Quiche vegana de abobrinha, pimentão vermelho e tomate seco

Hoje quero dividir com vocês uma das minhas receitas preferidas, mas antes de começar a falar dessa jóia da gastronomia francesa preciso dizer uma coisa importante (pra mim): “quiche” é fêmea. Pronto, me sinto bem melhor agora. Não sei qual o gênero que atribuem a esse prato no resto do país, mas na minha terra todos os lugares que servem quiche chamam a coitada de “o quiche”. Sei que a confusão de gêneros não atrapalha em nada o sabor da quiche, mas às vezes sou chata assim e me importo com esse tipo de bobagem. Pra ninguém achar que sou esnobe só porque o Francês é minha segunda língua, saibam que também corrijo os franceses, que insistem em dizer “a samba” (eles acham que tudo que termina com “a” em Português é feminino).

Depois desse momento professor Pascale (que me ensinou muita coisa, diga-se de passagem), vamos falar de quiche. Esse foi um dos clássicos da culinária francesa que só descobri quando fui morar em Paris. A Natal da minha adolescência vendia churro, tapioca e pastel, mas ainda não tinha cafés oferecendo comida européia. Quiche foi um dos primeiros pratos franceses que aprendi a preparar e ela costumava aparecer na minha mesa com bastante frequência. Com a chegada do veganismo na minha vida parei de preparar essa delícia, que, como todos sabem, é composta de ovos, creme de leite e queijo (e, no caso da “quiche lorraine”, a mais tradicional de todas, uma boa dose de bacon). Mas não demorou muito pra eu descobrir que vegans ao redor do mundo estavam preparando quiches com tofu, provavelmente o ingrediente mais versátil da cozinha vegana. A grande vantagem do tofu é que ele substitui os ovos, o creme e o queijo ao mesmo tempo, garantindo uma textura muito próxima da quiche tradicional. Muitos vão argumentar que, se a textura é parecida, o sabor passa a léguas de distância do original. Não vou negar essa evidência, mas a idéia não é reproduzir o sabor e sim o conceito. Tofu, como eu já expliquei aqui no blog, é quase insípido. O que parece ser um defeito é na verdade sua maior qualidade. Justamente porque o seu sabor é neutro, ele pode ser combinado com uma infinidade de ingredientes e criar pratos completamente diferentes. No caso da quiche, como a base vegana é neutra, os outros ingredientes podem brilhar com toda sua força, sem precisar competir com o sabor marcante do ovo ou do queijo.

Sei que os não vegs podem dizer que ovo e, principalmente, queijo são deliciosos e não tem nada errado em fazer uma quiche com gosto de ovo/queijo. Eles estão certos e eu certamente adorava minhas quiches tradicionais. Mas acho importante ressaltar que é possível fazer pratos deliciosos sem esses ingredientes também. Não crio pratos veganos pra competir com pratos onívoros ou criar algo mais gostoso do que o original (mas garanto que isso acontece às vezes e é sempre uma agradável surpresa). Minha motivação principal é criar algo 100% vegetal que seja tão bom quanto, mas que tenha personalidade única. Algo que traga reconforto pros veganos que achavam que estavam condenados a se contentar  sempre com um prato menos apetitoso do que o do onívoro ao lado, mas também capaz de impressionar (e satisfazer) os não vegs a procura de sabores novos.

Tenho várias receitas de quiches veganas no meu repertório e a de hoje é a minha última criação. A massa é tão gostosa que eu poderia assá-la sozinha e comê-la como um salgadinho. O recheio mistura alguns dos meus ingredientes preferidos (pimentão vermelho grelhado, tomate seco, mangericão), que tem sabores marcantes e se harmonizam perfeitamente. Fazer quiche é um pouco demorado e trabalhoso, mas o resultado final vale cada segundo que você passar na cozinha. Essa quiche é tão saborosa que entra na categoria dos pratos veganos que os onívoros adoram ( fiz o teste dezenas de vezes).

Mas o meu maior prazer é serví-la pra veganos que, como eu, suspiram de inveja ao ver seus amigos comer quiches suculentas do seu lado enquanto eles bebem tristes um café preto porque é a únca coisa vegana do cardápio (em Natal cappuccino com leite de soja ainda é algo que não existe). Amigo(a), se você já passou por essa situação, a receita de hoje é pra você. Um dia vou criar uma ONG que distribuirá quiches veganas pra todos, mas enquanto esse dia não chega levante dessa cadeira, compre um bloco de tofu e faça uma bela quiche, no feminino e vegana! Chegou a sua vez de fazer os onívoros suspirarem de inveja*.

*Aviso: esse blog não tem intenção nenhuma de criar sentimentos de rivalidade entre veganos e onívoros. Faça quiche, não faça guerra!

Quiche vegana de abobrinha, pimentão vermelho e tomate seco

A receita é longa, mas os ingredientes são simples e, como disse, o resultado vale a pena. Eu gosto tanto da massa (ligeiramente adaptada dessa receita) que resolvi fazer uma quantidade maior dessa vez, mas confesso que com tanta massa a quiche ficou meio seca (nas fotos dá pra ver que as bordas são bem mais altas que o recheio). Mas não se preocupe que a receita publicada aqui faz a quantidade certa de massa, logo você não terá esse problema. O ideal é usar uma forma de mais ou menos 28cm de diâmetro. Se ela tiver aro removível você poderá transferir a quiche inteira pra um prato ou bandeja antes de servir, mas se você não tiver uma forma assim, pode usar uma comum e servir a quiche dentro dela.

Massa

1x de farinha de trigo

½ x de aveia fina

3cs de gergelim tostado (toste gergelim cru em um frigideira seca durante alguns minutos, até ficar dourado)

1/2cc de bicarbonato de sódio

3/4cc de sal

1/3x mais 1cs de azeite

1/4x de água

Recheio

3x de tofu (do tipo macio, esfarelado com os dedos antes de medir)

2 cebolas pequenas (ou 1 bem grande)

4 dentes de alho

2 ½ x de abobrinha em rodelas finas

1 pimentão vermelho

1/3x de tomate seco picado

2cs bem cheias de manjericão fresco picado

3cs de azeite, mais pra untar

3cs de suco de limão

sal e pimenta do reino moída a gosto

Comece a preparar o recheio. Unte ligeiramente com azeite uma placa de metal e disponha as fatias de abobrinha. Tempere com sal, regue com 1cs de azeite e asse em forno médio/alto até ficar dourado em alguns lugares (veja foto acima). Aproveite pra assar o pimentão (inteiro) ao mesmo tempo. Quando o pimentão estiver com a casca queimada (mais detalhes em como assar pimentão aqui), retire do forno e coloque imediatamente dentro de uma vasílha com tampa. O pimentão vai suar e a casca vai descolar facilmente. Quando ele estiver morno, corte-o ao meio, descarte as sementes e a pele e pique-o em pedacinhos. Reserve.

Prepare a massa. Misture todos os ingredientes e amasse bem. A textura lembrará areia úmida. Esfarele a massa sobre a forma e espalhe com os dedos, apertando bem pra formar uma camada uniforme no fundo e nas laterais. Uso uma forma de 28cm de diâmetro e a quantidade de massa é suficiente pra cobrir o fundo e formar uma borda da altura do recheio. Asse a massa (sem recheio) durante 10 minutos e reserve.

Termine de preparar o recheio. Enquanto a abobrinha assada esfria, pique as cebolas e o alho. Aqueça 2cs de azeite e refogue a cebola até ficar dourada. Junte o alho e cozinhe mais 1 minuto. Triture o tofu, a cebola/alho refogados, o suco de limão, o sal (uso 1cc) e a pimenta do reino (uso 1/3cc) no liquidificador. Se seu tofu for meio firme, será preciso juntar algumas colheres de sopa de água pro motor continuar funcionando. Transfira a mistura pra um recipiente grande, junte o pimentão grelhado, o tomate seco, a abobrinha assada e o mangjricão. Misture bem, prove e corrija o tempero.

Espalhe o recheio sobre a massa pré-assada e asse em forno médio. A quiche está pronta quando as bordas estiverem douradas e o recheio inchar um pouco (vai aparecer algumas rachaduras na superfície) e ficar bem firme (aperte com a ponta dos dedos pra testar). No meu forno leva de 30 à 45 minutos. Sirva acompanhada de uma salada verde. Rende 4 porções como prato principal.

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