. A única coisa que a impede de fazer isso é que a cozinha é o meu território (ela só tem direito de entrar lá pra lavar a louça) e quem escolhe o que a gente come aqui nessa casa sou eu (e tenho dito!). Mas, pra ninguém me chamar de tirana (não que ela esteja reclamando dos meus quitutes, longe disso!), o cardápio da sexta é ela que escolhe. E adivinha o que ela escolhe s-e-m-p-r-e? Pois é, sexta é dia de macarrão aqui em casa. Por que sexta? Porque é o dia mais puxado pra ela, quando ela cobre várias ações (pense nos fotógrafos sem fronteiras) e depois de passar horas tentando fotografar dentro de nuvens de gás lacrimogêneo, desviando das  bombas de som e se protegendo das balas, bem, ela merece um pratão de macarrão. E minha tirania gastronômica amansa quando a senhora papacapim precisa de reconforto.

Dentre todas as massas que criei especialmente pra essas ocasiões, minha versão vegana e melhorada de um prato americano chamado macaroni and cheese (mac and cheese pros íntimos) é provavelmente a sua preferida.  A receita original usa leite, creme e dois tipos de queijo, resultando em uma quantidade obscena de gordura saturada e colesterol. Sei que esse tipo de bomba agrada muita gente, mas eu prefiro pratos onde minhas papilas possam sentir claramente os sabores e não se afogar em uma piscina de gordura.  Na minha versão uso um molho a base de castanha de caju e levedo de cerveja maltado, que lembra vagamente o sabor de queijos fortes, e junto bastante brócolis pra deixar o sabor ainda melhor (essa é a parte “melhorada” da receita). Confesso que inicialmente a ideia era aumentar os nutrientes do prato, mas descobri que brócolis misturado com um molho cremoso é divino.

Sei que na receita uso uma xícara inteirinha de castanha de caju (aproximadamente 120g) e que a quantidade de gordura das oleaginosas assusta muita gente. Mas essa gordura é boa e totalmente isenta de colesterol (só existe colesterol em produtos de origem animal).  Não aconselho meu macarrão gratinado pra quem estiver de regime, claro (mas quem comeria macarrão com queijo e creme pensando em perder peso?), mas quando a gente precisa de uma comida que reconforta, super saborosa e cremosa, esse prato é mais do que indicado. Mesmo se você tem um trabalho menos perigoso e estressante do que a senhora papacapim.

 

Macarrão gratinado com brócolis

Na hora de gratinar, use uma travessa pequena, pois se a camada de macarrão ficar muito fina (o que aconteceria em uma travessa grande) ele vai ressecar. O levedo de cerveja maltado é o que deixa a mistura com gostinho de queijo, mas já fiz só com um pouquinho de levedo não maltado e o resultado também ficou bom. Tradicionalmente o mac and cheese é coberto com pão torrado esmigalhado, mas eu prefiro polvilhar meu parmepão na hora de comer. Sirva acompanhado de uma salada verde pra balancear tanta cremosidade.

250g de macarrão curto (maccheroni  ou penne)

4x de brócolis picado

2 dentes de alho picados

1cs de azeite

Parmepão pra servir

Molho

1x de castanha de caju, de molho por 6 horas ou mais

1cc de amido de milho (ou araruta, ou polvilho)

1cc rasa de levedo de cerveja (se for maltado, use 1cs cheia)

1cs de suco de limão

1/4cc de cúrcuma* (açafrão da terra)

1/2cc de alho em pó

1cs de cebola desidratada (opcional)

1/2cc rasa de noz moscada ralada

Sal e pimenta do reino a gosto

1 1/2x de água

Aqueça o azeite e refogue o brócolis durante alguns minutos. Não precisa deixar amolecer totalmente, pois ele ainda irá pro forno. Junte o alho picado e refogue mais alguns segundos, só o suficiente pro alho dourar levemente. Tempere com sal e reserve. Cozinhe o macarrão em bastante água salgada, separe 1/2x da água de cozimento e escorra. O macarrão deve ficar ainda bem firme, pois terminará de cozinhar no forno.  Reserve. Enquanto o macarrão cozinha prepare o molho. Bata todos os ingredientes no liquidificador até as castanhas se dissolverem completamente. Seja paciente, pois isso pode levar alguns minutos. Cozinhe o molho em fogo baixo, até engrossar um pouco. Desligue o fogo, despeje o macarrão, o brócolis e a água reservada na panela e misture bem. O molho vai ficar bem líquido, mas isso é importante pro macarrão não ficar seco enquanto assa no forno. Prove e corrija o tempero, se necessário. Transfira pra uma travessa que possa ir ao forno e asse em forno alto até ficar ligeiramente dourado. Cuidado pra não cozinhar demais. Prove um macarrão: se ele estiver macio e o molho borbulhante e espesso o prato está pronto. Pra conseguir um efeito realmente gratinado você precisa de um forno com a função “grill”. Meu forno tem, então depois de cozido deixo gratinar 4-5 minutos. Sirva acompanhado de uma grande salada verde e de parmepão (polvilhe as porções diretamente sobre o prato). Rende 3-4 porções.

 *Cúrcuma não é indispensável, mas é responsável pela cor amarelada do prato. Sem ela o sabor é o mesmo, mas o visual fica mais pálido.

Minha lasanha preferida

Foi uma semana difícil. Daquelas em que nada dá certo e os problemas não param de se multiplicar. A nuvem negra foi tão pesada que atingiu até minha cozinha. Fiz um bolo de maçã que foi parar no lixo (apesar da minha consciência ter doído, como acontece sempre que desperdiço comida) e almocei paratha (um pão indiano) cru, pois a receita não deu certo e a massa não assou direito (depois do episódio do bolo, não tive coragem de estragar comida pela segunda vez na mesma semana). Torço pra que o culpado disso tudo seja o tal do inferno astral, já que meu aniversário está próximo. Mas sem querer esperar a mudança de idade pra ver o fim dessa onda de acontecimentos negativos, resolvi tomar meu destino em mãos e melhorar a situação imediatamente. Fazendo lasanha.

Às vezes tudo que você precisa é de um belo prato de lasanha pra esquecer a semana ruim e sentir alegria imediata. Não faço lasanha frequentemente. A verdade é que o reconforto em forma de massa e molho de tomate tem um preço: o prato é trabalhoso, demorado e deixa uma bagunça danada na cozinha. Quando penso em fazer lasanha, a imagem da pia coberta com panelas sujas acaba me fazendo desistir da ideia. Mas nas raras vezes em que resolvo ir em frente, me sento pra degustar o produto pronto e penso, com molho de tomate até as bochechas, que esse negócio é bom demais.  Anne então levanta a cara do seu pedaço e, com molho branco escorrendo pelo queixo, diz que eu devia fazer lasanha com mais frequencia. Isso, claro, até ela entrar na cozinha e descobrir que a pia se transformou em um Everest de louça suja. Bem, as lições a serem aprendidas aqui é que lasanha tem o poder de fazer seus problemas desaparecerem (momentaneamente) mas que isso vem com um preço (uma boa sessão de lavagem de prato).

Essa é a minha lasanha preferida, uma receita que criei alguns anos atrás e fui aperfeiçoando com o tempo. Fatias de beringela e abobrinha são grelhadas pra aumentar o sabor dos legumes, depois cobertas com espinafre, molho de tomate caseiro e um molho branco cremoso e perfumado com noz moscada. Tudo intercalado entre fatias de lasanha, que cozinham diretamente no molho e ganham um sabor ainda mais especial. Esse é o prato perfeito pra impressionar aquele comedor de carne que torce o nariz ao ouvir a palavra “vegetariano” e acha que vegano só come alface e broto de soja. Você precisa provar pra se convencer que é possível preparar um prato 100% vegetal, sem colesterol, com pouca gordura, cheio de fibras e nutrientes e absolutamente delicioso ao mesmo tempo. Como disse, é um prato que exige tempo, mas que vale a pena ser preparado de vez em quando. Afinal, você também merece lasanha.

Minha lasanha preferida (vegana)

Gosto de usar folhas de lasanha de espinafre (por isso na foto acima a massa é ligeiramente esverdeada), mas você pode escolher uma massa tradicional. No meu molho branco, uso creme de castanha de caju porque aqui não tem creme de soja, mas também porque acho mais interessante tanto do ponto de vista nutricional como gastronômico. Como sei que é mais prático usar um creme de soja pronto, adaptei a receita pra ser usada com esse ingrediente.

1 berinjela média

2 abobrinhas médias

5-6 x de espinafre

8-10 folhas de lasanha (confira a lista de ingredientes na embalagem  pra ter certeza que não tem ovos)

azeite, sal e pimenta do reino

Molho de tomate

1 cebola grande picada

½ pimentão vermelho picado (opcional)

4 dentes de alho

4x de tomate picado

1cc de ervas desidratadas (uma mistura de alecrim, manjericão e orégano é ideal)

2cs de azeite

sal e pimenta do reino a gosto

Molho branco

½ cebola ralada

2 dentes de alho amassados

1cs de azeite

2 caixinhas de creme de soja (gosto do da Batavo)

1/3 cc de noz moscada (de preferência ralada na hora)

sal e pimenta do reino a gosto

Comece preparando os legumes grelhados. Corte a berinjela ao meio no sentido vertical, depois corte cada metade em fatias de 2cm de espessura. Corte as abobrinhas em fatias de 1,5cm. Unte uma placa de fazer biscoitos (ou uma forma grande e rasa) com azeite e disponha os legumes em fatias. Regue com mais azeite (cuidado pra não exagerar), polvilhe sal e pimenta do reino e leve ao forno médio/alto até os legumes ficarem macios e caramelizados em alguns lugares (no meu forno 25 minutos são suficientes). Reserve.

Prepare o espinafre. Lave bem o espinafre e pique em pedaços pequenos. Aqueça um pouquinho de azeite em uma frigideira larga e despeje o espinafre picado. Mexa com uma colher de pau até as folhas murcharem um pouco e reduzirem de volume (não acrescente água). Não cozinhe demais o espinafre, lembre-se que ela continuará a cozinhar no forno. Desligue o fogo, tempere com sal a gosto e reserve.

Prepare o molho de tomate. Esquente o azeite e refogue a cebola até ficar transparente. Junte o pimentão vermelho, se estiver usando, e o alho e refogue mais dois minutos. Junte os tomates picados, uma boa pitada de sal e as ervas desidratadas. Cozinhe tampado, em fogo baixo, até os tomates se desintegrarem. Desligue o fogo, corrija o sal e junte uma pitada de pimenta do reino. Quando o molho amornar, passe no liquidificador por alguns segundos, deixando uns pedaços de tomate inteiros. Verifique a quantidade de molho obtida. Você vai precisar de 600ml de molho de tomate pra fazer essa receita. Se tiver obtido um pouco menos, complete com água até atingir os 600ml (se tiver um pouco mais não tem problema). Isso também ajuda a afinar o molho. A massa não será cozinhada na água e sim no forno com os outros ingredientes,  por isso é importante que o molho não seja muito grosso. Reserve.

Faça o molho branco. Aqueça o azeite e refogue a cebola ralada e o alho amassado até ficar ligeiramente dourado. Junte o creme de soja, a noz moscada, um pitada de pimenta do reino e sal a gosto. Mexa bem e desligue o fogo. Reserve.

Aqueça o forno em temperatura média.

Monte a lasanha. Disponha os componentes (legumes, molho de tomate, molho branco e folhas de lasanha crua) sobre sua zona de trabalho (mesa ou bancada da pia), um ao lado do outro, pra facilitar a montagem. O ideal é usar uma travessa que meça em torno de 26cmx15cm. Vou dar as instruções pra montar a lasanha nessa travessa, se a sua for maior adapte as quantidades. Despeje um pouco de molho de tomate e de molho branco na travessa e espalhe cobrindo todo o fundo com uma camada fina de líquido. Disponha duas folhas de lasanha sobre o molho. Se necessário, quebre um pedaço da folha de lasanha pra que ela fique menor e caiba na forma (eu quebro 1/3 da folha-diminuindo o comprimento- e uso os pedaços quebrados pra cobrir os “buracos”). Cubra a massa com uma camada de molho de tomate e por cima disponha fatias de legumes grelhados e um pouco de espinafre cozido. Despeje colheradas do molho branco e repita a operação mais duas vezes, sempre nessa sequencia: folhas de lasanha, molho de tomate, legumes grelhados, espinafre e molho branco. Depois de colocar as últimas folhas de lasanha (eu uso 8 ao todo), as derradeiras camadas serão de molho de tomate e molho branco.  Cubra com uma folha de papel alumínio pra evitar que a lasanha resseque e asse até a massa ficar cozida. Espete com um garfo pra testar. Nos últimos 15 minutos, remova o papel alumínio pra lasanha gratinar ligeiramente. Tire do forno e deixe esfriar 5 minutos antes de servir. Serve 4.

Como esqueci de cobrir a travessa com papel alumínio, a última camada de molho evaporou e minha lasanha ficou um pouquinho ressecada em cima, como você pode ver na primeira foto.

Essa foto, de uma lasanha que fiz tempos atrás na casa da minha amiga Cida em Londres, mostra como ela deveria ter ficado. Não lembro exatamente o que coloquei aqui, mas sei que tinha um molho de queijo vegano delicioso.

(Minha adorável esposa fotógrafa está me dizendo que essa foto não atinge o nível de qualidade do blog. Concordo plenamente com ela. Tirei a foto bem antes de ter começado a me interessar por fotografia e não estava tentando fazer uma foto bonita, só registrar o momento. Decidi publicar a foto aqui porque embora totalmente amadora, sempre que olho ela me dá água na boca.)