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Muitas, muitas luas atrás publiquei minha receita de gratin dauphinois vegano. Ainda gosto muito desse prato, mas batata sozinha nunca é muito excitante pra mim, então criei uma versão mais interessante.  Batata e cogumelo nasceram um pro outro!

Eu adoraria utilizar cogumelos selvagens, como os exóticos e perfumados cogumelos que encontro quando estou na França, mas por aqui isso é impossível. Os únicos cogumelos que encontro em Belém são os brancos (champignon ou cogumelo de Paris), que não são nem de longe os mais saborosos. Mas descobri que se eu mistura-los com um pouquinho de cogumelos selvagens desidratados o prato se transforma completamente. Então sempre que passo pela França compro alguns potinhos dos meus cogumelos preferidos desidratados (cèpes, chanterelles, morilles, trompettes-de-la-mort…) e posso preparar gratins e risotos de cogumelo sublimes o ano inteiro. Desde que descobri esse truque, misturo sempre cogumelos frescos com cogumelos desidratados e assim aproveito o melhor dos dois lados: o sabor intenso dos cogumelos desidratados e a textura suculenta dos cogumelos frescos.

Nessa receita uso somente 15g de cogumelos desidratados, mas é impressionante como uma quantidade tão pequena desse ingrediente faz uma diferença tão grande. O delicioso sabor do cogumelo penetra na batata macia e tudo é envolvido em uma camada generosa do meu voluptuoso creme de castanhas. Aconselho degustar esse gratin em uma noite fria, junto de uma pessoa que você ama, e vocês se sentirão envolvidos em um cobertor de aconchego, enquanto borbulhas de alegria invadem seus estômagos.

Se você perdeu o post sobre minha receita de espinafre com creme, onde explico em detalhes porque o meu creme de castanhas de caju é a melhor invenção depois da roda, vou relembrar os pontos mais importantes. Meu creme de castanhas tem exatamente metade das calorias do creme de leite de vaca, metade da gordura, somente 13% da gordura saturada e ZERO colesterol. E ainda é rico em proteínas e ferro, duas coisas que não estão presentes no creme de leite de vaca (creme de leite é praticamente só gordura e gordura, junto com açúcar, são os dois únicos alimentos desprovidos de proteínas). Estou fazendo uma campanha pra que as pessoas parem de temer a gordura/calorias das oleaginosas e incluam esses alimentos extremamente nutritivos no cardápio. Não deixe de ler esse post pra entender melhor os benefícios das oleaginosas. E se você ainda não testou meu espinafre com creme, só posso dizer uma coisa: quem provou, adorou.

 gratin batata cogumelo

Gratin de batata e cogumelo

Quando reidrato cogumelos secos sempre aproveito a água na receita: esse líquido é absolutamente delicioso e seria uma pena (um crime!) joga-lo fora! Aqui o líquido entra na composição do creme de castanhas e deixa o gratin ainda mais saboroso.

4 batatas médias (aprox. 800g), descascadas e cortadas em rodelas de espessura média

1 cebola grande, em fatias finas

2-4 dentes de alho, ralados/amassados

300g de cogumelos brancos frescos, em fatias finas

15g de cogumelos escuros secos (shitake, porcini ou uma mistura)

1x de castanha de caju, de molho por 6 horas (ou mais)

1cc de amido de milho (maizena) ou fécula de araruta

1/4cc de noz moscada ralada

1cs de azeite

Sal e pimenta do reino a gosto

Castanhas do Pará raladas, pra polvilhar (opcional)

Ferva 1x de água e despeje sobre os cogumelos secos. Deixe hidratar por meia hora. Enquanto isso prepare os legumes. Cozinhe as batatas no vapor ou na água salgada até elas começarem a amolecer, mas retire do fogo antes que cozinhem completamente. Escorra os cogumelos secos, reservando todo o líquido, e pique finamente. Coloque a castanha escorrida (reserve a água), o amido de milho, a noz moscada e uma pitada generosa de sal no liquidificador. Cubra com o líquido dos cogumelos mais 2x de água (utilize a água onde as castanhas ficaram de molho e complete com mais água até obter 2x). Triture até a castanha se desintegrar completamente (esfregue um pouco do líquido entre os dedos pra conferir).  Aqueça o azeite em uma panela grande e doure a cebola. Junte o alho e deixe cozinhar mais 30 segundos. Despeje os cogumelos frescos, tempere com uma pitada generosa de sal e cozinhe, mexendo de vez em quando, durante alguns minutos (só o suficiente pros cogumelos começarem a murchar). Acrescente os cogumelos secos hidratados e as batatas pré-cozidas e salgue a gosto (se você cozinhou as batatas na água salgada, provavelmente não precisara juntar mais sal). Junte o creme de castanha, mexa pra que todos os legumes fiquem envolvidos em creme e deixe cozinhar em fogo baixo até o creme começar a borbulhar. Prove o creme e corrija o tempero, se necessário. Transfira tudo pra uma travessa de vidro. A minha tem 20cmx29cm, com 5cm de altura e é perfeita pra essa receita (o que vocês veem nas fotos são os restos do gratin, que transferi pra uma travessa menor na hora de requentar). Polvilhe generosamente com pimenta do reino (melhor se for moída na hora) e leve ao forno médio. O gratin está pronto quando as batatas estiverem extremamente macias (teste com a ponta de uma faca) e ligeiramente douradas (no meu forno leva entre 20-30 minutos). Se seu forno tiver a função grill (o meu tem!), passe o gratin pronto alguns minutos sob o grill pra que ele fique ainda mais dourado e forme uma casquinha crocante no topo. Sirva bem quente, polvilhado com castanhas do Pará raladas (eu não tenho castanha do Pará em casa no momento e o gratin da foto estava sem) acompanhado de uma salada verde simples. Rende 4 porções.

*Pra complementar a refeição: Pra deixar a refeição equilibrada do ponto de vista nutricional acrescente um prato à base de leguminosas, acrescente um prato à base de leguminosas, como essa salada de lentilha e pera ou essa salada de vagem, tomate e espinafre, por exemplo.

pasta de grão de bico e tomate seco

Pasta de grão de bico com tomate seco e alho assado

Muito obrigada pelas mensagens de solidariedade e apoio que vocês deixaram no meu último post. Como a ideia de viver de amor e hummus agradou algumas pessoas, acho que esse é um bom momento pra dividir com vocês uma variação da pasta mais amada no mundo (no meu mundo, pelo menos).

O hummus clássico, que ensinei a fazer aqui, é pra mim tão perfeito que não vejo sentido nenhum em alterar a receita. Às vezes vejo na internet receitas de hummus com ervas, com azeitonas, com beterraba e fico pensando na reação dos meus amigos palestinos se eu ousasse servir um negócio desses pra eles. Claro que eles gritariam “Sacrilégio!” e provavelmente se recusariam a provar a contrafação. Não me entendam mal, eu sou totalmente a favor da criatividade na cozinha e vivo adaptando receitas. Mas o hummus é tão delicioso do jeitinho que eles fazem aqui que embora eu me aventure vez ou outra com versões criativas dessa receita (a prova com esse pseudo-hummus com pimentão grelhado), sempre acabo voltando pra original.

Mas o segredo da gostosura do hummus é a tahina (ou tahine), essa pasta de gergelim que dá a cremosidade e o sabor típico ao prato e alguns leitores me escreveram dizendo que não é fácil encontrar esse ingrediente onde moram (ou que ele custa uma fortuna). Por isso pensei em sugerir mais uma alternativa de pasta à base de grão de bico sem a danada da tahina.

Quem gosta de tomate seco vai adorar a receita, mas se essa não for a sua praia fique longe dela, pois esse é o sabor que predomina no produto final. Eu adoro tomate seco, principalmente os que não são conservados no óleo (dependendo do óleo usado os tomates podem adquirir um sabor não muito agradável). E como também adoro alho assado, combinei esses dois ingredientes com o grão de bico, que tem um sabor bem neutro, pra criar uma pasta saborosa, simples e que fica pronta em poucos minutos (se o seu grão de bico já estiver cozido, claro).

Melhor do que o meu amado hummus? Não, mas é bom variar de vez em quando.

pasta de grão de bico e tomate seco2

Pasta de grão de bico com tomate seco e alho assado

Essa pasta é um ótimo recheio pra sanduíche. Espalhe uma camada generosa em um bom pão (de preferência integral e com cereais) ligeiramente tostado e acrescente os vegetais que mais gostar: tomate fresco, pepino, rúcula, palmito, berinjela ou abobrinha grelhada, alcachofra… Alho assado se transforma totalmente e o sabor fica muito suave, por isso não se assuste com a quantidade de alho dessa receita.

1x de grão de bico cozido

2cs de tomate seco picado

1 cabeça de alho (você só vai usar a metade)

1cs de suco de limão

2cs+ 1cc de azeite

Uma pitada de orégano ou manjericão (ou uma mistura de ervas finas) desidratado

Sal e pimenta do reino a gosto

Corte o topo da cabeça de alho (do lado contrário da raiz), só o suficiente pra expor alguns dos dentes e regue com 1cc de azeite. Leve ao forno alto (coloco diretamente sobre a grelha) e deixe assar alguns minutos, até a parte exposta do alho ficar dourada e o interior macio (teste inserindo a ponta de uma faca). Retire o alho do forno e deixe esfriar um pouco. Coloque o grão de bico cozido, o tomate seco, o suco de limão, o azeite e as ervas no liquidificador. Esprema metade da cabeça de alho* por cima (basta apertar cada dente de alho entre os dedos pra polpa macia se liberar), tempere com sal e pimenta do reino a gosto e junte 4cs de água. Bata a mistura até ficar homogênea, juntando um pouco mais de água (1cs por vez) até atingir a consistência de um creme espesso. Prove e corrija o tempero (talvez você queira colocar um pouco mais de limão, de azeite ou de sal). Rende um pouco mais de 1x. Se conserva alguns dias na geladeira.

*Misture a polpa da outra metade da cabeça de alho com 1-2cs de azeite, sal e pimenta do reino e passe essa pastinha no pão tostado. Delícia!

 

Bolo salgado Assado de lentilha (clique na foto pra ver melhor).

Foi isso que fiz essa semana. Eu já falei em algum post que tenho uma vizinha américo-palestina que visita o país duas vezes por ano pra fazer shows (ela faz “stand-up comedy”) e que sempre me contrata pra preparar todas as suas refeições durante a estada. Ela está aqui no momento, mas dessa vez está hospedada em Ramalla (cidade no norte da Cisjordânia) por isso tive que preparar todas as suas refeições de uma vez. Coloquei a comida em marmitas de alumínio e ela congelou tudo pra ir comendo aos poucos. Maysoon adora os pratos que invento e a coisa que mais gosto na minha profissão, se é que posso me considerar uma profissional da cozinha, é encher a barriga das pessoas de alegria, mas que trabalheira danada! Ainda não consegui dar cabo da louça suja e mesmo depois de uma boa noite de sono e três canecas de café me sinto completamente esgotada. Além do trabalho intenso e das intermináveis horas em pé, a maratona culinária contou com a participação de dois blocos de tofu podres que empestaram a casa durante dias, uma batata malcheirosa supurante que se escondeu embaixo da cesta de frutas e me vez achar que tinha um rato morto na cozinha, até eu descobrir a origem do bodum, gatos pulando na pia em busca de comida e derrubando minhas preparações no chão, algumas micro varizes e muito mau humor. Sobrevivi, mas não aconselho ninguém a aceitar uma missão dessas.

O lado positivo é que meu congelador está cheio de restos e não precisarei cozinhar novamente durante vários dias. E, apesar do caos, consegui criar novas receitas de cair pra trás! Gostaria de dividir vários pratos com vocês, mas no meio da confusão não pude fotografar nada. E os restos que dormem no congelador vão sair de lá tão feinhos que vai ser difícil convencer vocês que aquilo é gostoso. Mas consegui guardar um pedaço de bolo salgado de lentilha na geladeira e ele ainda está atraente o suficiente pra aparecer nas fotos.

Esse bolo salgado foi improvisado ontem à tarde, como solução pra um problema que encontro com frequência aqui: falta de ingredientes. Eu queria fazer croquetes de lentilha com chutney de manga, mas as mangas ainda não chegaram na feira e tive que adaptar a receita. Como eu nunca tinha feito bolo salgado de lentilha, decidi me aventurar por esse território desconhecido. Sem receita, porque gosto de viver perigosamente. Felizmente deu tudo certo e aqui estou pra dividir a receita com vocês.

Está cada vez mais difícil cozinhar e fotografar comida em paz nessa casa…

Meu bolo, além de delicioso e extremamente nutritivo, pode ser servido de várias maneiras. Ele faz papel de prato principal, pode se transformar em recheio pra sanduíche, em aperitivo (nesse caso corte em cubinhos e sirva espetado em um palito)… Acabo de comer três fatias geladas, com um café forte. Talvez eu tenha gostos estranhos (sempre gostei de comer pizza fria com café no café da manhã), ou talvez meu bolo seja tão gostoso que fique bom de qualquer maneira, em qualquer temperatura, a qualquer hora.

Bolo salgado Assado de lentilha

Use as oleaginosas que tiver em casa, de preferência uma mistura. Usei nozes e sementes de abóbora, mas imagino que castanhas do Pará e sementes de girassol também fiquem uma delícia aqui. Se puder preparar esse bolo na véspera, melhor ainda, pois os sabores ficarão mais intensos e a textura mais firme. #Uma leitora chamou o bolo de assado e achei o nome tão melhor que decidi rebatizar a receita. Obrigada pela inspiração, Márcia.

1x de lentilha crua

1 cebola grande, picada

4 dentes de alho, ralados/amassados

1 cenoura, ralada

1 maçã, picada

1/2x de salsão (talo e um pouco das folhas), picado

1x de oleaginosas (usei 2/3 de nozes e 1/3 de sementes de abóbora descascadas)

2cs de linhaça moída

2cs de shoyu (ou a gosto)

1 1/2x de farinha de aveia, mais um pouco pra polvilhar a forma (trituro aveia em flocos no liquidificador)

Azeite, sal e pimenta do reino

1/2x de molho de tomate bem temperado* (opcional)

Cozinhe a lentilha em bastante água, com um pouquinho de sal. Quando estiver bem macia escorra e reserve. Toste as oleaginosas em uma frigideira (a seco) e passe no processador até obter uma farinha grossa. Você também pode picar tudo bem miúdo com uma faca. Refogue a cebola em um pouco de azeite. Junte o alho, a cenoura, a maçã e o salsão e deixe cozinhar coberto até os vegetais amolecerem.  Desligue o fogo e junte a lentilha cozida, as oleaginosas trituradas, a linhaça, o shoyu, a farinha de aveia e uma pitada generosa de pimenta do reino. Misture bem, prove e corrija o tempero (provavelmente será necessário acrescentar um pouco de sal e sinta-se à vontade pra juntar mais pimenta ou mais shoyu, até ficar perfeito pro seu gosto).   Passe 2/3 da mistura no liquidificador. Não precisa triturar até ficar homogêneo, alguns pedacinhos devem permanecer inteiros. Misture com o resto da massa (a parte que não foi triturada). Unte uma forma estreita e comprida (dessas com o formato de um pão de forma) com azeite e polvilhe com farinha de aveia. Despeje a massa na forma, alisando a superfície com uma espátula (ou as costas de uma colher). Por cima espalhe metade do molho de tomate, se estiver usando. Asse em forno médio, pré-aquecido, durante aproximadamente 1 hora, ou até ficar bem dourado e os lados começarem e se despregar da forma (verifique o cozimento regularmente pra não deixar queimar). Você pode esperar o bolo amornar, desenformar e servir, ou fazer como fiz: desenforme o bolo ainda quente (cuidadosamente pra não despedaçar) sobre uma placa (dessas de assar biscoito), espalhe o resto do molho de tomate sobre o bolo e coloque de volta no forno até ele ficar bem dourado de todos os lados. Assim o bolo fica mais sequinho por fora e com uma cor mais atraente. Nos dois casos espere amornar antes de servir, pois a textura vai ficando mais firme conforme ele esfria. Rende aproximadamente 6 porções (ou várias fatias, dependendo da espessura que você cortar).

*Usei um resto de molho de tomate caseiro que bati no liquidificador com alguns tomates secos, um tiquinho de vinagre balsâmico e uma tâmara pra criar um ketchup natural e melhorado, que realçou o sabor do bolo.

Gelato de chocolate

Aqui no blog eu prefiro publicar receitas simples, que usam ingredientes facilmente encontrados, por isso hesitei bastante antes de dividir a receita de hoje.  Mas esse gelato criado acidentalmente é tão gostoso que seria um crime guardá-lo só pra mim.

Uma noite eu queria uma sobremesa gelada. Decidi pegar meu liquidificador e ir misturando um pouco disso, um pouco daquilo… Coloquei tudo no congelador e esperei a mistura congelar parcialmente. Eu tinha feito uma porção bem pequena e meia hora depois minha sobremesa estava pronta. Provei e pensei: “Tem potencial”. Então fui adaptando a receita, juntando outros ingredientes e, três tentativas depois (tenho que agradecer minhas cobaias pelas dicas), nasceu um gelato de chocolate vegano que deixaria minha nona italiana orgulhosa, caso eu tivesse uma. A textura é perfeita: densa e ultra cremosa, como todo bom gelato. O curioso é que embora tenha uma quantidade significativa de banana, o que predomina é um sabor de chocolate ao leite, que lembra um certo picolé famoso que eu adorava quando criança (ainda existe “chica bon”?).

Sempre adorei sorvete mas no dia que provei gelato descobri que existia algo ainda melhor.  Se você não sabe qual a diferença entre os dois aqui vai uma explicação rápida. Sorvete tem mais gordura e, durante o processo de congelação, recebe quase o dobro de ar do que gelato. Resultado: o sabor do gelato é mais intenso, já que não tem uma quantidade excessiva de gordura pra “cobrir” o sabor dos outros ingredientes, e a textura é mais densa, já que tem menos ar. Outra diferença entre os dois é que sorvete é servido congelado, enquanto que gelato é servido em uma temperatura ligeiramente mais alta, logo é mais macio (e dificil de ser degustado sem se lambuzar).

Depois de triturado pra quebrar os cristais de gelo, pronto pra voltar pro congelador.

Eu ganhei uma máquina de fazer sorvete da madrinha de Anne no natal, mas quis experimentar fazer gelato sem máquina pois sei que pouca gente possui esse equipamento. A máquina congela a mistura mexendo o tempo todo, o que quebra os cristais de gelo e deixa o gelato/sorvete cremoso. Mas é possível atingir um resultado parecido sem máquina. É importante usar uma boa dose de gordura já que além de dar cremosidade, gordura não congela (na receita uso castanhas de caju). Um pouco de álcool é bem vindo, pois álcool também não congela, contribuindo pra diminuir a cristalização da mistura. Porém o mais importante é quebrar os cristais de gelo que se formam enquanto o gelato congela. Parte do problema foi resolvido usando banana congelada, que além transformar imediatamente a conscistência, deixando-a parecida com “sorvete mole”, funciona como emulsificante, encorpando a mistura. Tudo isso com um grande bonus: o açúcar da fruta que adoça o gelato de maneira natural. Depois é só passar o gelato pronto no liquidificador, pra quebrar os cristais de gelo que possam ter se formado.

Como eu disse mais acima, gelato não é servido totalmente congelado, mas é difícil  controlar a temperatura dentro de um congelador doméstico. Por isso recomendo não colocar o gelato diretamente sobre o gelo (coloque-o sobre a grelha do congelador, se o seu tiver uma, ou sobre outro recipiente pra impedir o contato direto com o gelo) e servir assim que atingir a conscistência ideal: quase congelado mas ainda cremoso. Se sobrar gelato pra ser servido mais tarde, lembre de tirá-lo do congelador alguns minutos antes de degustá-lo.

Quanto ao ingrediente difícil de encontrar, eu estava falando das quatro tâmarazinhas que entram na receita. Tâmara é um concentrado de açúcar natural (e de nutrientes), perfeito pra adoçar sobremesas, e tem um sabor que lembra caramelo (por isso o apelido de “caramelo da natureza”). Aqui onde moro tem tâmaras por toda a parte, mas sei que no Brasil além de ser mais difícil de encontrar, elas custam uma fortuna. Nunca testei a receita sem as tâmaras, mas acredito que xarope de agave funcione como substituto. Claro que as tâmaras não são usadas só pra adoçar, elas acrescentam um suave sabor camarelizado que adoro, mas tenho certeza que o gelato ainda será delicioso sem elas. Se quiser um sabor de chocolate mais intenso, simplesmente elimine as tâmaras que o doce da banana é sufuciente pra adoçar o gelato.

Eu não sou de me entusiasmar facilmente com sobremesas, mas confesso que essa daqui merece palmas: absolutamente deliciosa e totalmente natural. Quando foi a última vez que você se deparou com uma sobremesa que faz salivar e ao mesmo tempo é saudável, sem colesterol, sem nenhum produto de origem animal, sem açúcar, cheia de vitaminas, minerais e fibras? Eu não gosto de dar ordens, mas às vezes é necessário: levante-se dessa cadeira agora e vá pra cozinha fazer esse gelato. Depois não precisa mandar flores pra me agradecer (não é ecológico e Anne é alérgica a polen) mas outros presentes são bem vindos.

 

Gelato vegano de chocolate

As melhores tâmaras são macias e suculentas. Se suas tâmaras estiverem meio secas e duras, deixe-as de molho em água morna por 1 hora. Se for substituir as tâmaras por xarope de agave, acredito que 4cs sejam suficientes. Use o melhor cacau que encontrar, puro e sem açúcar. Vai fazer uma grande diferença no sabor final. O único imperativo pra fazer essa receita é ter um liquidificador potente. Se seu liquidificador não tritura bem e deixa pedaços de fruta inteiros mesmo nas vitaminas, esqueça essa receita ou compre um liquidificador digno desse nome. Não quero fazer propaganda aqui, mas minha cunhada jura que os daquela marca que começa com “ar” e termina com “no” são os melhores de todos.

 3/4x de castanha de caju (crua*), de molho por 8 horas

1 1/2x de água

4x de banana congelada em rodelas

4 tâmaras

2cs 3cs de cacau em pó de ótima qualidade**

2cc extrato natural de baunilha

2cs de rum

Escorra as castanhas e triture no liquidificador com a água até elas se dissolverem completamente. Dependendo da potência do seu liquidificador vai levar de 30 segundos a alguns minutos então seja paciente. Esfregue um pouco do líquido entre os dedos: quando não sentir mais grânulos está pronto. Reserve (deixe o leite dentro do liquidificador). Remova os caroços das tâmaras e pique-as grosseiramente. Despeje as tâmaras picadas e o resto dos ingredientes no liquidificador (junto com o leite de castanhas) e triture até ficar homogêneo. Você vai precisar desligar o liquidificador algumas vezes e mexer tudo com uma espátula, empurrando o gelato na direção das hélices. A mistura deve ficar com aparência de sorvete mole e não deve ter nenhum pedacinho de banana inteiro. Transfira o gelato pra um recipiente de plástico com tampa e coloque no congelador. Quando estiver quase completamente congelado, despeje pedaços do gelato no liquidificador e triture novamente, pra quebrar os cristais de gelo. Mais uma vez você precisará desligar o motor algumas vezes e empurrar a mistura com uma espátula na direção das hélices. Despeje o gelato no recipiente de plástico e coloque de volta no congelador até ficar firme o suficiente pra servir. Esse gelato é super cremoso se servido poucas horas depois de ter sido preparado, mas pode ser conservado no congelador durante alguns dias (deixe alguns minutos em temperatura ambiente antes de servir). Esqueci de medir, mas acho que rende aproximadamente 1l.

*Teoricamente castanhas de caju nunca são cruas, já que é preciso assá-las pra extraí-las da casca, mas me refiro aqui à castanhas que não foram torradas, aquelas branquinhas e sem sal.

**Quando postei a receita tinha preparado o gelato com um cacau que comprei na França e que era super ultra concentrado. Fiz a receita novamente usando um cacau normal (comprado aqui em Belém) e o resultado foi bem menos intenso. Acho que 3cs é a quantidade certa se você estiver usando um cacau comum.

 

Bolo de coco e cenoura

 

Minha irmã caçula me deu uma bronca por causa do post sobre o pavê de banana. Ela disse que eu fui muito ríspida com meus leitores. Desde então me sinto culpada. Essa irmã tem o dom de me fazer sentir culpada, mas na maior parte do tempo isso é uma coisa boa. Ela me faz refletir sobre meus atos e palavras, o que me ajuda a evoluir e a me tornar uma pessoa melhor. O problema é que ela também é… ríspida. Parece que a rispidez é algo que todos nós herdamos na  família.

Açúcar pra mim é uma droga (no sentido literal). Não tem nutriente nenhum, causa inúmeras doenças e cria uma enorme dependência. Um dia explicarei, com todos os pormenores, porque acho que açúcar é um demônio, mas isso terá que esperar um pouco. Hoje, pra tentar me desculpar por ter sido tão dura com os dependentes amantes de açúcar, vou publicar mais uma receita doce e vou deixar meus leitores livres pra escolher a quantidade de açúcar que quiserem usar. ½ x, ¾ x, 1x ou até mais, você decide. Prometo não dizer absolutamente nada. E se você fizer seu bolo super doce e me oferecer um pedaço, juro que vou dar uma mordida e fazer “huuuum”(e não vou esconder o resto da fatia embaixo do tapete quando você não estiver olhando).

Quando crio receitas começo escolhendo uma base, normalmente uma receita que vi em um livro, revista ou site, e modifico de acordo com meus gostos e vontades. Esse bolo foi uma das poucas vezes que fui misturando ingredientes sem ter uma receita pra me guiar. Sempre cozinho assim quando preparo pratos salgados, mas isso é uma coisa arriscada quando se trata de bolos. Enquanto misturava a massa, vi o bicarbonato reagir com o suco de limão e tudo se transformar em uma espuma de coco e pensei: “Fiz uma bomba e ela vai explodir no forno”. Tínhamos sido convidadas pra jantar na casa de amigos e o bolo era a sobremesa que eu tinha prometido levar. Não dava mais tempo de preparar outra coisa então coloquei o bolo no forno e fiquei torcendo pra que o calor transformasse aquela coisa estranha  em algo comestível. E deu certo! Meus amigos adoraram o bolo e repeti a receita dezenas de vezes desde então.

Esse bolo é aerado, úmido e intensamente perfumado com coco. Acha a idéia de combinar coco e cenoura estranha? Nada tema! A cenoura entrou na receita pra aumentar a quantidade de fibra, e acrescentar um toque de doce natural, mas a verdade é que o gosto desaparece completamente. Além do sabor maravilhoso, a textura desse bolo é super delicada e se desfaz na boca. Com uma xícara de café fresquinho, é a melhor desculpa pra interromper suas atividades verspertinas e curtir um delicioso lanchinho.

Antes de partir pra receita, gostaria de fazer um anúncio. O site natalense “Óbvio e Atual”  fez uma matéria sobre meu trabalho na Palestina. Quem estiver curioso pra saber o que faço quando não estou cozinhando é só clicar aqui.

 

Bolo de coco e cenoura

Se não encontrar amêndoas em pó, triture amêndoas inteiras no liquidificador até atingir a textura de uma areia fina. Tenha em mente que esse bolo é leve e delicado, bem diferente dos bolos de coco ou cenoura tradicionais. Quando faço o bolo aqui em casa, uso somente ½ x de açúcar, pois detesto bolos doces demais. Com 3/4x você conseguirá um resultado mais docinho, mas ainda delicado. Pra que a doçura do bolo se aproxime mais dos bolos convencionais aumente essa quantidade pra 1x ou mais, dependendo do seu gosto.

1/2x, 3/4x ou 1x de açúcar demerara (dependendo do seu gosto)

200ml de leite de coco

3/4x de farinha de trigo

3/4x de amêndoas em pó

1cc de fermento

1/2cc rasa de bicarbonato

raspas de 1 limão

1/4x de suco de limão

1x de coco ralado (seco)

1x de cenoura ralada

Aqueça o forno em temperatura média. Esquente o leite de coco em fogo baixo. Quando estiver bem quente (não deixe ferver), despeje o coco ralado, cubra e deixe hidratar por meia hora. Misture os ingredientes secos: farinha, amêndoas em pó, fermento, bicarbonato e açúcar. À parte misture os ingredientes molhados: coco hidratado frio (com o leite de coco), cenoura ralada, suco e raspas de limão. Despeje os ingredientes secos sobre os molhados e mexa delicadamente com um batedor manual (“fouet”) até tudo ficar bem misturado. Não bata a massa, misture com movimentos suaves.  A massa terá uma conscistência aerada e leve, quase como uma espuma. Despeje a massa em uma forma pequena e rasa untada e enfarinhada e coloque no forno.  Não indico o tempo que você deve deixar o bolo no forno porque dependendo do forno e da forma usada, esse tempo variar muito. Verifique se o bolo depois de 30 minutos e veja se precisa de mais um tempinho no forno. Cuidado pra não deixar cozinhar demais, senão o bolo fica seco (o bolo da foto ficou ligeiramente tostado). Quando estiver dourado e passar no teste do palito, o bolo está pronto.  Deixe esfriar completamente antes de degustar. Sirva com café ou chá.