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Sahar Vardi

Em uma conferência com objetores de consciência israelenses na cidade palestina de Beit Sahour (Sahar está no centro).

Depois de ter publicado a história de três amigos palestinos aqui no blog (vocês podem ler os relatos aqui, aqui e aqui), gostaria de escrever sobre uma amiga israelense. Durante minhas palestras e conversas sobre a Palestina escutei algumas vezes coisas do tipo “Ah, mas você escolheu ficar do lado dos Palestinos”, como se as informações que eu repasso fossem tendenciosas (sempre respondo que escolhi o meu lado, sim: os diretos humanos). Mas é por isso que hoje eu gostaria de dar a palavra a uma israelense. Sahar é uma das pessoas mais engajadas e interessantes que conheço e nessa entrevista ela fala sobre ativismo, a militarização da sociedade israelense (e suas consequências na população) e como ela imagina o futuro da região. Fiz essa entrevista ano passado e ela foi publicada originalmente na Revista Fórum de novembro.

Sahar Vardi tem 22 anos e estuda História e Educação na Universidade Hebraica de Jerusalém, cidade onde nasceu. Ela cresceu em uma família, segundo sua própria descrição, judia sionista e hoje é uma das ativistas israelenses mais engajadas contra a ocupação militar na Palestina.

Aos 13 anos Sahar foi pela primeira vez aos territórios palestinos, acompanhada pelo pai. Durante a segunda intifada (2000-2002) o pai se tornou ativista, participando das ações realizadas pelo grupo israelense Ta’yush. Foi seu primeiro contato com palestinos. “Apesar de ser muito fácil visitar uma cidade palestina, é possível viver toda a sua vida em Israel e nunca encontrar um único palestino. Jerusalém é uma cidade mista, com mais de 36% de palestinos, mas aqui a segregação é total. Existem bairros exclusivamente judeus, escolas, ônibus… Não há interação entre palestinos e israelenses.” No vilarejo palestino de No’man ela participou de atividades com os habitantes, plantou oliveiras e ajudou a trocar a encanação de algumas casas. “A população de No’man é bastante instruída e todos falam Hebraico ou Inglês ou os dois, então foi fácil conversar com jovens da minha idade. A única diferença visível entre eu e aquelas pessoas era a cor da nossa carteira de identidade.” (Palestinos da Cisjordânia recebem identidades verdes) Nesse vilarejo Sahar viu o que a ocupação significa para o povo palestino. “A estrada que ligava o vilarejo à Jerusalém tinha sido fechada pelo exército israelense e o muro de separação construído por Israel isolou No’man dos outros vilarejos palestinos. Essa separação física estava ali para me convencer que não, nós não éramos iguais. A escola tinha me ensinado que a ocupação só existe por razões de segurança, para proteger os israelenses judeus, mas esse argumento desmoronou quanto entrei em contato com a população de No’aman.” Depois desse primeiro contato com pessoas “do outro lado do muro”, Sahar começou a participar de ações contra a ocupação israelense na Palestina, como as passeatas semanais contra a construção do muro e a confiscação de terras pelo governo israelense nos vilarejos de Al-Ma’sara e Bil’in.

Em Israel o serviço militar é obrigatório: três anos para os homens e dois anos para as mulheres. Mas ao completar 18 anos, Sahar se recusou a entrar para o exército. Junto com um pequeno grupo de jovens objetores de consciência, escreveu uma carta aberta ao Ministro da Defesa Israelense. O primeiro parágrafo dessa carta diz: “Nos recusamos a servir o exército em primeiro lugar e acima de tudo em sinal de protesto contra a política israelense de separação, controle, opressão e assassinato nos Territórios Palestinos Ocupados, pois acreditamos que oprimir, assassinar e semear o ódio não pode trazer paz ao mundo e que isso vai contra os valores fundamentais de uma sociedade que se diz democrática.” Junto com essa carta coletiva, Sahar escreveu uma mensagem pessoal onde dizia (extratos): “Em casa e na escola me ensinaram os direitos fundamentais, como justiça, liberdade e igualdade, mas muito cedo percebi que o país onde vivo nega esses direitos a milhões de pessoas para que eu possa desfrutar da ‘liberdade’ que ele me ensinou que todos merecem. Eu não posso ficar em um posto de controle e separar uma raça de outra, um tipo de carteira de identidade de outro, não posso bombardear cidades cheias de homens, mulheres e crianças, mesmo se isso for feito como parte de uma guerra, e não posso punir milhões de inocentes pelos crimes cometidos por alguns. É nossa obrigação como seres humanos não ferir os outros, é nossa obrigação recusar a participação de qualquer ação que possa prejudicar os outros, mesmo se estivermos seguindos ordens do nosso país. Eu me recuso a agir de maneira violenta, sob ordens ou não.”

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Sendo presa por soldados israelenses durante uma manifestação nos Territórios Palestinos Ocupados.

 A resposta do governo israelense aos jovens que recusam o exército é a prisão. Sahar ficou dois meses na cadeia e três meses em um centro de detenção. Depois de ser liberada, Sahar continuou suas atividades de ativista, mas começou a trabalhar de maneira mais ativa em Jerusalém. Ela trabalhou alguns anos no ICAHD (Comitê Israelense Contra Demolições de Casas), onde coordenava projetos de reconstrução de casas palestinas demolidas pelo governo israelense e organizava tours políticos em sua cidade natal. Hoje ela faz parte de uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense e propõe alternativas às pessoas que não querem servir o exército, oferecendo bolsas de estudos e programas de voluntariado no exterior. O sistema universitário em Israel é determinado pelo trabalho feito no exército, de modo que pessoas que não fazem o serviço militar não podem obter bolsas de estudos e, se um projeto de lei for aprovado, não poderão fazer certos cursos, como medicina e direito. Sahar explica que “embora essas leis se apliquem aos objetores de consciência, elas foram criadas para punir os árabes-israelenses, que não fazem o serviço militar”.  Paralelo aos estudos e ao trabalho, ela ainda participa regularmente de ações de solidariedade com o povo palestino e manifestações contra a ocupação.

Tive a sorte de escutar Sahar em duas conferencias, a primeira logo depois que ela foi liberada da prisão, a segunda alguns meses atrás, e acompanho com admiração o seu trabalho. Encontrei Sahar em uma tarde de junho, na Universidade Hebraica de Jerusalém. Ela tinha acabado de chegar de uma conferência na Grécia e já estava se preparando para a próxima viagem, à Alemanha, onde participaria de uma conferência sobre a militarização da juventude no mundo. Entre duas aulas, ela gentilmente se dispôs a responder algumas perguntas e conversar sobre sua vida e seu trabalho.

Você se define como “uma ativista de Jerusalém”. Quanto da sua vida foi modelado pelo ativismo?

Minha adolescência e minha vida adulta foram definidas em função do meu ativismo. Ele influencia o tipo de trabalho que faço, o que eu leio, o que eu como, o curso que escolhi na faculdade, as pessoas com quem decido conviver… Tudo na minha vida é influenciado pelo ativismo.

Qual foi a reação de sua família quando você se recusou a fazer o serviço militar?

Minha família não se surpreendeu, eles já imaginavam que eu faria isso. Aqui é relativamente fácil evitar o serviço militar obrigatório e eu poderia ter usados várias desculpas para não servir o exército. Por exemplo, 12% da população evita o serviço militar alegando motivos de saúde mental e há poucas chances que esse pessoal todo seja louco. Mas para mim era importante enviar uma mensagem ao meu governo, manifestar publicamente minha desaprovação. Em Israel não existe a opção de recusar de servir o exército. Ao completar 18 anos todo israelense se torna automaticamente soldado, independente da vontade de cada um. Então você, que é considerado um soldado, vai para a prisão não por ter se recusado à servir o exército, mas por ter desobedecido à ordem do seu comandante de ir para a sua base militar. Depois desses cinco meses de prisão e detenção, acabei sendo liberada por motivos de saúde mental, já que não é possível sair desse sistema alegando motivos políticos. Então eu sou oficialmente louca. Mas durante todo esse processo pude contar com o apoio da minha família, que também apoiou a decisão do meu irmão de fazer o serviço militar. Hoje ele segue carreira no exército, mas sempre se recusou a combater nos territórios palestinos. Fomos expostos à mesma realidade, mas seguimos caminhos diferentes e minha família respeita as minhas razões e as dele.

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Você trabalha atualmente em uma organização que promove a desmilitarização da sociedade israelense. Como acontece e quando começa o processo de militarização no seu país?

A militarização da sociedade começa muito cedo, na escola.  Nossos livros nos ensinam a contar ligando imagens de tanques, aviões de caça etc, aos números correspondentes.  Nas datas comemorativas os alunos enviam presentes para os soldados. Durante toda a nossa educação aprendemos que segurança justifica todo e qualquer ato e que o exército, e a ocupação nos Territórios Palestinos, é a única maneira de manter um lar para o povo judeu. Tudo é uma grande preparação para o exército, principalmente quando os alunos se aproximam da idade de fazer o serviço militar. Lições de História sobre a perseguição sofrida por judeus, os combates para obter o nosso país… Esse doutrinamento aplicado à população pode ser visto de maneira explícita todos os anos nas semanas entre abril e maio. Começa com Pesach, a páscoa judaica (comemoração da liberação do povo hebreu do Egito, travessia do mar vermelho e chegada à terra prometida), depois vem o dia da memória do holocausto, seguido do dia da memória dos soldados e, no dia seguinte, o dia da independência de Israel. A mensagem é muito clara: os judeus sofreram e foram perseguidos durante toda a História, o Holocausto é um bom exemplo disso, muitas pessoas lutaram e perderam a vida pra que hoje os judeus tivessem um país e é nossa obrigação seguir lutando se quisermos continuar vivendo aqui. O medo é um elemento importante no processo de militarização da sociedade e faz parte do sistema educacional israelense, cujo objetivo principal é formar bons soldados.

Quais são as consequências internas dessa militarização da sociedade?

Quando uma sociedade inteira passa por um sistema militar onde a única maneira de resolver problemas é através da violência, você cria uma sociedade muito violenta. Quando todos os jovens de 18 anos passam por um sistema que é por definição patriarcal e sexista, com estereótipos muito claros sobre o papel da mulher e do homem no exército, isso acaba se reproduzindo na nossa vida civil. Ao entrar no exército cada soldado homem recebe um cartão postal com a foto de um soldado sentado em cima de um tanque, o canhão estrategicamente posicionado entre suas pernas, com a seguinte frase: “Muitas coisas são duras no exército”. O cartão vem acompanhado de uma camisinha, caso a mensagem não tenha sido clara o suficiente. Nos ensinam que o serviço militar é uma parte indispensável da vida de todo israelense e se é assim que homens devem tratar as mulheres no exército, por extensão é assim que elas devem ser tratadas na sociedade.

Você faz parte do pequeno grupo de ativistas israelenses cujo trabalho e posições políticas vão contra a opinião da maior parte da população. Qual é a sua relação com o israelense médio?

Depende da situação. Se sou confrontada com pessoas cujas opiniões são extremamente diferentes das minhas, o que acontece o tempo todo, procuro manter a calma e ser paciente. Houve uma época em que um extremista sionista descobriu o meu número e me ligava constantemente dizendo montanhas de insultos. Eu sempre escutava e tentava responder educadamente, com argumentos racionais. Depois de algumas semanas ele acabou se acalmando e tivemos algumas conversas interessantes. Não sei se ele mudou de opinião, mas pelo menos ele escutou, talvez pela primeira vez na vida, uma opinião diferente. Alguns dos meus amigos de infância cresceram em colônias ilegais na Cisjordânia e ainda tenho contato com eles. Já aconteceu de encontrar colegas da escola durante uma manifestação na Cisjordânia, eu ao lado dos palestinos e eles em uniforme de soldado. Nessas ocasiões o diálogo é limitado, geralmente um olha para o outro e diz: “Então é isso que você está fazendo agora…”

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Logo após ter sido ferida por um soldado israelense durante uma manifestação na cidade palestina de Hebron.

Qual o papel dos ativistas israelenses na luta contra a ocupação militar nos Territórios Palestinos? O que você acha do conceito de “co-resistência”, segundo o qual israelenses lutam contra a ocupação ao lado dos palestinos?

Como israelense, é minha obrigação denunciar os crimes cometidos pelo meu governo e tentar fazer com que isso cesse. São meus impostos que financiam o exército, foi o meu voto que elegeu esse governo e é meu dever lutar por uma sociedade mais justa.  Nas ações contra a ocupação na Cisjordânia, a presença de ativistas israelenses contem um pouco a reação dos soldados, que seria muito mais violenta se houvesse somente palestinos ali. O fato de falar Hebraico também ajuda a acalmar um pouco os soldados. Durante essas ações, ativistas israelenses também podem tentar impedir que palestinos sejam presos. Se formos presos durante uma ação as consequências para nós serão mínimas (Israelenses presos durante ações contra a ocupação são liberados algumas horas depois, enquanto um palestino preso nas mesmas circunstancias pode ficar anos na cadeia). Claro que um ativista palestino e um ativista israelense não correm os mesmos riscos nem sofrem o mesmo tipo de repressão, mas co-resistência para mim não significa que estamos lutamos da mesma maneira, no mesmo nível. Mesmo entre israelenses a resistência é diferente: como mulher eu apanharei menos do que um ativista homem durante uma ação, mas ele será levado mais a sério do que eu. Mas são exatamente essas diferenças que nos permitem de agir de maneiras variadas, em vários setores. Porém co-resistir hoje é complicado devido à falta de visão comum entre os ativistas israelenses. Há muitas divergências de opiniões entre nós. Existe uma diferença clara entre gerações também. Os ativistas mais velhos, por exemplo, ainda servem o exército (Depois do serviço militar obrigatório, todo israelense deve servir o exército um mês por ano até a idade de 45 anos). Se Israel e Palestina fossem um único país haveria uma unidade na luta por justiça e a co-resistência seria mais fácil.

Que tipos de ações você se recusa a participar, por divergências de opinião com os organizadores ou por não concordar com os métodos empregados, por exemplo?

Ações que usem violência. Tenho minhas prioridades, mas se eu concordar com o objetivo da ação, participo mesmo sabendo que alguns dos participantes têm opiniões políticas diferentes das minhas. Apesar das divergências, se sinto que estamos trabalhando por um objetivo comum, não vejo problema em participar.

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Você vê o J14 com otimismo ou ceticismo? (No dia 14 de Junho de 2011 uma israelense de Tel Aviv colocou uma tenda no centro da cidade para protestar contra o preço elevado da moradia no país. Outros israelenses se juntaram a ela e esse foi o início de uma série de manifestações pedindo justiça social e uma melhor distribuição de riquezas. O movimento ficou conhecido como J14, ou Movimento por Justiça Social, e continua ativo.)

Sou otimista nesse sentido: enquanto o pessimista diz que a situação não pode piorar, o otimista diz: “Sim, sim, ela pode piorar!”. (Risos) Acho que as pessoas envolvidas nesse movimento têm boas intenções, mas eles pecam por quererem ser sempre “os bonzinhos”. O Movimento por Justiça Social quer agradar a todos, quer ser “mainstream”, mas é impossível fazer uma real mudança na sociedade sem irritar uma parte dela. Mas o movimento teve alguns efeitos positivos nas pessoas. Durante as manifestações muitos participantes foram presos e pela primeira vez na vida eles sentiram na pele a injustiça e a repressão da qual o nosso governo é capaz. Nesse sentido eles puderam se identificar com os palestinos e isso é muito importante. Então eu tenho esperanças, sim.

Como você imagina o futuro post ocupação? Um estado ou dois?

Definitivamente um estado. Sonho com um país formado por três federações: uma judia, uma árabe e uma para quem preferir não ser identificado nem como judeu nem como árabe. As pessoas precisam sentir que o fato de fundir Israel e Palestina em um único país não mudará a vida delas e que a diversidade cultural será preservada. Então esse país terá autonomia cultural, mas as leis serão as mesmas para todos. Como o que aconteceu na África do Sul depois do fim do apartheid. Um só país, para mim, não significa que os habitantes serão forçados a se homogeneizar nem a mudar o local de suas residências. Eu, por exemplo, não tenho nenhuma intenção de deixar Jerusalém e ir morar em Ramala (capital cultural e administrativa da Cisjordânia) com a minha namorada.  Não gostaria de viver dentro da sociedade palestina. Um estado com três federações daria essa opção à população, cada cidadão seria livre para escolher viver na federação com a qual tem mais afinidades, com a garantia de ser protegido pelas mesmas leis e usufruir dos mesmos direitos.

*Todas as fotos que aparecem aqui foram feitas por Anne Paq.

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No início desse mês o livro de receitas palestinas que eu criei pra arrecadar fundos pro projeto de mulheres no campo de refugiados de Aida ficou (enfim!) pronto. Além de ensinar a fazer 15 receitas tradicionais, o livro explica a situação dos refugiados palestinos e conta a história do projeto. Ele é o fruto de três árduos meses de trabalho e quando o segurei nas mãos pela primeira vez senti uma mistura de alegria e alívio. Nunca imaginei que fazer um livro (sozinha) fosse tão penoso: entre recolher as receitas, fotografar os pratos, escrever os textos e fazer o design/layout, quase perco o juízo. Mas agora que ele está aqui olhando pra mim, estou extremamente feliz por ter controlado a vontade de desistir e ter ido até o final. (Clique nas imagens pra aumenta-las.)

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No início queríamos usar o dinheiro da venda do livro pra fazer um jardim de infância pras crianças especiais do campo. Mas só tínhamos verba pra publicar cem exemplares e como o dinheiro não será suficiente pra dar início a esse novo projeto, decidimos deixar esse sonho pra mais tarde. Então o dinheiro do livro será usado pra organizar uma viagem pras dez famílias do projeto. Se tudo correr como o planejado, em abril iremos ao mar morto, passar o dia tomando sol, piquenicando e nos banhando naquela água salgadíssima. Devido à situação econômica difícil (a taxa de desemprego em Aida é de 70%!), essas famílias raramente saem do campo, então a viagem será o acontecimento do ano e desde janeiro as crianças só falam disso.

livro projeto3Queria mostrar algumas das fotos do nosso livro, pra vocês verem o mimo que ele ficou, e aproveitar pra compartilhar mais uma receita palestina. Adas fat é um prato muito humilde, feito com lentilha (que os palestinos chamam de “a carne do pobre”) e pão. Ele é consumido principalmente no inverno, quando o corpo precisa de alimentos que aquecem e reconfortam.  Essa receita é tradicionalmente vegana, mas a versão que vocês veem aqui é um tiquinho diferente da versão do livro. Islam, que me ensinou a fazer adas fat, usa somente cebola, lentilha, água e sal na sua sopa. Eu gosto de incrementar um pouquinho, juntando mais dois ou três ingredientes. Mesmo ‘incrementada’, essa receita é extremamente simples, barata e nutritiva. O tipo de receita que quebraria um galhão pros estudantes veg(etari)anos, ou qualquer pessoa que queira um jantar rápido, fácil de preparar, mas cheio de proteína (e completa!) e outros nutrientes.

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Em novembro, quando falei que estava escrevendo esse livro, alguns leitores ficaram muito interessados. Pensei em fazer uma versão digital do livro em Português, já que não seria viável enviar exemplares pra tão longe. Mas por causa dos meus diferentes projetos não terei tempo de traduzi-lo esse ano (o livro foi escrito em Inglês). Porém se alguma alma caridosa se oferecer pra fazer a tradução (são só 37 páginas, muitas delas com fotos), eu aceitarei de muito bom grado!

*Zaaki significa ‘gostoso’ em Árabe. O título completo do livro em Português é: Zaaki– Receitas palestinas saborosas direto da nossa cozinha no campo de refugiados de Aida.

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Adas fat (sopa palestina de lentilha coral e pão)

Lentilha coral cozinha mais rápido e tem um sabor mais suave do que lentilha verde. Ela é tradicionalmente usada em sopas, pois se desfaz durante o cozimento (nunca tente fazer uma salada com esse tipo de lentilha!). Se você não conseguir encontrar lentilha coral na sua cidade, sugiro essa outra receita palestina que usa lentilha comum.

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, ralados/picados

1x de lentilha coral

2 tomates, picados

Uma pitada generosa de cúrcuma

1 folha de louro

Azeite, suco de limão, sal e pimenta do reino a gosto

Pão, de preferência integral

Aqueça 1cs de azeite e doure a cebola. Junte o alho e cozinhe mais 30 segundos. Acrescente a lentilha coral, os tomates, a cúrcuma, o louro, sal e 1 litro de água. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar, coberto, até a lentilha ficar bem macia. Desligue o fogo e tempere com pimenta do reino, 1cs de azeite e suco de limão a gosto (usei o suco de  ½ limão grande). Prove e corrija o sal (talvez você queira junta mais um pouco de suco de limão também).

pão e azeite

Toste o pão até ficar ligeiramente crocante. Rasgue o pão em pedaços e distribua nos pratos onde for servir a sopa (cerca de duas fatias pequenas por porção). Regue o pão com azeite (1cs por porção) e cubra com a sopa quente. Rende 4 porções.

*Pra complementar a refeição: esse prato é tradicionalmente servido com uma salada crua de tomate, pepino, pimentão e salsinha, temperada com sal, azeite e suco de limão. Os legumes crus aumentam a dose de vitaminas da refeição e são o complemento perfeito pra esse prato (que já tem a proteína da lentilha e os carboidratos complexos do pão integral).

abraço

O muro construído por Israel na Cisjordânia mutila ainda mais as terras palestinas, isola cidades e seus habitantes e priva agricultores de seus campos. Ele foi julgado ilegal pelo Tribunal Internacional de Justiça em 2004, mas continua avançando. O muro de segregação, como é chamado pelos defensores dos direitos humanos, é onipresente aqui em Belém. É difícil esquecer os crimes cometidos pela ocupação israelense quando nos deparamos com esse ‘lembrete’ de concreto de 8 metros de altura cada vez que levantamos o nariz.

Uns tempos atrás uma associação palestina, com o apoio de uma ONG holandesa, criou um projeto de resistência através do conto, onde palestinos dividem histórias pessoais relacionadas com a ocupação. Cartazes com essas histórias foram colados ao longo do muro em Belém e o objetivo é sensibilizar os turistas que passam por aqui, mas que não têm a mínima ideia do que acontece com os palestinos há décadas (a maioria dos peregrinos acha que Belém fica em Israel…). Um desses depoimentos me emocionou tanto que eu fiquei com vontade de publica-lo aqui. (O texto original é em Inglês e foi traduzido por mim.)

Abraço

Durante a primeira intifada tanques israelenses ficavam na frente da nossa casa. Nossos rapazes (palestinos) tinham que passar por aqui pra ir pros seus trabalhos em Jerusalém. Os soldados israelenses paravam os rapazes e os obrigavam a esperar. Às vezes eles eram forçados a ficar horas em pé, com o rosto contra o muro da nossa casa. Um dia os soldados pararam dois rapazes. A gente não conseguiu escutar a conversa, mas os soldados começaram a espanca-los. De repente uma mulher na rua se aproximou gritando. A gente escutou ela dizer que os rapazes eram seus filhos. Ela abraçou os rapazes e perguntou aos soldados o que eles queriam. Ela salvou os dois rapazes, que na verdade ela não conhecia.

Melvina, Belém.

O exemplo dessa mulher abraçando os rapazes e protegendo com o próprio corpo a vida de dois desconhecidos foi uma das maiores lições de amor ao próximo que tive a honra de receber. Tantas vezes ouvi pessoas falarem: “As mães palestinas não sentem amor pelos filhos. Elas os criam pra se tornarem homens-bombas do outro lado da fronteira.” Se algum dia vocês escutarem uma declaração injusta e racista como essa, contem a história dessa palestina, que arriscou a vida pra salvar os filhos de outra.

tareq

Conheci Tareq na ONG palestina onde eu trabalhei durante meus dois primeiros anos aqui. Ele participava do grupo de teatro e me ajudou a organizar atividades físicas pros meus “alunos” uma vez por semana e a montar uma peça com as crianças do grupo, ensinando a importância de escovar os dentes. Nossa amizade foi crescendo com o tempo e também me tornei muito próxima da esposa dele, Sara. Ele é professor de tecnologia em uma escola secundária, ela é tradutora e juntos eles formam um dos poucos casais que conheço aqui que desafiaram a tradição e se casaram por amor (geralmente os casamentos são organizados pelas famílias).

Tareq tem dois filhos e mora com a família no campo de refugiados de Al Arroub, 15km ao sul de Belém. Um campo que tem apenas 0,24km², mas que abriga mais de 10 mil pessoas (fonte ONU). A situação desse campo é ainda mais difícil do que nos campos onde trabalho aqui em Belém. Ele foi construído em 1949 ao longo da estrada 60, que liga Belém à Hebron, mas nas últimas décadas essa região da Cisjordânia foi invadida por colônias ilegais israelenses e hoje os colonos usam a estrada 60, junto com os palestinos, pra se locomover entre elas (algumas estradas que cortam a Cisjordânia são exclusivas pros colonos israelenses, uma das razões pra afirmar que a ocupação israelense também é um sistema de apartheid). Com a desculpa de proteger os colonos que passam pela estrada, o campo é totalmente controlado pelo exército israelense. Existem duas entradas: uma fechada com blocos de concreto (colocados ali pelo exército) e que só pode ser utilizada por pedestres e outra, a entrada pros carros, fechada por um portão controlado pelos soldados. Uma cerca metálica coberta de arame farpado cria uma barreira física entre as primeiras casas do campo e a estrada. Duas torres militares, uma na frente de cada entrada, e dezenas de soldados armados até os dentes completam a “segurança”. Entrar em Al Arroub é sempre penoso e não sei se um dia me acostumarei com as cenas que vemos por lá, como soldados instalados na entrada do campo, apontando suas metralhadoras pras crianças jogando bola na rua.

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Tareq segurando Watan, seu o primeiro filho, na maternidade.

Nos últimos cinco anos eu acompanhei as mudanças na vida de Tareq e Sara: as várias casas por onde eles passaram, o novo emprego de Sara (que começou a trabalhar como tradutora com os Médicos sem Fronteiras), o nascimento dos meninos, a morte do pai de Tareq, as aventuras dele tentando sair da Palestina…  Tareq deixou de ser um amigo e se tornou um irmão. E é com muita honra que eu apresento pra vocês hoje o meu irmão palestino, uma das pessoas mais generosas e gentis que eu tive a sorte de conhecer.

“Meus pais nasceram em Iraq Al-Manshya, um cidadezinha no litoral da Palestina histórica, entre Jafa e Gaza.  Meu pai era agricultor e junto com a família cultivava laranjas e outras frutas cítricas. Em 1948, quando as tropas sionistas invadiram nosso vilarejo, meu pai tinha 20 anos. Fazia já algum tempo que as notícias de expulsões e massacres de palestinos por soldados sionistas chegavam por lá e algumas pessoas tinham abandonado suas casas com medo do que iria acontecer quando a vez de Iraq Al-Manshya chegasse. Toda a população recebeu ordem de ir embora, mas muitas pessoas se recusaram a abandonar suas terras. Os que tentaram ficar foram executados e meu pai perdeu muitos amigos e um irmão. A família do meu pai foi pra Hebron (no sul da Cisjordânia). Quando eles chegaram lá, os habitantes da cidade se compadeceram com o triste destino dos refugiados e os acolheram em suas casas. Alguns meses depois eles escutaram que a ONU estava reagrupando o pessoal em campos de refugiados, na espera do retorno. Foi assim que a família da minha mãe, que também é de Iraq Al-Manshya, e a do meu pai vieram parar em Al Arroub. Um dia, em uma viagem organizada pela escola, fomos à Jafa ver o mar (a antiga cidade de Jafa foi anexada à Tel Aviv). No caminho eu vi uma placa indicando Qiryat Gat, a cidade israelense construída sobre as ruinas da nossa cidade, e pedi ao motorista pra passar por lá. Quando vi aquelas pessoas, que moram hoje nas terras que um dia pertenceram ao meu pai, olhando pra mim como se eu fosse um estrangeiro que não tinha direito nenhum de estar ali meu sangue ferveu e a revolta tomou conta de mim. O professor que tinha organizado a viagem sabia que minha família vinha dali e quando viu o meu estado ficou com pena de mim e disse ao motorista pra dar meia volta.

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Tareq, Watan e Sara.

Eu nasci em Belém, pois é lá que fica a maternidade mais próxima do campo. Minha infância em Al Arroub foi marcada pela presença constante do exército israelense. Toda criança sonha em ser um super herói e fazer coisas incríveis. Quando eu era pequeno lembro que todas as crianças do campo sonhavam em ter super poderes pra lutar contra os soldados israelenses. Eles estavam sempre por perto, batendo nas pessoas, prendendo nossos familiares, jogando gás lacrimogênio em quem passava pela rua, atirando na gente… Então eu e meus amigos jogávamos pedras nos soldados. Na nossa ingenuidade achávamos que podíamos defender o campo com pedras. Pedras contra metralhadoras. Pedras contra jipes blindados. Crianças contra soldados armados até os dentes. Mas a gente não tinha medo nenhum, aquilo tinha se tornado um jogo. Lembro que um dia, eu tinha seis anos, eu estava jogando pedras nos soldados do outro lado da rua e quando me abaixei pra pegar mais pedras vi um coturno. Levantei a cabeça e vi um soldado olhando brabo pra mim. Corri com todas as minhas forças e entrei feito um foguete em casa. Troquei imediatamente de roupa e sentei na sala com o ar mais inocente do mundo. O soldado me seguiu, claro, e entrou gritando na minha casa. Meus pais tinham saído e eu estava só com uma das minhas irmãs. O soldado disse que ia me prender porque eu estava jogando pedras. Eu, com a minha melhor cara de santo, disse: ‘Eu? Eu estava aqui dormindo, olha só, ainda estou de pijamas!’ (risos) Mas o soldado me reconheceu – era o dono do coturno- e me levou pra base militar que eles tinham instalado na entrada do campo. Ele me colocou sentado no chão, na frente da base, embaixo do sol quente durante horas. Eu estava com muita sede e calor, mas não podia sair de lá. O soldado que me prendeu proibiu os outros de me darem água, mas não me importei pois era Ramadan e eu estava fazendo o jejum (durante o mês do Ramadan muçulmanos não comem nem bebem nada, nem água, entre o nascer e o pôr do sol). Meus pais não queriam que eu jejuasse, pois eu ainda era muito pequeno, mas quis dar uma de forte e disse que naquele ano eu ia tentar. Mais tarde um soldado ficou com pena de mim, um garotinho de seis anos sentado naquele asfalto quente, e me ofereceu água. Eu disse que não queria porque estava fazendo o jejum do Ramadan. O soldado que me prendeu escutou isso e imediatamente mudou de ideia com relação à água: ele veio correndo, tomou a garrafa das mãos do outro soldado e me obrigou a beber. Eu travei os dentes, mas ele empurrou a garrafa com tanta violência que machucou minha boca, então tive beber a água. Fiquei cinco horas ali, até que uma tia minha apareceu–meus pais ainda não tinham voltado pra casa- e conseguiu convencer os soldados a me liberar. Durante minha infância fui levado pra base militar várias vezes. Às vezes me pegavam na rua, às vezes vinham me pegar dentro de casa… Apanhei muito dos soldados, mas esse episódio ficou profundamente gravado na minha memória, pois corria um boato que os colonos levavam as crianças do campo pras colônias e as matavam. Era um boato infundado, mas aos seis anos essa história me assombrava. Naquele dia, enquanto eu esperava ser liberado, sentado no asfalto quente, um carro cheio de colonos parou em frente à base e eles começaram a discutir em Hebraico com os soldados. Pensei que minha hora tinha chegado e que os colonos me levariam embora e me matariam. Ainda não consegui esquecer o terror que senti naquele dia.

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Entrada do campo Al Arroub.

A pior lembrança que tenho da minha infância aconteceu nesse mesmo ano. Um dia eu estava brincando em frente à casa dos meus pais com outros meninos da minha idade. Mais longe tinha um grupo de rapazes jogando pedras nos soldados que, pela milionésima vez, invadiam o campo. Um deles veio correndo na nossa direção, fugindo dos soldados. Mas atrás do meu grupinho tinha um sniper (atirador de elite do exército) e quando o rapaz estava a poucos metros de mim o soldado atirou na testa dele e ele caiu morto nos meus pés. Eu tinha seis anos, mas essa imagem continua muito viva na minha mente.

Ser adolescente em um campo de refugiados é difícil. Não tem nada pra fazer e o campo estava sempre cercado de soldados. Pra me divertir eu jogava futebol com os amigos, às vezes íamos passear em Belém e só. Um dia, eu tinha 17 anos, eu estava na entrada do campo, quando avistei um amigo do meu tio do outro lado da estrada, esperando o ônibus. Começamos a conversar, cada um de um lado da estrada. Ele pedia notícias do meu tio, que não via há tempos, quando de repente um colono israelense puxou o carro pra cima do amigo do meu tio, jogando o corpo dele longe. Infelizmente esse tipo de acontecimento não é raro por aqui. Vários habitantes do campo perderam a vida dessa maneira, sendo atropelados –de propósito- ou baleados por colonos. O exército, sempre presente, nunca prende os colonos assassinos e na maioria das vezes invade o campo e coloca a população sob toque de recolher, punindo a gente, as vítimas, ao invés de fazer justiça. Nunca vou esquecer o rosto do colono que matou o amigo do meu tio. Lembro do rosto dele, do cabelo, mas o que mais me marcou foi a expressão que ele tinha: ele estava transfigurado pelo ódio. O amigo do meu tio morreu na hora e o seu assassino nunca foi julgado.

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Rua principal do campo.

Eu frequentei a escola da UNRWA (agência da ONU que cuida dos refugiados palestinos) aqui do campo e fui fazer o segundo grau em Beit Umar, uma cidade vizinha. Na época não tinha segundo grau aqui, hoje já tem. Durante toda a minha adolescência sonhei em entrar pra Universidade de Belém. É provavelmente a melhor universidade da Cisjordânia, então imagina a minha alegria quando consegui me matricular lá. Aos 18 anos comecei a estudar fisioterapia. No primeiro dia de aula eu não cabia em mim de alegria: meu sonho tinha se realizado! Cheguei em casa feliz da vida, mas essa felicidade durou pouco. Durante a noite dezenas de soldados invadiram minha casa pra me prender. Eu estava dormindo e demorei um pouco pra entender aquela algazarra. Meus pais, meus irmãos, todos tentaram impedir os soldados de me levarem, mas fui arrancado da cama, vendado, algemado e jogado dentro de um veículo militar. Não me deixaram nem trocar de roupa e fui de pijamas. Dentro do jipe fui espancado pelos soldados e eu, algemado e vendado, nem podia proteger o meu corpo. O comandante me perguntou: ‘Se eu tirar suas algemas você vai bater em mim?’ Respondi: ‘Tire minhas algumas e você descobre’, o que fez com que os soldados me batessem com mais força ainda. Não senti medo, só raiva, muita raiva. Eu me perguntava por que aquilo estava acontecendo. Eu não jogava pedras desde criança, era um universitário, o que eu tinha feito de errado? Só depois entendi a razão da minha prisão. Um jovem do campo tinha sido preso um dia antes enquanto jogava pedras nos soldados e durante o interrogatório os soldados falaram que ele só sairia dali se desse os nomes de todos os jovens que estavam jogando pedras naquele dia. O medo fez com que ele dissesse os nomes de vários rapazes que ele conhecia e, falta de sorte, ele lembrou de mim nessa hora.

Primeiro me levaram pra uma base militar perto da colônia que fica aqui perto e me colocaram imediatamente em uma cela. Só dois dias depois comecei a ser interrogado. Durante o interrogatório me falaram que o rapaz tinha assinado uma declaração que me condenava. Meus crimes? Jogar pedras nos soldados, pichar muros, colocar bandeiras palestinas nas casas do campo e participar do grêmio estudantil. Eu disse que aquilo tudo era mentira e me recusei a assinar o papel que dizia que eu era culpado. Fui interrogado novamente no dia seguinte e como eu me recusava a ‘colaborar’ fui torturado durante horas. Eu estava cansado, machucado e faminto, mas o fato de estar falando a verdade me dava forças pra continuar me recusando a assinar a tal declaração. Falei: ’Tudo que eu tinha pra dizer eu já disse e vocês podem me bater o quanto quiser, a verdade não vai mudar’. Então, como punição pela insolência, me colocaram na ‘louca’. É assim que a gente chama um cubículo que serve de cela, com 1m de altura por um 1 m de largura. Não dá pra ficar em pé, nem pra deitar no chão. Não tem janela e a luz forte fica acesa 24h por dia, nos impedindo de dormir. Tem também um alto falante e uma câmera. Quando os soldados viam que eu estava adormecendo eles ligavam o alto falante no volume máximo e eu acordava assustado. Eu só podia ir ao banheiro uma vez por dia, no resto do tempo tinha que usar o penico que ficava dentro da cela e que empestava o ar. Por isso a gente chama essa cela de ‘a louca’, porque quem passa por ela acaba endoidando. Eu fiquei 21 dias lá dentro.

Depois me transferiram pra uma prisão em Israel, perto de Jafa, um lugar temido por todos, pois lá você passa por interrogatórios constantes e os soldados são extremamente violentos. Fiquei mais de um mês por lá e, dois meses depois de ter sido preso, fui julgado por uma corte militar. Fui declarado culpado de tudo e condenado a 10 meses de prisão. Os dois meses que passei preso antes da condenação não foram deduzidos da minha pena e no final fiquei um ano inteiro preso. Fui transferido pra uma cadeia no norte da Cisjordânia, entre Jenine e Nazaré. Lá fiz amizade com prisioneiros mais velhos, aprendi muito sobre a situação dos prisioneiros palestinos e comecei a me interessar por política. Um dia encontrei o jovem do campo que tinha me delatado. Quando me viu ele começou a tremer de medo, achando que eu ia bater nele. Eu disse: ‘Fique tranquilo rapaz, eu não te quero mal nenhum. Quem sabe se, no seu lugar, eu não teria feito a mesma coisa?’

Quando terminei de cumprir minha pena tive que passar pela sala de um comandante, que assinaria a minha liberação. No momento em que fui preso eu era um jovem feliz por estar ingressando a faculdade, de cabelos longos. Na prisão eu cortei o cabelo, deixei a barba crescer e meu rosto ficou muito marcado. O comandante olhou pra minha foto no dia que fui preso e pra minha cara e perguntou: ‘Esse aqui na foto é você, mesmo? Jovem, cabeludo, sorridente?’ Expliquei que antes de ser preso nunca tinha me interessado por política nem sobre resistência, mas que graças à prisão eu tinha feito um curso completo e que agora ia ser muito mais ativo na defesa do meu país. A prisão faz isso com a gente. É tanta injustiça, tanta violência que mesmo o jovem mais inconsequente fica com desejo de se tornar um militante e lutar contra o sistema brutal da ocupação israelense.

No dia em que saí da prisão um soldado me levou de jipe até o check point mais próximo. Quando ele abriu a porta eu quase não acreditei. Nem conseguia sair do jipe e perguntei hesitante: ‘Posso ir, mesmo?’ Saí andando e o sentimento que me invadiu ao ver pessoas rindo, árvores, a estrada… nem sei como descrever com palavras. Eu só descobri o valor de poder andar livremente quando perdi a minha liberdade. Do outro lado do check point meus amigos me esperavam. Eu disse pra minha família que não precisava ir me pegar, que eu ia chegar com os amigos. Que alegria senti dentro daquele carro, me aproximando cada vez mais da minha família. Mas foi difícil voltar à vida normal. Meu corpo estava de volta a Al Arroub, mas minha mente levou três meses pra sair da prisão. Na primeira noite que passei em casa eu acordei às seis da manhã e sentei na cama esperando ser contado. Na prisão os guardas contam os prisioneiros três vezes por dias, às seis da manhã, no meio do dia e à noite. Fiquei esperando alguns minutos, sentado na escuridão do meu quarto, quando percebi que os guardas não viriam porque eu estava em casa. Que alívio!

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Pintura na parede de uma casa do campo.

Além de ter perdido uma ano da minha vida na prisão, perdi o direito de estudar o curso que eu tinha escolhido. Quando comecei fisioterapia era o primeiro ano do curso na faculdade e eles decidiram esperar essa primeira turma se formar antes de abrir outra. Ou seja, eu teria que esperar três anos pra poder estudar fisioterapia novamente. Acabei mudando de curso e estudando química. A segunda intifada começou quando eu estava na faculdade. Naquela época sair do campo se tornou muito difícil, pois tinha sempre toques de recolher e pegar a estrada que liga o campo à Belém tinha se tornado muito perigoso. Então pra poder ir às aulas eu ia do campo até Belém a pé, evitando as estradas e passando pelas colinas, o que tornava o percurso muito mais longo. Entre a ida e a volta eu andava quase 50 km por dia, por dentro do mato, me escondendo dos soldados, mas eu não queria interromper meus estudos novamente. Consegui me formar e hoje eu sou professor na escola secundária da UNRWA no campo, a mesma onde estudei.

Um dia fiz um curso de Inglês em Ramala (cidade no norte da Cisjordânia) e a professora, uma jovem recém diplomada, me encantou imediatamente. Comecei a namorar Sara logo depois e nunca mais nos separamos. Um ano depois do casamento nasceu o nosso primeiro filho. Eu escolhi chama-lo ‘Watan’, que significa ‘pátria’ em Árabe. Anos depois fui à Jordânia e quando atravessei a fronteira (controlada pelos israelenses) o soldado que verificava minha identidade perguntou: ‘Por que o seu filho se chama Watan?’ O serviço de informação israelense é extremamente eficaz e eles sabem absolutamente tudo sobre nós: o que estudamos, onde trabalhamos, nome e apelido dos nossos filhos… Somos vigiados e controlados 24h por dia, 365 dias por ano. Respondi: ‘Porque assim eu tenho, enfim, uma pátria!’

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Aniversário de Tareq ano passado (com Watan, eu e duas amigas belgas).

Depois de ter passado pela prisão israelense ficamos fichados durante anos, sem poder sair da Cisjordânia. Eu ia até a fronteira (sempre a fronteira com a Jordânia, já que essa é a única porta de saída pros palestinos), os soldados colocavam o número da minha identidade no computador e pronto: minha passagem pela prisão aparecia e eles se recusavam a me deixar passar. A única maneira de saber se seu nome saiu da lista é tentando atravessar a fronteira, então eu voltava, de novo e de novo. Numa dessas vezes eu estava tentando ir pra Itália, pois tinha ganhado uma bolsa de estudos lá. Mais tarde ganhei outra bolsa de estudos, dessa vez pra Grécia. Quantas oportunidades perdidas! Ou melhor, quantas oportunidades me foram roubadas! Depois de formado recebi uma ótima proposta de trabalho no Catar e mais uma vez tive que engolir o NÃO dos soldados, que me impediram de sair do território. Esperei quase dez anos pra poder sair da Palestina. Ao todo foram doze tentativas frustradas. Passei um ano na prisão e mais dez anos preso dentro do meu próprio país.

Hoje o meu nome foi retirado, enfim, do sistema e pude sair do território duas vezes. Na primeira vez fui visitar uns parentes na Jordânia. Na segunda, fui participar de uma turnê de teatro na Europa. Eu sou professor, mas minha verdadeira paixão é o teatro. Participei de uma peça montada pelo centro cultural do campo de Aida (em Belém) e conseguimos financiamento pra sair em turnê no verão de 2011. Fomos pra França, Luxemburgo e Bélgica. Depois de ter visitado esses países as injustiças que sofremos aqui me pareceram ainda maiores.

Apesar de hoje poder sair da Cisjordânia, continuo sem poder entrar em Jerusalém. Todo palestino da Cisjordânia precisa de uma autorização de Israel pra entrar em Jerusalém e, como eu passei pela prisão, é praticamente impossível obter uma autorização. Meses atrás eu dei entrada no visto pros EUA, pois pretendo visitar um primo que mora lá e ver se é uma boa ideia morar um tempo nesse país. Enviei os documentos através de uma agência, mas o visto deve ser retirado pessoalmente no consulado. Como meu pedido de autorização pra ir à Jerusalém foi negado, como todas as outras vezes, dei um jeito de entrar ilegalmente na cidade. Recebi o visto e pra voltar pra casa peguei o ônibus que liga Jerusalém à Belém. Na volta os ônibus nunca são controlados no check point (os soldados estão mais preocupados com quem quer entrar em Jerusalém, não com quem quer entrar na Cisjordânia), mas eu estava muito sem sorte naquele dia. Não é que pararam o ônibus na volta? Quando viram que eu não tinha permissão pra ter entrado em Jerusalém os soldados me obrigaram a descer do ônibus e lá fui eu ser interrogado novamente. Um soldado ordenou que eu assinasse um papel dizendo que eu tinha entrado ilegalmente em Israel. Eu disse: “Não entrei em Israel. Jerusalém faz parte da Palestina ocupada, um fato reconhecido pela comunidade internacional.” O soldado ficou furioso e disse ‘Vou te mostrar agora o que é a Palestina ocupada’ e me trancou em um cubículo minúsculo que eles têm em todos os check points pra prender pessoas. Sem janelas, só uma porta. Fiquei algumas horas em pé lá dentro, mais uma vez sendo punido por ter ousado falar a verdade. Finalmente me deixaram ir embora com a condição que eu assinasse um documento dizendo que eu não ia fazer pedidos de autorização pra entrar em Jerusalém durante seis meses. Assinei rindo, pois isso não faz diferença nenhuma pra mim: eu nunca consigo autorização, mesmo!

Ano passado nasceu Yemen, nosso segundo menino. Eu assisti o parto dos meus dois filhos e mesmo sendo a segunda vez, ainda assim me emocionei muito e chorei quando segurei Yemen nos braços. Viver em Al Arroub continua tão perigoso e revoltante quanto quando eu era criança. Os soldados continuam aqui, atirando, prendendo, jogando gás lacrimogêneo. Sara sofre de asma e várias vezes durante a gravidez foi obrigada a atravessar nuvens de gás lacrimogêneo pra entrar em casa. Watan vai fazer quatro anos mês que vem, mas ele já sabe o que significa exército, soldado, tiros. Quando ele vê alguém triste pergunta: ‘Atiraram em você?’ Hoje é ele que sonha em ter super poderes pra poder lutar contra a ocupação. Outro dia ele me disse que queria ser Ben10 (personagem de um desenho animado muito popular entre os meninos) pra expulsar os soldados do campo.

(perguntei: ‘Tareq, quais são os seus sonhos hoje?’)

Quero voltar pra minha terra. Eu moro nesse campo de refugiados, mas o meu lugar é em Iraq Al-Manshya. Mas sonho? Hoje eu não sonho mais pra mim, sonho pros meus meninos. Penso em tudo que eu não pude realizar na vida e desejo que meus filhos não passem pelas mesmas injustiças. Gostaria que eles crescessem sem medo, sem o perigo constante de ser vítima de crimes que nunca serão punidos. Gostaria de comprar uma bicicleta pra eles. Quando menino eu sonhava em ter uma bicicleta, mas isso nunca se realizou. (Nesse momento o rosto de Tareq se ilumina e ele abre um largo sorriso). Sabe, eu sempre quis ter uma filha…”

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Em outubro nasceu Yemen, o segundo filho de Tareq e Sara.

Ontem eu visitei Tareq e Sara em Al Arroub e aproveitei pra fazer essa entrevista. Quando eu cheguei no campo vi várias viaturas do exército israelense e dezenas de soldados barrando a entrada. Mesmo se a presença deles por lá é constante, eu nunca tinha visto tantos reunidos.. Cheguei na casa dos meus amigos na hora do almoço e enquanto me instalava entre a mãe e uma das cunhadas de Tareq, que estavam visitando o meu amigo, perguntei se ele sabia o que estava acontecendo. Ele ligou imediatamente pra um amigo que mora perto da entrada do campo e segundos depois nos deu a notícia que quatro palestinos tinham acabado de ser baleados. Um carro de colonos (ou de policiais israelenses à paisana, isso ainda não está claro) que passava pela estrada abriu fogo contra um grupo de pessoas que se encontrava na frente do campo. Uma estudante de 21 anos foi baleada na cabeça e mais três pessoas tiveram ferimentos leves. A moça estava no hospital em um estado crítico.

Depois do almoço sentamos pra conversar ao redor do chá e do café e pude fazer algumas perguntas a Tareq. Eu já conhecia bem a história dele, mas pela primeira vez ouvi meu amigo falar sobre a infância e os horrores que ele viu e sofreu. No meio da entrevista ele recebeu um telefonema dizendo que a moça não resistiu aos ferimentos e morreu. Ela morava em Belém, mas estudava na faculdade de agronomia em frente ao campo. A notícia se espalhou rápido e pouco tempo depois recebi um telefonema de Anne, que está atualmente trabalhando em Gaza, dizendo pra eu voltar pra casa imediatamente, antes que escurecesse, pois a situação em Al Arroub estava ficando muito perigosa (os sites de notícias aqui são muito eficientes e graças a Twitter podemos saber o que está acontecendo em todas as cidades e campos da Palestina, minuto após minuto).

Nossa conversa me fez perder a noção do tempo e quando levantei pra ir embora já era noite. Tareq sempre me acompanha até a entrada do campo e espera a van comigo, mas eu fiquei com medo dele ser preso ou ferido pelos soldados se saísse de casa. Como mulher eu corro menos riscos e se por acaso algum soldado tivesse a ideia de me prender, meu passaporte estrangeiro garantiria a minha liberação rápida, mas pra Tareq a história seria bem diferente. Insisti pra ele ficar em casa, mas meu amigo nunca me deixaria atravessar o campo sozinha, à noite, com dezenas de soldados escondidos pelos cantos. Apressamos o passo, mas não podíamos correr (seria considerado suspeito e poderíamos receber uma granada de gás lacrimogêneo, ou coisa pior) e o campo estava mergulhado na escuridão, as ruas desertas cheirando a gás lacrimogêneo. A entrada do campo estava coberta com as granadas de gás que tinham explodido há pouco. Felizmente a van que vai pra Belém já estava lá e assim que entrei o motorista partiu.

Poucos minutos depois Tareq me ligou: “Você não vai acreditar, mas assim que a van saiu o exército invadiu o campo. Foi tanto gás, balas e uma chuva de pedras dos moradores tentando impedir a invasão que eu pensei que a terceira intifada tinha começado!” Tareq consegue manter o humor em qualquer situação. Milagrosamente ele tinha chegado em casa ileso, mas não pude não me sentir culpada por ter exposto o meu amigo ao perigo. Vim o caminho todo pensando nas histórias que Tareq tinha me contado, sentindo o peito doer de tristeza. De repente lembrei que ainda não tinha pagado o motorista da van e quando estendi a mão com o dinheiro ele disse: “Seu amigo pagou sua passagem enquanto você subia.” Esse é Tareq. O campo sendo invadido pelo exército, pessoas sendo mortas com balas na cabeça e ainda assim ele consegue lembrar de ser cavalheiro.

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Depois da colheita, os palestinos levam as azeitonas pra prensa o mais rapidamente possível. Idealmente, as azeitonas devem ser prensadas nas 24 horas que seguem a colheita, mas por ter poucas prensas na região de Belém, as azeitonas acabam esperando um pouco mais. O centro da produção de azeite palestino fica em Nablus, no norte, e lá tem mais prensas do que aqui. Porém, o azeite de Belém e das duas cidades vizinhas (Beit Jala e Beit Sahour) tem fama de ser o melhor de toda a Palestina. Meu amigo Tawfic explicou que essa região tem um micro clima perfeito pra produção de azeitonas e por isso o sabor do azeite daqui é superior. Eu posso confirmar: o azeite de Tawfic é o melhor que já provei na vida! Ele tem uma nota verde intensa, com um gosto de mato depois da chuva (nunca comi mato depois da chuva, mas tenho certeza que o gosto é idêntico ao cheiro), mas ao mesmo tempo é aveludado e tão cremoso que chega a ser (pasmem!) amanteigado. É difícil descrever um sabor tão complexo, só mesmo provando pra entender.

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Pois foi meu amigo Tawfic que me levou à prensa de Beit Jala (segundo ele a melhor da região) pra ver as azeitonas que ajudei a colher se transformar em azeite. Algumas das suas oliveiras são jovens, por isso são tão pequenas.

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Tawfic é o bigodudo da direita.

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Ele pediu pra eu mostrar pra vocês os sacos de café brasileiro que ele usa pra aparar as azeitonas durante a colheita. Segundo ele é por isso que seu azeite é tão bom:-)

A oliveira só começa a dar frutos depois de 5 ou 10 anos e só atinge o seu pleno desenvolvimento depois dos 20 (antes disso a carga de azeitona é muito pequena). A partir daí ela vai dar azeitonas durante pelo menos 150 anos, passando de geração em geração. Tem oliveiras aqui que produzem azeitonas desde o tempo em que Jesus passeava por essas terras! Por isso aqui na Palestina o pessoal diz que quando um agricultor perde uma oliveira (expliquei no último post como a ocupação israelense destruiu milhares de oliveiras) é como se tivessem queimado sua conta bancária.

Nos anos bons, a produção de azeite chega a 35 mil toneladas, enquanto que nos anos ruins esse número desce pra 5 mil toneladas.  Antigamente a produção de azeite era muito maior, mas desde o início da ocupação militar israelense na Palestina, em 1967, mais de 800 mil oliveiras foram destruídas. É importante lembrar que a Cisjordânia (a Palestina é formada hoje pela Cisjordânia e pela faixa de Gaza) tem apenas 5.640 km2 (praticamente um quarto de Sergipe, o nosso menor estado!), então o impacto dessa destruição em uma terra tão pequena é imenso. A confiscação de terras palestinas pra construir colônias israelenses (o que é considerado ilegal segundo o direito internacional) e zonas militares pro exército israelense, a construção do muro, tudo isso privou os palestinos de um grande número de oliveiras. Como resultado, o azeite, por estar se tornando cada vez mais raro, se tornou caro demais. Meus amigos palestinos contam que seus pais usavam azeite em tudo, mas hoje eles são obrigados a cozinhar com óleo de soja importado. O azeite é usado no conta-gotas pra temperar alguns pratos tradicionais, como hummus, e pra acompanhar o pão do café da manhã (aqui ninguém usa manteiga nem margarina).

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Mas voltemos à visita da prensa de azeitonas. O barulho das máquinas era ensurdecedor, mas o aroma de azeite que pairava no ar era uma delícia. O diretor da prensa me mostrou tudo e explicou cada passo. Quando um agricultor chega na prensa, suas azeitonas são pesadas e ele recebe uma ficha com um número. Tawfic chegou lá de manhã, mas tinha tanta gente na fila que ele só pode prensar suas azeitonas no meio da madrugada.

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Esperando a vez com a ficha na mão. Os sacos estão repletos de azeitonas e os garrafões amarelos serão usados pra transportar o azeite.

Antes de irem pra prensa, os agricultores retiram os galhos e folhas que se misturam aos frutos durante a colheita, mas dá pra ver que mesmo assim alguns intrusos conseguiram chegar até aqui. Porém isso será resolvido no próximo passo. Azeitonas verdes e pretas são prensadas juntas e Tawfic me garantiu que o sabor do azeite produzido por uma ou por outra é o mesmo. A única diferença é na cor: azeitonas pretas produzem um azeite dourado, enquanto as verdes produzem um azeite…verde. Como as duas são misturadas, a maior parte do azeite produzido aqui na Palestina é verde-dourado, mas já ganhei garrafas de amigos que usaram somente azeitonas verdes e o resultado é um azeite verde-fosforescente!

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Uma pequena nota sobra a cor das azeitonas. Azeitona verde (não madura) é verde e à medida que vai amadurecendo, vai adquirindo uma cor arroxeada até ficar preta. Elas podem ser colhidas tanto verdes quanto maduras, mas as pretas (maduras) têm mais óleo que as verdes. Mas como elas não amadurecem todas ao mesmo tempo e é mais prático pro agricultor colher tudo de uma vez, os dois tipos são usados pra fazer o azeite. (Pra preparar as azeitonas marinadas que também são muito apreciadas aqui, os palestinos preferem as azeitonas verdes, mas isso é assunto pra outro post).IMG_1113 copy

Depois de despejadas nesse compartimento, as azeitonas são transportadas em uma esteira enquanto um ventilador gigante sopra sobre elas, levando embora os últimos galhos e folhas.

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Elas são em seguida lavadas em água corrente e moídas (inteiras, com o caroço), formando uma massa oleosa à qual é acrescentada água morna (entre 25° e 30°).

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A massa oleosa na centrífuga horizontal. O senhor controlando o processo é o diretor da prensa.

Em seguida a massa passa por uma centrífuga horizontal onde a parte sólida (caroço, fibras) é separada da parte líquida. Depois o líquido vai pra uma centrífuga vertical onde o azeite será separado da água. Tem outras maneiras de extrair o azeite, mas essa é a usada mais frequentemente aqui na Palestina. O resultado é um azeite extra-virgem (prensado a frio), nutritivo e delicioso.  Ele pode ser consumido imediatamente depois de prensado, mas Tawfic gosta de guardar o dele durante um mês antes de começar a consumir pois, segundo ele, o azeite precisa desse tempo pros sabores se desenvolverem e pra acidez se acalmar um pouco. Eu não sou expert no assunto, mas provei o azeite recém prensado e, apesar de delicioso, tem uma nota fresca que é um pouco agressiva e ligeiramente adstringente, arranhando um pouco a garganta. Tawfic sabe o que faz.

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A massa sólida que é descartada é compactada em pequenos tijolos e usada pelos palestinos pra alimentar o fogo da prensa, mas também pra fazer fogo em lareiras e fornos à lenha. Por ter vestígios de azeite, esses tijolos pegam fogo mais rápido do que lenha. Tudo na azeitona é aproveitado.

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O que sobrou da azeitona depois da extração do azeite.

Esse post não teria sido possível sem a ajuda do meu querido amigo Tawfic. Tudo que sei sobre azeitonas e azeite aprendi com ele.  Além de ter uma paciência de Jó comigo e me explicar tudo sobre os produtos palestinos, ele sempre me convida pra jantar com ele e a esposa (que cozinha divinamente bem), traz comida pra mim sempre que o jantar na casa deles é vegano (imaginem que delicadeza: comida tradicional, vegana e deliciosa entregue na minha porta!) e sempre que vou ao Brasil manda um litro do seu maravilhoso azeite pros meus pais.

Tawfic

Esse é Tawfic e o pai, na loja deles, pertinho da igreja da Natividade (supostamente construída no lugar onde Jesus nasceu). Se estiverem de passagem pela Terra Santa, não deixem de fazer uma visita a eles. Tawfic vai te oferecer café (do Brasil! A Palestina não produz café e importa tudo do Brasil) e explicar como usar cada uma das dezenas de especiarias que ele vende (moídas por ele mesmo). E, o melhor de tudo, você vai voltar pra casa com uma garrafa do melhor azeite do mundo.

Cenas do próximo post: uma receita de pasta pra passar no pão usando azeitona e azeite.

*A segunda, sexta e décima foto foram feitas pelo meu amigo Fred, que visitou a prensa comigo.